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Memória

Escritores brasileiros no Congresso Internacional de Literatura Comparada

A Universidade Federal do Rio de Janeiro iniciou, nessa quinta-feira, dia 2 de agosto, a programação do XVIII Congresso Internacional de Literatura Comparada, que vai até 4 de agosto no campus da Praia Vermelha.

 Aconteceu nessa quinta-feira, 2 de agosto, um encontro extraordinário de escritores brasileiros, como parte da programação do XVIII Congresso Internacional de Literatura Comparada, que vai até 4 de agosto no campus da Praia Vermelha. A mesa especial reuniu três grandes autores brasileiros: Ana Maria Machado, Antônio Torres e Ferreira Gullar. A professora Beatriz Resende — doutora em Literatura Comparada pela UFRJ — apresentou-os ao público e mediou o bate-papo descontraído que se seguiu. Os convidados leram fragmentos de suas obras, contaram um pouco de suas vidas e expuseram suas distintas opiniões sobre a situação demográfica no Brasil e a batalha mercadológica mundial.

Beatriz Resende começou apresentando a escritora Ana Maria Machado, que desde 2003 ocupa a cadeira número um da Academia Brasileira de Letras (ABL). A mediadora mencionou o grande orgulho para a UFRJ em ter Ana Maria como “cria”, já que ela estudou na federal desde o Colégio de Aplicação e cursou a Faculdade de Letras, na qual também lecionou. A professora lembrou que com o golpe do Regime Militar em 1964, a escritora foi forçada a se exilar em Paris, onde fez doutorado sob orientação de Roland Barthes — famoso escritor francês. Ana Maria Machado é romancista e ensaísta e recebeu o prêmio máximo para literatura infanto-juvenil internacional em 2000, o Prêmio Hans Christian Andersen. Beatriz Resende confessou ser impossível mencionar o nome de Ana Maria Machado sem relacionar com literatura para crianças e jovens, apesar de também escrever para adultos: “eu poderia dizer, tranqüilamente, que há algumas décadas Ana Maria tem nos ajudado a criar os nossos filhos. Criá-los para a sensibilidade, para a cidadania e para o letramento”, declarou.

Ana Maria Machado agradeceu o convite do organizador do congresso, o professor Eduardo Coutinho — doutor em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia/EUA — e disse estar muito satisfeita de voltar à UFRJ: “já fiz de tudo aqui, desde fila para receber salário de professora a fugir da polícia” (risos). Ana escolheu um trecho do livro Tropical Sol da Liberdade (publicado em 1988), que evoca os acontecimentos no Brasil entre 1968 a 1969 — segundo ela, o momento que aconteceu a ditadura dentro da ditadura — e o leu para a platéia. Quanto ao exílio, Ana Maria contou que não é tempo perdido, nem tão insuportável quanto se imagina: “nós vamos para longe, mas levamos o ‘cemitério de bolso’, como dizia Carlos Drummond de Andrade. Carregamos a terra, como Antônio Torres faz tão lindamente em suas obras. Porém, o exílio passou a fazer parte da minha arte, assim como passei a residir no exílio. É triste no início, mas também teve seu ponto positivo”, declarou a escritora.

Beatriz Resende comenta a literatura de Antônio Torres, que é ficcionista, romancista e, eventualmente, contista. Ela contou que ele veio do interior da Bahia para o Rio de Janeiro, lugares estes que caracterizam as duas maiores obsessões de Antônio em sua obra: a vida de origem e a cidade carioca. Torres trabalha não somente com romances de literatura contemporânea, como também com uma nova roupagem de romance histórico, recentemente.

