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Pesquisa combate Acidente Vascular Encefálico

Todo ano, milhares de brasileiros e brasileiras morrem, vítimas de acidente vascular encefálico (AVE). Também conhecida como acidente vascular cerebral ou, popularmente, como derrame, a doença é a segunda maior causa de morte no mundo inteiro. No Brasil, em 2004, por exemplo, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 90 mil óbitos foram registrados, liderando o ranking. Além disso, quem não morre pode vir a conviver com seqüelas incapacitantes, conforme observa a professora Rosalia Mendez-Otero, vice-diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF).

 Todo ano, milhares de brasileiros e brasileiras morrem, vítimas de acidente vascular encefálico (AVE). Também conhecida como acidente vascular cerebral ou, popularmente, como derrame, a doença é a segunda maior causa de morte no mundo inteiro. No Brasil, em 2004, por exemplo, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 90 mil óbitos foram registrados, liderando o ranking. Além disso, quem não morre pode vir a conviver com seqüelas incapacitantes, conforme observa a professora Rosalia Mendez-Otero, vice-diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF).

Rosalia coordena um protocolo clínico no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCCF), que pesquisa a terapia celular no combate à doença. Atualmente, o tratamento para o problema não é satisfatório, na análise da especialista. “No momento, não há nenhuma terapia. Para a pessoa que tem um AVE, a única medicação aprovada é o trombolítico, um agente que vai dissolver o trombo, mas isso só pode ser aplicado até três horas após o AVE”, explica a pesquisadora. Caso o procedimento seja feito tarde demais o problema pode se agravar.

Por causa de limitações como essas e, muitas vezes, a indisponibilidade de recursos nos hospitais, poucos são os que conseguem socorro a tempo. “A situação é crítica, pois a doença é altamente prevalente, não há muito o que fazer, 30% dos indivíduos morre e quem sobrevive, na maioria das vezes, fica com seqüelas”, avalia a pesquisadora, lembrando que é comum vítimas de AVE precisarem de ajuda para as tarefas mais básicas, como se vestir ou se alimentar, tornando suas vidas improdutivas. “Isso representa um ônus para a família, para o próprio indivíduo, para a sociedade e para o Estado, pois gera um custo muito grande para o sistema”, comenta a professora.

Segundo Rosalia Otero, a doença pode ser relacionada a várias causas. Uma delas, por exemplo é a arteriosclerose. Semelhante ao mesmo tipo de problema que danifica artérias do coração, placas se formam nas artérias do cérebro. Se isso chega a um ponto capaz de obstruir o fluxo, então o que tiver além do ponto de obstrução não recebe sangue.

O mau funcionamento do coração também pode levar a um acidente. “Um problema cardíaco prejudica o bombeamento, liberando trombos obstrutores do fluxo sanguíneo”, explica a doutora.

Modelo animal
Antes, porém, de chegar aos testes em pacientes, foi necessário demonstrar a possível terapia em animais. Esse processo permite que os conselhos e órgãos responsáveis avaliem se a técnica é segura e útil. Para essa pesquisa, foram utilizados ratos e camundongos. “Após todos os ratos serem lesionados, por meio de uma obstrução em uma artéria cerebral, um grupo de animais recebe as células tronco e outro recebe placebo. Então, testamos todo dia após a lesão, durante um mês”, relata Otero.

Os testes são bem simples. O animal é colocado em um cilindro de vidro, onde seu comportamento é observado pelos especialistas. “Imediatamente, ele irá manifestar seu comportamento exploratório; fará isso apoiando-se no cilindro, ora com uma pata, ora com outra, ora com ambas. O animal que teve a lesão sempre vai usar a pata sã”, detalha a professora, lembrando que o fato de o tratamento funcionar no modelo animal não significa sucesso garantido para os pacientes.

