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A loucura em obras literárias brasileiras

A Faculdade de Letras da UFRJ realizou na última quinta-feira, 24 de abril, a palestra “Profetas, vates ou vítimas? Os loucos na literatura do século XIX” proferida por Friedrich Frosch, professor do Instituto de Romanística da Universidade de Viena.

A Faculdade de Letras da UFRJ realizou, no dia 24 de abril, a palestra “Profetas, vates ou vítimas? Os loucos na literatura do século XIX” proferida por Friedrich Frosch, professor do Instituto de Romanística da Universidade de Viena. Além dele, estiveram presentes, Vera Lins e Thereza Oliveira, professoras do departamento de Ciência da Literatura da UFRJ.

Friedrich Frosch ganhou um prêmio do Itamaraty por seu trabalho realizado em Viena, a respeito da presença da loucura em diversas obras literárias, sobretudo em autores como Machado de Assis, Lima Barreto, Sá Carneiro, Nodier, Balzac e Maupassant, membros da literatura brasileira, portuguesa e francesa respectivamente.

A palestra apresentou trechos desse trabalho e fez parte de um convênio que a Faculdade de Letras está realizando com o Instituto de Romanística.

O professor convidado apresentou diversos exemplos na literatura, descreveu alguns romances, mostrando de que forma a loucura se fez presente e relacionou a questão da insanidade com o desenvolvimento capitalista, que separou as pessoas e tentou acabar com a noção de solidariedade, lançando o que ele chamou de “as raízes da loucura.”

O palestrante desmentiu a imagem que já foi atribuída a Balzac, como sendo um escritor demasiado realista, através da demonstração de que grande parte da sua obra trata de fenômenos inexplicáveis, sobrenaturais, em que ele desenvolve, a partir da mistura de algumas das teorias médicas e científicas do século XIX, a teoria do fluido energético. De acordo com ela, a loucura seria proveniente da má administração da vida.

Maupassant desenvolve em um dos seus contos, “O Horla”, a idéia de que a loucura, uma doença psíquica, é levada à França através de um navio que parte do Rio de Janeiro e chega até o protagonista da história.

Ao falar de Portugal, citou Camilo Castelo Branco e Sá Carneiro. O primeiro, produziu páginas pouco elaboradas e nelas, ocorre a presença de personagens femininas que enlouquecem por amar demais e não saberem lidar com o pecado, uma outra causa para a loucura. O segundo, marcou a literatura portuguesa como poeta. Em muitas das suas obras está presente a imagem do suicida, que mantém uma relação estreita com a insanidade.

Machado de Assis e Lima Barreto foram escolhidos pelo professor dentro da literatura brasileira. Em “Dom Casmurro”, obra machadiana, o palestrante analisou a patologia do ponto de vista social. Para ele, a insanidade vinha da desconfiança pelo fato de que Capitu e Bentinho, protagonistas da história, pertenciam a classes sociais diferentes. O período termina na primeira grande guerra, quando as idéias de Freud são espalhadas pelo mundo.

Esses autores brasileiros foram inspirados por Andrew Mosley que escreveu uma obra sobre loucura e crime, onde desenvolveu a idéia de que o gênero humano havia há muito tempo entrado em decadência e que a cada geração, as pessoas acumulavam defeitos físicos e psíquicos que levariam ao fim da espécie em determinado momento.

Nodier considerava que a história não era tudo, mas que havia um desenvolvimento humano a nível espiritual e a partir de então desenvolve uma cultura baseada no misticismo e nas teorias orientais. Também foi influenciado por pensadores pouco conhecidos da época que desenvolveram a metempsicose, ou transmigração das almas. “Esta é uma teoria que defendia que o ato de nascer e morrer várias vezes fazia circular a alma por várias existências e as pessoas poderiam então chegar a um estágio de ser superior. Esse pensamento mostra que também acreditava no fim da humanidade, mas sob o ponto de vista positivo, pois acabaria para ser substituída por algo melhor”, comentou o professor.

A partir disso, segundo Friedrich Frosch, o louco era considerado um vate, ou seja, uma espécie de vidente, que conseguia ter contato com outras dimensões, consideradas pelos pensadores da época, como sendo superiores.

A obra de Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, também foi mencionada para elucidar outra causa que se atribuía à loucura. Neste caso, considerava-se que ela vinha daquele que estudava demais, que usava o cérebro em demasia.

Ao final da palestra, o professor apresentou a literatura fantástica, outra característica importante do século XIX e como ela mantém uma relação de vitalidade com o sentimento da angústia. “São obras que devem puxar o leitor para dentro do livro e deixá-lo indeciso no meio da história” , explicou Friedrich Frosch.

Embora seu trabalho seja muito mais extenso, o convidado procurou mostrar seus principais aspectos ao analisar de forma resumida, em que momentos específicos da literatura pode ser encontrada a loucura e lançando a base para futuros estudos mais aprofundados sobre o tema.