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Dengue e remédios: todo cuidado é pouco

Longe de estar resolvida, a epidemia de dengue ainda está presente no Rio de Janeiro e a população fluminense continua em alerta. Atualizando os números, já são mais de 75 mil casos confirmados no estado – quase 20 mil casos a mais do que na quinta-feira da semana passada. Entretanto, quando o estado de alerta transforma-se em medo e chega até a pânico, problemas ainda mais sérios podem ser causados.

Longe de estar resolvida, a epidemia de dengue ainda está presente no Rio de Janeiro e a população fluminense continua em alerta. Atualizando os números, já são mais de 75 mil casos confirmados no estado – quase 20 mil casos a mais do que na quinta-feira da semana passada. Entretanto, quando o estado de alerta transforma-se em medo e chega até a pânico, problemas ainda mais sérios podem ser causados.

Para dar continuidade à série de reportagens sobre dengue, o Por uma boa causa aborda, nessa edição, a relação entre a doença e os fármacos. Apesar de precisar ser gerenciado com cuidado, o uso de substâncias químicas é quase inevitável, principalmente no combate a um dos principais sintomas: a febre.

Quem orienta é Lídia Moreira Lima, professora do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (Lassbio – UFRJ). Segundo ela, quando a febre é superior a 39 °C, a situação já pode ser considerada problemática e alguma medida de combate deve ser tomada. Nesse caso, o uso de antitérmico é recomendado.

Há dois tipos principais de fármacos antitérmicos: o ácido acetilsalisílico e o paracetamol. De acordo com a professora, os primeiros, chamados salicilatos, não podem ser utilizados na dengue. O uso indevido pode ocorrer, contudo, quando o paciente confunde os sintomas de dengue com os da gripe comum.
— Se o paciente tem um quadro febril associado a fortes dores de cabeça, muscular e sem a secreção característica já pode desconfiar que os sintomas não são de uma gripe comum, considerar a possibilidade de dengue e descartar, portanto, o uso dos salicilatos — alerta Lídia Moreira. Diferenciar as duas doenças é fácil. Segundo a professora, sinais como coriza e secreção na garganta (‘catarro’) jamais aparecem na dengue.

Por que evitar os salicilatos

O efeito do ácido acetilsalisílico está diretamente relacionado ao aumento das possibilidades de hemorragia. Há muito tempo a sabedoria popular afirma, “aspirina afina o sangue”. Cientificamente falando, isso significa que o trabalho das plaquetas fica comprometido, conforme explica a professora.

— O mecanismo de ação desses fármacos funciona a partir da inibição de uma enzima chamada ciclooxigenase. Isso leva a uma inibição também do processo de agregação plaquetária. O que significa que o organismo estará mais sujeito a quadros hemorrágicos — esclarece.

Já o mecanismo do paracetamol é diferente. No caso desse fármaco, a inibição da ciclooxigenase não ocorre. “A grande diferença entre paracetamol e aspirina é que o paracetamol não tem propriedades de inibir agregação plaquetária. Em função disso, ele pode ser seguro em pacientes com dengue hemorrágica”, afirma a farmacêutica.

Os efeitos dos excessos

O paracetamol é um medicamento de venda livre. Isso significa que, além de não ser necessário apresentar a prescrição médica para comprá-lo, a cartela não acompanha bula. Contudo, quem pesquisar um pouco vai encontrar algumas restrições no uso do fármaco.

Um bom lugar para começar a pesquisa é o Bulário eletrônico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Há uma advertência na bula do fármaco, dizendo que o paracetamol não pode ser usado por mais de sete dias. O que acontece no caso da dengue é que o período da ocorrência dos sintomas normalmente ultrapassa o limite de uso do paracetamol”, explica Lídia Moreira.

Ela lembra que, no caso da dengue, é comum o paciente saturar o organismo com a substância, ingerindo o fármaco de três a quatro vezes ao dia. Isso pode gerar uma lesão no fígado, onde o medicamento é metabolizado. “Apesar da probabilidade significativa de se desenvolver distúrbios hepáticos, há alguns sinais que se manifestam antes de um quadro sério”, ressalta a professora, listando sintomas como enjôos e vômitos. À medida que esses sintomas vão ficando mais graves, é recomendada a suspensão imediata do paracetamol.

— É importante observar que apesar de o paracetamol ser indicado para pacientes com dengue, deve ser evitado por pacientes com suspeita de dengue hemorrágica — alerta a especialista. Segundo ela, o vírus que causa a dengue hemorrágica já provoca a lesão hepática. “Nesse caso, com o efeito do vírus e o potencial efeito do fármaco somados, o paciente fica muito mais sujeito a ter uma necrose ou uma disfunção hepática, que pode culminar na chamada falência hepática, que leva à morte”, detalha Lídia Moreira. Esse cuidado também inclui pacientes alcoólatras e com disfunções hepáticas, como cirrose.

Longe do tratamento eficaz

De acordo com o Ministério da Saúde, não há um tratamento comprovadamente eficaz contra a dengue. Medicamentos como paracetamol tratam apenas dos sintomas. Para Lídia, ainda é difícil pensar em um tratamento farmacológico eficaz contra a doença. Existem pesquisas em andamento em busca de um fármaco eficiente para dengue, porém ainda não obtiveram sucesso. A farmacêutica explica que a alta capacidade de mutação do vírus tem papel fundamental no fracasso das pesquisas.

Há uma meta ideal desejada pela comunidade científica. O termo é quimioterapia seletiva. “Isso significa que estamos buscando um fármaco que possa combater um vírus sem danificar o organismo. Para isso, é preciso identificar um alvo molecular que esteja presente no vírus e ausente no mamífero. Como ainda não se descobriu nenhum alvo potencial, não temos hoje nenhum fármaco eficaz e as perspectivas para que se tenha isso em mãos daqui a cinco anos são muito baixas”, avalia a professora, considerando, no entanto, mais sólidas as chances de uma vacina eficaz ser produzida nos próximos anos.