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Mal de Alzheimer: quando se preocupar?

A população mundial, em especial a brasileira, está envelhecendo. Com isso, surge não apenas uma maior preocupação da classe médica, mas um novo interesse da população em geral com doenças da velhice. Nesse contexto, o mal de Alzheimer — mais comum no idoso — apresenta maior incidência de casos, recebendo também um enfoque diferenciado e requerendo estímulos à pesquisa e implementação de políticas públicas para oferecer tratamentos e cuidados adequados a esses indivíduos.

 A população mundial, em especial a brasileira, está envelhecendo. Com isso, surge não apenas uma maior preocupação da classe médica, mas um novo interesse da população em geral com doenças da velhice. Nesse contexto, o mal de Alzheimer — mais comum no idoso — apresenta maior incidência de casos, recebendo também um enfoque diferenciado e requerendo estímulos à pesquisa e implementação de políticas públicas para oferecer tratamentos e cuidados adequados a esses indivíduos.

Por ser uma doença degenerativa e irreversível que leva à morte dos neurônios, o Alzheimer tem motivado pessoas, principalmente com casos na família, a procurar o diagnóstico precoce. Segundo alguns especialistas, a detecção de um dos fatores que podem contribuir para desenvolvimento dessa patologia é prejudicial, pois, além de configurar uma possibilidade e não uma certeza, aumenta a ansiedade do indivíduo, uma vez que pouca coisa poderia ser feita para evitar seu futuro aparecimento.

Outros estudiosos, entretanto, defendem que a detecção precoce do mal de Alzheimer, isto é, antes da manifestação dos sintomas, poderia trazer benefícios e vantagens ao tratamento dos pacientes, propondo uma revisão dos atuais critérios de diagnóstico da doença.

Para discutir essa questão, o Olhar Vital convidou o neurologista Marco Py, coordenador da residência médica do Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ) e vice-presidente da Associação de Neurologia do Estado do Rio de Janeiro, e Miguel Chalub, psiquiatra forense e professor associado do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina (FM/UFRJ).

 Marco Py
Coordenador da Residência Médica do INDC/UFRJ

 

 Miguel Chalub
Psiquiatra forense e professor da FM/UFRJ

     

“A questão sobre revelar ou não a um paciente que ele é portador de Alzheimer, não é simples, depende do caso. Se ele apresenta a doença, seja na fase inicial ou avançada, alguém precisa saber para tomar as devidas providências, como o cônjuge, filhos ou o próprio paciente. Quando se trata, porém, de um diagnóstico que evidencia apenas uma pré-disposição genética ao mal de Alzheimer — o que necessariamente não significa que a pessoa manifestará essa patologia — a discussão se torna mais delicada.

Na primeira situação, a maior problemática é na fase inicial. Se o mal de Alzheimer for comprovado pelo diagnóstico, a família ou o próprio paciente precisam ter o conhecimento desse fato para que medidas como cuidados com o paciente, trabalho e moradia possam ser reavaliados. Isso porque, devido à deterioração mental causada pela doença, em determinado momento a pessoa não poderá morar sozinha, trabalhar ou até mesmo compreender o que se passa com a sua saúde.

Nesse aspecto, de manifestação ainda moderada, se o próprio paciente perguntar o diagnóstico, é obrigação do médico contar  a ele. Caso contrário, não deve se precipitar em comunicar ao indivíduo sobre sua situação clínica, pois muitas vezes existe uma negação da doença, o que torna essa notícia uma agressão ao paciente, que pode desenvolver uma depressão e até mesmo um agravamento do quadro de Alzheimer. Assim, talvez o mais importante seja ganhar a confiança do paciente, esperando o momento oportuno para tal. Mentir ou mesmo omitir quando ele ainda tem o estado mental suficiente para compreender não é correto, ele precisa saber o que está acontecendo com sua saúde.

Assim, da forma mais suave possível, deve-se contar ao paciente que ele é de fato portador de Alzheimer, evidenciando a existência de métodos que, apesar de não reverterem a deterioração mental ou impedirem a sua evolução, fazem com que a doença progrida mais lentamente do que sem tratamento algum. É importante salientar também que a fase inicial é o melhor momento para começar esse procedimento, pois permite ao paciente a manutenção de suas atividades por um período maior.