Antônio Torres disse que ao contrário de Gullar e Ana Maria, nasceu na roça. Relatou as dificuldades de acesso à informação em mundo sem rádio, sem notícias e sem livros. Porém, o romancista esclareceu que a partir da chegada da professora ao sertão, logo descobriu-se os poetas: “eu fiquei doido. Se me perguntassem o que eu queria ser quando crescesse, diria: ‘Castro Alves’”. Torres não deixou de citar os fascínios que o surpreenderam na cidade: “descobri Gullar quando cheguei a São Paulo, em um livreiro chamado ‘Violão de Rua’. Li o verso do poeta: ‘Morrem quatro por minuto, à razão de mil dólares’, e fiquei louco por ele no ato”, declarou o autor. Antônio Torres confessou algumas frustrações de vida: “sou romancista pela absoluta incapacidade de escrever poesia, cantar e de ser instrumentista, os quais eram os meus sonhos de infância. Eu queria ser aquele cara que tocava violão, tocava trompete e as meninas debruçavam-se nas janelas, saídas de seus banhos, vestidas em suas cambraias e suspiravam ao som da música”, brincou o escritor.

Novamente mencionando a cidade, Antônio comentou que certa vez ouviu dizer que aquele nascido na roça, sempre terá a intenção de viver na cidade, e declarou: “na minha terra, o que fez toda a diferença foi o caminhão. O dia que apareceu o primeiro caminhão as mulheres ficaram inebriadas pelo cheiro da gasolina. O cheiro do suor do cabo da enxada não interessava mais. O caminhão foi o corte epistemológico no sertão”, disse o escritor. Segundo Antônio, a partir da construção das rodovias, passou a vir nordestinos de todos os lugares para São Paulo/Paraná — eles achavam que os estados de São Paulo e Paraná eram o mesmo lugar. Torres fez questão de avaliar as conseqüências da migração em massa: “se o Rio de Janeiro hoje está essa loucura – eu via as imagens do tiroteio na favela da Rocinha – deve-se muito a achar que governar é construir estradas. Construíram estradas, mas não construíram o resto. Não fizeram algo no sertão para segurar as pessoas e não fizeram lugares suficientes nas cidades para quem migrou. Adoro as cidades, mas o caos indica que elas já chegaram ao limite”, protestou o romancista.

Enfim, a mediadora apresenta o poeta Ferreira Gullar, que também é dramaturgo e um importante ensaísta no campo das artes plásticas. Mas Beatriz não deixou de mencionar especialmente a obra Poema Sujo: “ele é tão importante como poema que anda sozinho. Depois de escrito, ele veio para o Brasil na bagagem de Vinícius de Moraes, deixando seu autor ainda no exílio a que foi obrigado a cumprir”, declarou a professora.

Ferreira Gullar não perdeu tempo e disse que sua obra é simplesmente improviso: “penso muito. Penso coisas que não são grande novidade, mas que me alimentam. Não posso parar de pensar”, confessou. Gullar preferiu expressar seu ponto de vista sobre as metrópoles antes de aprofundar na alma humana: “nós nos inventamos. Somos natureza, obviamente, mas vivemos em um mundo cultural que nós criamos: o mundo cultural, da tecnologia, da religião. A cidade é uma obra de arte extraordinária, fascinante. Quem vive no mato é macaco, onça e uns índios que sobraram. A cidade não nasceu por acaso”, declarou o poeta. Ferreira se viu obrigado a explicar como funciona a sociedade: “certa vez eu estava na janela da minha casa e vi dois mendigos discutindo, um gritou: ‘você me respeite!’. Claro, porque o valor do ser humano é ser reconhecido pelo outro, e debaixo de todos aqueles trapos estava um ser humano que tem o seu valorzinho, que quer ser respeitado. Nós vivemos para o outro, o sentido da vida é o outro, porque ele te reconhece. Eu posso dizer que sou Napoleão Bonaparte, mas se o outro não reconhece isso, eu não sou. A pior coisa que pode acontecer é desconhecer o outro. Por isso algumas pessoas sofrem tanto, quando você diz algo um pouco desagradável. Você está ferindo o que o indivíduo tem de mais precioso, sua essência”, disse Gullar. O poeta reconheceu que por mais simples que a arte seja, sempre terá valor para a humanidade: “o homem inventa valores porque ele deseja ser melhor do que é. Por isso todos esses valores existem na arte. A arte existe porque a vida não basta. Quando Van Gogh pintou ‘Noite Estrelada’ — aquele quadro deslumbrante — as galáxias já existiam, o sistema solar. Mas agora tem tudo isso e mais a ‘Noite Estrelada’ que ele acabou de pintar. Ele acrescentou algo ao mundo, e sobretudo ao nosso mundo, do ser humano, para quem a ‘Noite Estrelada’ tem sentido”.

