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Álcool e direção: perigo iminente

Há 20 anos, José Mauro Brás de Lima, coordenador do Centro de Estudos de Prevenção e Reabilitação do Alcoolismo (Cepral – UFRJ), vem desenvolvendo pesquisas sobre os efeitos do álcool na saúde pública, com ênfase em seus desdobramentos no trânsito.
 Há 20 anos, José Mauro Brás de Lima, coordenador do Centro de Estudos de Prevenção e Reabilitação do Alcoolismo (Cepral – UFRJ), vem desenvolvendo pesquisas sobre os efeitos do álcool na saúde pública, com ênfase em seus desdobramentos no trânsito. Recentemente, o Cepral apresentou os resultados do estudo durante o 19º Congresso da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas (Abead), que aconteceu de 5 a 8 de setembro no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, e também durante a primeira Semana Mundial das Nações Unidas de segurança viária, ocorrido entre os dias 23 e 29 de abril, em Brasília.

Segundo o coordenador, um dos problemas mais sérios na saúde e segurança pública, do Brasil e do Mundo, é o abuso no consumo de bebidas alcoólicas aliado à direção. “Além dos problemas relativos ao trânsito, o álcool está relacionado a acidentes, a violência e a doenças”, expõe o especialista. Segundo estimativas sobre a ocupação de leitos nos hospitais, os relacionados ao consumo do álcool apresentam, “a terceira maior causa de morbimortalidade, representam a ocupação de cerca de 30% dos leitos em hospitais públicos, 60% nos hospitais psiquiátricos e 45% dos casos de emergência”, conta.

O médico destaca ainda os índices fornecidos pela OMS, de morte no trânsito: “O álcool é fator preponderante em 80% dos casos, morrem no mundo 1,2 milhões de pessoas em acidentes de trânsito. É fácil, portanto, reconhecer as implicações de uso e abuso de seu consumo”, revela. José Mauro conta também que a pesquisa utiliza dados fornecidos por testes de alcoolemia (nível de álcool por litro de sangue) realizados pelo Instituto Médico Legal em 94 vítimas de acidentes.

O teste detectou em 83 vítimas, 88,3% do total, a presença de álcool no sangue, dos quais, em 60,2% dos casos, tinham níveis de álcool superiores a 0,6 grama, o limite máximo tolerado. O especialista chama a atenção, porém, aos 38,3% de óbitos restantes, com nível de álcool no sangue abaixo deste limite, de índices entre 0,1 g/l a 0,59 g/l. “Esse número evidencia um aspecto importante do consumo de bebidas alcoólicas: dependendo da sensibilidade de cada pessoa e de co-fatores –  sonolência, fadiga, hipoglicemia, estresse e uso de medicamentos entre outros – a ingestão de álcool pode ser considerada uma efetiva condição de risco”, revela José Mauro, endossando a “urgente necessidade de ações e estratégias de políticas públicas, com o intuito de alterar essa triste realidade”.

Projetos

Entre essas ações defendidas pelo coordenador estão a revisão do nível máximo de alcoolemia permitido; o controle de propagandas de bebidas alcoólicas e os avanços nesse sentido, surgidos com a Política Nacional sobre o Álcool, lançada em maio de 2007. Para a primeira proposta, José Mauro propõe a redução do nível de alcoolemia brasileiro, considerado alto. “Países da União Européia, como Suécia e França, já restringiram ou estão em campanha para reduzir de 0,5 grama para 0,2 grama o limite de álcool por litro de sangue do motorista. No Japão não há tolerância: o limite é 0,0”, exemplifica.

Quanto à propaganda de bebidas alcoólicas, o médico acredita na necessidade de um controle, principalmente para a cerveja: “Existe uma cultura de incentivo pesado ao consumo do álcool, em potencial ao da cerveja. É preciso então esclarecer à população, ao jovem em especial, que essa bebida não é fraca: três copos equivalem a uma taça de vinho ou uma dose de caipirinha, e atingem o limite de 0,6g/l de álcool no sangue, apesar de seus 5% de teor alcoólico”, enfatiza o pesquisador.

Além das indicações do especialista, há uma série de objetivos constituintes do plano da Política Nacional sobre o Álcool. Entre elas, consta a inspeção dos pontos de venda de bebidas em rodovias federais e estabelecimentos próximos a escolas, faculdades e a fiscalização de campanhas publicitárias direcionadas ao público jovem, estabelecendo regras para a propaganda – esta ação será elaborada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que já passou por consulta pública e será publicada em breve.

Juventude e bebida

José Mauro ressalta ainda a importância de uma política no trânsito voltada para o jovem. “Dois terços das vítimas de acidentes são pessoas entre 18 e 29 anos. Comparando esta informação ao crescente consumo abusivo do álcool por essa faixa etária, entende-se porque a primeira causa de morte de jovens é de acidentes no trânsito”, compara. Segundo apuração feita em 2006 pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (Cebrid), encomendada pela Secretaria Nacional Antidrogas, o consumo de bebidas alcoólicas aumentou 30% entre jovens de 12 a 17 anos e 25% entre jovens de 18 a 24 anos, no período de cinco anos.

O especialista também alude à escolha do tema “Jovem: paz e amor no trânsito” pelo Conselho Nacional de Trânsito para a Semana de 2007, encontro que acontece entre os dias 18 e 25 de setembro. Segundo informações fornecidas no site do Departamento Nacional do Trânsito (Denatran). O evento visa debater a importância de medidas para prevenção de acidentes envolvendo os jovens, chamando sua atenção para as leis de trânsito e propondo uma discussão sobre toda a sociedade com o intuito de contribuir para um trânsito mais seguro.