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Tropa de elite, osso duro de roer

A polêmica que gira em torno do filme Tropa de Elite começou mesmo antes de sua estréia nos cinemas e garantiu platéia cheia no salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FCC/UFRJ).

 A polêmica que gira em torno do filme Tropa de Elite começou mesmo antes de sua estréia nos cinemas e garantiu platéia cheia no salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FCC/UFRJ). Nesta terça-feira, 16 de Outubro, aproximadamente 300 pessoas puderam assistir a exibição do longa-metragem brasileiro, e mais de 800 compareceram ao debate no Teatro de Arena da universidade. O evento contou com a presença de José Padilha, diretor de Tropa de Elite, além de Luiz Eduardo Soares, autor de Elite da Tropa, livro que serviu de inspiração para o filme e que foi escrito com colaboração de Rodrigo Pimentel e André Batista, antigos integrantes do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

Algumas cenas do filme arrancaram aplausos da platéia, a exemplo do momento em que o personagem Matias, interpretado por André Ramiro, acusa os consumidores de drogas ilícitas de financiar o tráfico, sendo também responsáveis pela violência nas favelas. A indignação foi igualmente explícita diante do jogo de corrupção da polícia militar retratado no filme.

Logo no início do debate, o diretor esclareceu que Tropa de Elite carrega a mensagem de crítica ao extremismo do BOPE. Segundo ele, o conflito vivido pelo protagonista, capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, é justamente esse, de que é um equívoco acreditar que a violência se resolve apenas com violência. No longa-metragem “Ônibus 174”, lançado em 2002, o diretor explorou o ponto de vista do transgressor, um menino de rua que se tornou seqüestrador, mais uma vítima do descaso do Estado. Em Tropa de Elite, Padilha foge da tradição cinematográfica brasileira e monta a trama a partir da narrativa do BOPE. “O interessante é perceber que o comportamento dos dois agressores, bandido e polícia, foram criados pelo mesmo contexto social montado ao longo dos anos”, argumenta o diretor.

Luiz Eduardo, antropólogo e cientista político, falou a respeito das estimativas anuais de vítimas das violentas ações policiais nas favelas. “Em 2006, morreram 1062 pessoas com sinais de execução nos centros do tráfico. Até agora, em 2007, este número já foi ultrapassado. A maioria dos alvos é de pessoas negras e pobres, que perdem a vida devido à brutalidade policial. É preciso perceber o absurdo disso”. Dados como estes chamaram a atenção de Luiz Eduardo, que se aprofundou na pesquisa com a qual escreveu Elite da Tropa. Ele atenta para o fato de que muitos policiais viveram em um ambiente semelhante ao dos traficantes, sofreram também com a opressão e com a pobreza. A dinâmica social, de acordo com o antropólogo, gera um ciclo perverso de conversão de vítimas em vilões e vice-versa. São fortes os fatores que provocam os comportamentos extremos dos traficantes e da polícia. Luiz Eduardo argumenta que não é possível analisar um cenário deste tipo com uma visão maniqueísta, o bem contra o mal, mas nada deve justificar a prática de torturas, nem a corrupção.

Os quatro convidados para o debate concordaram que grande parte do problema está na formação do BOPE. Os oficiais desta instituição aprendem que o papel deles é subir no morro e deixar corpos. Fazer isso é ser herói e atender o desejo da sociedade contra o crime. Rodrigo Pimentel nega o papel de vítima, afirmando a consciência dos atos extremos que cometeu no combate ao tráfico de drogas. Por sua vez, André Batista, ex-capitão do BOPE, declarou sua relação ambígua com a estrutura da polícia brasileira e criticou o programa de política de segurança pública vigente. “No Brasil, com 20 anos a pessoa já pode comandar um grupo no BOPE e lidera as ações nas favelas dominada pela lavagem cerebral que ocorre durante o treinamento”, explica André. Segundo ele, o erro está na formação, mas defende que o comportamento desses oficiais é regido pela verdadeira crença de que a ação violenta é a única solução.

Um dos estudantes presentes ao debate criticou Padilha por enaltecer o BOPE no filme, já que a mensagem de crítica ao extremismo dos policiais fica muito implícita, convocando a população menos instruída a aplaudir torturas contra os traficantes. O diretor reagiu contra o que considerou um pensamento elitista. “Não se pode considerar que apenas os intelectuais são capazes de compreender o recado de que a realidade em Tropa de Elite é um absurdo a ser combatido. E certamente não cabe à elite social determinar o que as classes menos favorecidas podem ou não assistir, a que informações podem ter acesso”, rebateu.

Na questão da pirataria do longa-metragem, o diretor afirmou que isso é crime, determinado por lei, além de ser uma prática que nega os direitos trabalhistas da equipe que se esforçou para construir o Tropa de Elite e levar a obra aos cinemas. A respeito da legalização das drogas, Padilha e Luiz Eduardo se afirmaram favoráveis a esta decisão, como um caminho de minimizar o poder paralelo do tráfico.