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Engenharia do Entretenimento, Dorival Caymmi e Poesia

 Começou nesta quarta-feira, no Fórum de Ciência e Cultura, o III Congresso de Engenharia do Entretenimento, coordenado por José Augusto Nogueira Kamel, professor do programa de engenharia de produção da UFRJ. Segundo o coordenador, o tema inspirado na música de Dorival Caymmi, “Só louco amou como eu Amei”, evidencia a mistura presente na formação cultural brasileira e afirma sua identidade, permitindo alcançar o objetivo do Congresso: diálogo para ampliação, complementação e desenvolvimento do nível de conhecimento teórico-prático das atividades de entretenimento como a música, o cinema, o carnaval, os esportes, a televisão, a internet, o turismo, as artes em geral e manifestações populares.

Kamel conta que o projeto de realizar um congresso com essa temática começa a amadurecer com o estabelecimento da engenharia do entretenimento como matéria eletiva para o curso de graduação da engenharia de produção, em 2000, e da pós-graduação em 2003. “O interesse pelo assunto cresce ao longo desse tempo entre estudantes e profissionais não apenas de engenharia, mas também de cursos como comunicação social, letras, entre outros. A partir dessa demanda, realizamos então, em 2005, o I Congresso de Engenharia do entretenimento, com o tema ‘meu vício, minha virtude’, que contou com a participação de diversos profissionais da própria UFRJ e convidados. No ano passado repetimos a dose, dessa vez com o mote ‘Rio o ano todo’, criando um duplo sentido entre o ato de rir e a forma do morador da cidade do Rio de Janeiro de encarar sua realidade cotidiana. Agora, numa homenagem a Caymmi e à diversidade brasileira, adotamos o tema ‘Só louco amou como eu Amei’”, lista o coordenador.

O professor acredita que sua formação como músico, ator e engenheiro, as duas primeiras respectivamente pela escola de Música Villa Lobos e pela Casa de Artes Cênicas, contribuiu para a idealização do projeto, que aplica o olhar acadêmico do curso de engenharia a atividades de compreensão do universo do entretenimento, que não são tradicionalmente observadas. “Essa é uma área cujo interesse é muito voltado à indústria e aos serviços. Dentro desse mercado, surge esse núcleo de atividades do entretenimento que é ignorado. Parte disso evidencia porque a princípio não eram desenvolvidos trabalhos, disciplinas e convênios direcionando os estudantes para o mercado de empresas como redes de televisão e gravadoras”, ressalta Kamel, que, segundo uma de suas alunas participantes da organização do evento, também é nomeado palhaço pelo eterno Carequinha.

O coordenador também esclarece que o engenheiro atuante nessa área aplica os mesmos parâmetros de trabalho tanto na indústria, nos serviços ou no entretenimento. “o profissional confere o produto, acompanha o processo e desenvolve projetos de aprimoramento das condições de trabalho dos funcionários daquela empresa, além de aperfeiçoar os mecanismos de produção que afetam de forma positiva o consumidor. No entretenimento, além desses parâmetros, é necessária a adoção de um olhar diferenciado, pois apresenta uma situação peculiar: o público. Em caso de haver algum erro, por exemplo, em indústrias convencionais a reclamação é tardia, após o consumo. Para empresas de entretenimento, por sua vez, uma possível indignação é concomitante, imediata”, exemplifica o professor.

O especialista então completa o esclarecimento sobre a aplicação dessa forma de engenharia, enfatizando um dos objetivos do Congresso. “Às vezes, as pessoas entendem que entretenimento é somente diversão. Pelo contrário, o entretenimento pode e deve ser encarado também como um produto, que passa por um processo de desenvolvimento. Esta é a nossa finalidade, mostrar essa faceta a partir do ponto de vista da engenharia de produção, aliada à interdisciplinaridade”, enfatiza Kamel.

O evento

A abertura do evento ficou por conta de José Augusto Kamel, que de forma descontraída e com o auxílio de um simpático casal de palhaços, defendeu a importância da interdisciplinaridade na discussão sobre o entretenimento, principalmente no que diz respeito a um dos temas que é debatido no congresso: a exclusão digital. “O que é entretenimento em nossa vida atual? Hoje, podemos jogar esse enfoque para o campo das novas tecnologias e mídias digitais e virtuais. Principalmente porque estamos e fazemos parte de uma instituição de ensino, devemos pensar sobre qual seria o papel das novas mídias na educação. Precisamos desenvolver uma malha funcional de acesso a essas vias, levando em conta as dimensões continentais de nosso país, bem como sua numerosa população, pois bem sabemos que muitas das novas tecnologias não são acessíveis a todos. Consequentemente, a questão do entretenimento também precisa ser revista diante dessa nova forma de exclusão que surge junto com essas mídias”, e destaca o professor.

Antes da exibição do filme “Um certo Dorival Caymmi”, Kamel registra a homenagem ao compositor e poeta, exaltando a sua “forma de fazer música, baseada na sensibilidade e o modo de ver o mundo do povo brasileiro”, elogia o professor.

O evento conta também com a formação de mesas redondas, apresentações de dança flamenca, exposições de trabalhos e das poesias inscritas no concurso lançado pelo Congresso. Em sua segunda edição, o Concurso de Poesia, também com o tema “Só louco amou como eu amei”, tem por objetivo homenagear a cidade do Rio de Janeiro, inspiração da maioria das atividades do congresso.

Além da programação que acontece no Fórum de Ciência e Cultura, o congresso estende-se ao Bar da Ladeira e ao Teatro Odisséia, ambos na Lapa, para o coquetel de lançamento do livro sobre o II Congresso de Engenharia do Entretenimento e para apresentações de roda de samba, galantô e forró de ponta. A programação completa pode ser conferida no site http://www.lee.ufrj.br/cee/index.htm