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UFRJ avança na análise do hormônio do crescimento em alimentos

O hormônio do crescimento (GH) vem sendo adotado por atletas que buscam aumentar o desempenho em competições. O que muitos ainda não sabem é que substâncias como essa podem ser ministradas em animais, a fim de melhorar a produção de leite por gado, por exemplo.

 O hormônio do crescimento (GH), substância do tipo protêica, em voga na mídia e no universo esportivo atual, vem sendo adotado por atletas que buscam aumentar seu desempenho em competições esportivas. O que muitos ainda não sabem é que substâncias como essa – também chamadas proteínas recombinantes ou drogas peptídicas – podem ser ministradas em animais, a fim de melhorar a produção de leite por gado, por exemplo.

Pensando em atender à nova demanda da sociedade para o controle da presença desses hormônios em alimentos, sobretudo os de origem animal, o novo Laboratório de Análise de Proteínas, Peptídeos e Eritropoietina, associado ao Laboratório de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (LADETEC), colocará em prática, a partir de setembro deste ano, um método inovador de análise. A meta é dominar cada vez mais o exame de drogas peptídicas.

Essa nova metodologia em desenvolvimento para análise do GH recombinante em alimentos é tema da pesquisa de Rebecca Nicolich, doutoranda do Programa de Química Orgânica do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IQ/UFRJ). Ela também integra o corpo de profissionais do LADETEC, cujo diretor é o professor Francisco Radler, seu orientador na pesquisa.

A experiência do Pan
A análise de proteínas recombinantes é realizada pelo laboratório desde um período anterior aos Jogos Pan-americanos. Para o evento esportivo, o foco se deu em uma linha analítica de Eritropoietina (EPO) para controle de dopagem em atletas. O trabalho foi um sucesso e um Resultado Analítico Adverso (RAA ou Positivo) em doping protêico foi confirmado.

O próximo passo, como informa o professor Radler, é estabelecer uma ponte entre as duas vertentes de análise: a da urina de atletas e a que será feita em alimentos. “Os métodos são semelhantes, então o que aprendermos em um poderá se aplicar no outro e vice-versa. Vai ser interessante o trabalho da Rebecca em alimentos, pois representará uma outra abordagem de controle de hormônio do crescimento, que poderemos comparar com a abordagem da Agência Mundial Antidopagem”, declara Radler.

Rebecca acrescenta que “a análise de resíduos de medicamentos veterinários não deixa de estar relacionada a uma dopagem. A dopagem do animal pelos criadores, com uma substância que tem por objetivo maior produção de alimentos”.

Segundo ela, uma das maiores dificuldades da análise se dá pelo fato de o GH ser do tipo peptídico, produzido naturalmente pelo organismo do animal, o que torna difícil distinguir o que é natural do que não é.

– Qualquer análise teria que ser capaz de diferenciar o produzido endogenamente (natural) daquele administrado (o remédio). Atualmente, não existe nenhum método que esteja sendo utilizado em rotina para fazer essa diferenciação e um dos nossos objetivos é justamente desenvolver esse método –, informa a doutoranda.

Riscos e efeitos
No Brasil, assim como nos Estados Unidos, o uso de hormônios do crescimento em animais é permitido apenas para o aumento da produção de leite. Em nosso país, tal uso não deve ultrapassar os limites estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento ou ser destinado para o ganho de peso do gado. Por outro lado, o uso dos hormônios é terminantemente proibido em países como os que compõem a União Européia, que temem os riscos associados às substâncias.

Os efeitos desses hormônios nos humanos ainda não estão bem caracterizados. Não se sabe, com precisão, quais são as conseqüências, em longo prazo, para o organismo daqueles que ingerem alimentos contendo resíduos de proteínas recombinantes. Grande parte das pesquisas somente aponta os efeitos de tais drogas nos animais tratados com essas substâncias.

– No caso das vacas, há vários estudos que associam o uso dessas drogas peptídicas com o aumento da incidência de uma infecção na teta, chamada mastite. Por conta desse aumento, torna-se necessário o uso de antibióticos e esses medicamentos, também presentes no leite e na carne, poderiam ainda exercer um efeito nocivo nos consumidores –, explica Rebecca.

A exemplo desses antibióticos, alguns medicamentos veterinários podem ser utilizados para outros fins que não o aumento da produção de alimentos, como os tranqüilizantes dados aos porcos antes do abate, com o intuito de garantir uma carne macia. Todas essas substâncias, uma vez administradas nesses animais, assim como os hormônios do crescimento, estarão presentes na forma de resíduos nos alimentos que chegam até os consumidores.

É importante ressaltar que o chamado GH recombinante é produzido por tecnologia do DNA recombinante. Teoricamente, tal substância provém de um organismo geneticamente modificado, ou seja, é de origem transgênica, o que ainda gera muitas discussões.

Interesses econômicos
A necessidade de se controlar os resíduos de proteínas recombinantes em alimentos do nosso dia-a-dia tende a se expandir, incluindo tanto interesses sanitários quanto econômicos, estes últimos justificados pela valorização de alimentos livres de hormônios para exportação.

– A segurança alimentar do brasileiro depende muito do interesse dos exportadores. Quando o governo investe para resolver um problema de controle de resíduos no Brasil, em geral, ele faz isso porque o exportador exige e não porque a população brasileira merece –, opina Radler.

Para o professor, a nova vertente de análise para drogas peptídicas é pioneira, uma vez que, no Brasil, se controla muito mais os medicamentos tradicionais. “A gente está um pouco à frente da realidade brasileira de controle, mas já chegando perto do que imaginamos ser, no futuro, a exigência de alguns países importadores de produtos brasileiros”, informa.

Atualmente, segundo Rebecca, há uma grande movimentação da sociedade brasileira, capitaneada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que reivindica, junto ao Ministério da Agricultura, uma revisão da decisão que permite o uso de hormônios do crescimento em animais cujos derivados alimentícios fazem parte do nosso cardápio.

Para Rebecca, a pesquisa que ela vem desenvolvendo no IQ/UFRJ antecipa a possibilidade de restrições ao uso dos hormônios ou uma necessidade de se controlar com maior grau de exatidão científica os limites permitidos para esse uso. Isso garantiria uma punição inequívoca para os criadores de animais que descumprissem as normas.

– Uma outra idéia seria garantir uma produção de alimentos certificados, livres de hormônio do crescimento, pensando em mercados específicos para isso, não apenas no Brasil, mas também no exterior –, considera a doutoranda.

Ela conclui que, em muitos casos, adquirir um alimento livre de proteínas recombinantes é importante para determinados indivíduos que, por decisão pessoal, simplesmente se recusam a consumir um alimento transgênico. “O governo precisa garantir esse direito de escolha quanto ao produto que cada consumidor julga melhor para si”, defende Rebecca.