O debate
Nas declarações finais do encontro, os escritores Ana Maria Machado e Antônio Torres mergulharam em um debate sobre o monopólio do mercado global e deram à platéia o privilégio de seus testemunhos sobre o comércio literário.

Ana Maria considerou importante falar sobre a leitura e a capacidade que o ser humano deve ter de transitar de uma obra literária para outra, de um gênero para outro, e até de um país para outro: “como Virginia Woolf dizia, os livros dialogam entre si, quanto mais livros, mais textos, o diálogo fica mais rico. Eu sempre senti muita falta da possibilidade de haver uma discussão que comparasse literaturas. É um assunto que fica muito fechado dentro do grupo que domina a Literatura Comparada. Às vezes cito autores ingleses, russos e as pessoas acham que é sinônimo de metido a intelectual, pouco nacionalista. Esse preconceito acaba encolhendo um pouco essa relação. Eu adorei a idéia de que o congresso fosse feito aqui, mas esperava que tivesse tido muito mais ressonância na mídia”, desabafou a autora.

Acompanhando a idéia da declaração de Ana, Antônio Torres optou por fazer uma reflexão sobre os rumos literários atuais: “temos que parar para pensar que a universidade hoje é nossa reserva do pensamento, da cultura e da literatura, principalmente. Porque esse tempo está muito cruel com tudo isso. Somos largados a esse deus chamado mercado, que sabemos ser globalizado hoje. O imaginário da América Latina já não interessa mais mercadologicamente. Estava em Paris, recentemente, e uma aluno perguntou: “como o senhor explica um país que teve Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarisse Lispector, exibir a lista de best-sellers que tem?”, eu respondi: “é a mesma de Paris”. O nosso mundo ficou absolutamente igual, mas nivelando pelo pior. Esse é o preço que estamos pagando dos estilhaços do Muro de Berlim, independentemente se vocês o achavam certo ou não. Quando tínhamos um mundo polarizado, o capitalismo era muito melhor, porque havia interesse em não permitir a socialização do resto do planeta. Então a assistência e investimentos na América Latina eram muito maiores. Não há mais na disso em relação ao nosso território, está tudo sob controle da tecnologia, do capital e do próprio mercado. A universidade não pode desconhecer o que está acontecendo e muito menos deixar de privilegiar a literatura, aquela que está a um passo de desaparecer. Se vocês não cuidarem bem de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, eles vão desaparecer. Se não cuidarem bem de Ana Maria Machado e de mim, nós vamos desaparecer. Não tem como a gente sobreviver a esse rolo compressor mercadológico. Comparatistas, reservem-nos!”, declarou o romancista, arrancando aplausos da platéia.

Ana Maria sentiu-se na obrigação da réplica: “não sou tão apocalíptica. Acho que tudo isso de globalização não é tão ameaçador. Termos livros como Kabul Antes, Depois e todo mundo se interessar, não é necessariamente ruim. Nunca tivemos acesso a alguma coisa vinda de Kabul ou que falasse sobre isso antes. Acho que uma abertura do cânone é muito interessante, por exemplo, ter o romancista brasileiro Bernardo Carvalho escrevendo sobre a Mongólia ou o Japão. Quando que se admitiria um disparate desses na época de Graciliano Ramos e Jorge Amado? Acho que ganhamos uma flexibilidade também”, afirmou a escritora.