No segundo caso, trata-se de uma situação diferente, pois a pessoa não apresenta o mal de Alzheimer, mas uma propensão a desenvolver a doença, constatada através de testes genéticos. Não existem meios de garantir a manifestação da doença ou formas de diagnóstico antes que a pessoa manifeste a perda das funções mentais, marcada inicialmente pelas falhas de memória. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os testes sejam realizados apenas em ambientes de pesquisa clínica, com o intuito de estudar a prevalência de determinado gene numa população, pois dessa forma, o exame é anônimo.

Essa preocupação está fundamentada no fato de que o Alzheimer é multifatorial. Ou seja, mesmo que o indivíduo apresente esse gene que predispõe a doença, ele pode não manifestá-la. Por outro lado, ainda que os exames não tenham acusado o fator de risco, a pessoa pode sim, apresentar a patologia.

Por isso, o diagnóstico precoce é mais complexo: dizer para um indivíduo que ele tem uma chance maior de desenvolver Alzheimer nos próximos anos, sem qualquer garantia é problemático. Não deve ser dito e, principalmente, o teste não deve ser feito fora do ambiente de pesquisa, porque vai criar um estresse, uma tensão no indivíduo que pode ser absolutamente sem razão.”

“Considero o diagnóstico precoce do mal de Alzheimer fundamental, apesar de ainda não termos uma cura para a doença. Quanto mais cedo ela for diagnosticada, mais tempo e qualidade de vida o paciente vai ter. Quando o mal de Alzheimer começou a ser descrito, o prazo entre o diagnóstico e a morte era muito curto. Atualmente, o portador da doença pode viver mais dez anos a partir da confirmação da enfermidade.

Quando digo precoce, não quero dizer precipitado. Não ter a certeza do mal e diagnosticá-lo como tal é um erro absurdo, tendo em vista as várias doenças com sintomas semelhantes. Porém, ainda não há provas que o uso de medicamentos específicos para o mal de Alzheimer possa prejudicar o indivíduo que iniciou o tratamento, mas não possuía a doença de fato. Uma coisa é certa: ao saber que é Alzheimer, esconder somente piora a situação. Por mais dura que seja a verdade sempre faz bem às pessoas. Encarar a realidade é o primeiro passo para acreditar na eficácia do tratamento.

Esse tipo de notícia, até alguns anos atrás, era uma catástrofe, tanto para o paciente quanto para a família, quase que uma sentença de morte. Hoje em dia não. É claro que não é agradável, mas a reação ao diagnóstico do mal de Alzheimer agora é outra, porque prometemos tratamento ao paciente e assistência aos seus parentes. A família vai precisar de dois tipos de acompanhamento psicológico: um de apoio para as pessoas mais sensíveis, evitando que elas cheguem a um quadro depressivo diante da situação; e outro para que a família aprenda a cuidar do paciente, já que este perderá a autonomia dentro de alguns anos e necessitará do que nós chamamos de ‘cuidadores’. Importante ressaltar que mesmo que a família tenha condições de contratar ‘cuidadores’ profissionais, de maneira alguma ela deve abandonar o paciente.

A desinformação popular sobre o mal de Alzheimer ainda é muito grande. Crer que esse mal é hereditário e confundi-lo com outras doenças consideradas ‘idosas’, são erros comuns. Mas a mídia tem dado muita atenção a isso, assim como a Internet, que também é um veículo importante para esse tipo de estudo. De qualquer forma, a área clínica está bem informada, não apenas porque é papel dela, mas também porque há divulgação de pesquisas por laboratórios, congressos de medicina etc. O mais importante é que as pessoas não transformem a doença em um monstro que está atrás de qualquer velhinho ou velhinha. Qualquer lapso de memória e alguém logo grita que é Alzheimer. A velhice tem suas fases, como qualquer outra etapa da vida. Certas coisas que possam parecer sintomas são apenas idade.”