A terapia
O tratamento proposto pelo grupo de Rosalia Otero é baseado na terapia celular. Para a pesquisa, no estágio atual, as células utilizadas são as células-tronco adultas, extraídas da medula óssea. Depois disso, as células são encaminhadas, por cateterismo, à artéria cerebral média, onde começam a atuar. “Dos estudos em laboratório, sabemos que elas não se transformam em neurônios. Na verdade, elas são mini-bombas farmacológicas, que produzem uma série de substâncias ‘protetoras’ de neurônios”, explica a pesquisadora.

Essa proteção aos neurônios sobreviventes ocorre através da liberação de uma série de fatores farmacológicos que possibilitam a sobrevivência dos neurônios restantes na área afetada. “São fatores neurotróficos, fatores importantes para a criação de novos vasos”, esclarece a especialista. “Por isso fazemos o trabalho na fase aguda e semi-aguda. Há um grupo de neurônios que morre imediatamente e há vários que ficam no local durante uma ou duas semanas, ‘indecisos’ se conseguem sobreviver ou não”, completa. O que ocorre a seguir é resultado da manutenção dessas células, que, preservadas, retomam as atividades no cérebro e diminuem os efeitos do AVE.

Células adultas x células embrionárias
Apesar de não ter a capacidade de formar qualquer tecido, como as células embrionárias, as células-tronco adultas oferecem mais segurança no tratamento. Um dos maiores riscos de se trabalhar com as embrionárias é a alta chance de formação de tumores. Nas palavras da professora, a vocação dessas células é se dividir inúmeras vezes até formar os folhetos embrionários. “Quando esse tipo de célula é implantado no sistema nervoso, em 50% dos casos, em vez de se diferenciar só em células do sistema nervoso, ela expressa toda sua vocação, que é formar um tumor”, afirma.

Por outro lado, nem sempre a atuação de células adultas pode surtir algum efeito. Em certos casos, apenas a capacidade de diferenciação das embrionárias pode regenerar um tecido. “O máximo que podemos esperar das adultas é esse efeito de mini-bombas. Há doenças em que não temos mais o que salvar”, comenta Rosalia.

A pesquisa e a Lei de Biossegurança
A Lei de Biossegurança, que sofre Ação Direta de Inconstitucionalidade, atualmente permite a pesquisa com células de embriões congelados em laboratórios de fertilização in vitro por três anos ou mais. Para a professora, proibir a pesquisa com células embrionárias é um erro.

— É muito importante continuar as pesquisas com células embrionárias, não só porque pode vir a se tornar uma ferramenta terapêutica, mas também porque estudar uma célula que tem todo esse potencial de diferenciação pode nos levar a entender uma série de fenômenos que ocorrem e que não temos como estudar —, opina. Entre os benefícios, entender o câncer, que, conforme ela explica, começa em uma célula que retornou a sua vocação embrionária e começou a se dividir indefinidamente.

Se a Lei fosse revogada hoje, a professora acredita que a pesquisa ficaria limitada. “Ficaríamos limitados a esse tipo de terapia nesses pacientes e não poderíamos pensar em pacientes crônicos e em outras doenças neurológicas, em que esse papel de bomba biológica não resolve a questão”, considera. “Estamos trabalhando com um tipo de célula que parece ter uma função importante, mas talvez não sirva para tudo”, complementa.

Constante caminhar
Quem foi vítima de AVE há muito tempo, ainda não pode esperar muito da pesquisa. Atualmente o protocolo se encontra na primeira fase – a fase de segurança. Nesse período, como sugere o nome, o objetivo é apenas demonstrar que a terapia é segura. Os estudos, no momento, estão analisando pacientes na fase aguda e semi-aguda (três a cinco meses após o AVE).

Também pelas exigências da fase de segurança, o protocolo foi aprovado com dez pacientes com AVE isquêmico (mais brando e mais prevalente que o hemorrágico). Num próximo momento, é possível que a pesquisa avalie outros tipos da doença e, possivelmente, numa fase de eficácia, estender para pacientes com mais tempo de lesão. “Mas tudo isso é um caminhar, em que um passo depende do anterior. Ainda não temos bases científicas nem dados suficientes para convencer um comitê de ética a autorizar uma pesquisa em pacientes crônicos”, conclui Rosalia Otero.