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Caos aéreo ou caos público? A crise foi além do que se esperava

É difícil encontrar quem não tenha sido atingido significativamente pela crise dos aeroportos no Brasil. Desde a executiva que dorme no chão do aeroporto esperando a chance decolar para uma reunião inadiável, até o pai de família que não consegue se conformar com a morte trágica da filha única, o caos aéreo tem deixado sua marca na vida dos brasileiros desde setembro de 2006, quando caiu um Boeing da GOL.

 

É difícil encontrar quem não tenha sido atingido significativamente pela crise dos aeroportos no Brasil. Desde a executiva que dorme no chão do aeroporto esperando a chance decolar para uma reunião inadiável, até o pai de família que não consegue se conformar com a morte trágica da filha única, o caos aéreo tem deixado sua marca na vida dos brasileiros desde setembro de 2006, quando caiu um Boeing da GOL que pareceu desencadear toda a crise subseqüente.

Nove meses depois – em meio a longas greves dos controladores de vôo e discussões dos poderes público e privado para apontamento dos culpados – outra tragédia, agora com um Airbus da TAM, veio abalar o sono dos que assistem a tanta má-vontade e desrespeito para com o povo brasileiro. O que fica é a dor de todos os que se sensibilizaram com a perda das vítimas e a “batata-quente” da crise aérea, que agora, mais do que nunca, passa de mão em mão entre os responsáveis pelo descalabro.

Mas quais serão as possíveis conseqüências desse conjunto de catástrofes para a credibilidade administrativa do país e para a mente dos brasileiros? Será que o destino de grande parte das empresas aéreas é a falência por falta de mercado? E o Governo Federal, qual o seu real papel no caos da aviação?

Para explicar o possível surgimento de transtornos psicológicos na população, o Olhar Virtual entrevistou o professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRJ, Bernard Rangé, que atualmente faz pesquisas nas áreas do pânico e agorafobias. Analisando a crise aérea brasileira, o diretor da Escola Politécnica da UFRJ, Ericksson Almendra, discute a postura que se deve tomar perante as contraditórias informações sobre o caos aeroportuário.

 Bernard Rangé

Professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRJ

 

 Ericksson Almendra

Diretor da Escola Politécnica da UFRJ

     

“Além do pânico existem várias espécies de transtornos de ansiedade. O Transtorno de Pânico se caracteriza por sensações iniciadas sem motivo aparente e que influenciam o indivíduo a pensar que pode morrer de repente, perder o controle ou enlouquecer. A pessoa que manifesta o Transtorno de Pânico apenas tem medo da sua condição impotente diante da situação, e não necessariamente de que o avião vá cair. Já o indivíduo que tem medo de avião se orienta erradamente pela ocorrência da tragédia. Isso é uma distorção cognitiva chamada catastrofização, que consiste em exagerar a probabilidade ou a magnitude de determinado acontecimento. Portanto, é descartável a hipótese de que o medo específico de avião venha a se tornar um Transtorno de Pânico, visto que são manifestações com origens distintas.

Com todo respeito às famílias, foi notável a diferença da reação pública ao acidente da TAM em relação à queda do avião da GOL, no ano passado, sem querer menosprezar a dor de ambos. Obviamente isso ocorreu por conta da proximidade cotidiana que um acidente no meio de São Paulo imprime na população. A maioria das pessoas que costumam voar passa por Congonhas. O maior medo é pensar que você poderia ter sido a vítima, o que não acontece significativamente quando o acidente é no meio da selva.

Certamente, devido à comoção gerada pelo acidente com o Airbus da TAM, diminuirá muito o número de pessoas que viajam de avião. Contudo, ainda acho que os atrasos de vôos, cancelamentos e overbookings espantarão mais os clientes do que um surto coletivo de medo de avião. A preferência será pelas rodovias, mesmo sabendo que o índice de mortes é infinitamente maior. Talvez, com o passar do tempo, a memória do acidente vá se dissipando aos poucos e a normalidade volte aos aeroportos.

Em contrapartida, o número de usuários de calmantes e medicamentos dopativos aumentará, o que não considero uma prática, de todo, inapropriada. Claro que é  indesejável, tendo em vista uma possível dependência química — o ideal é que a pessoa mude a maneira de encarar o ato de voar — mas é uma estratégia válida para que se evite crises de pânico em pleno vôo.

A forma mais simples de reverter o quadro de medo de avião é submeter o paciente a certas estratégias de conhecimento: informação sobre aviação, dados importantes sobre vôos e aviões e trabalhar a maneira como ele processará isso. Submetê-lo a uma técnica chamada dessensibilização sistemática — fazer uma hierarquia do medo de todo o processo requerido para uma viagem de avião — é tão fundamental quanto treinar o paciente em técnicas de relaxamento

 

“Essa crise certamente afeta a confiança da população no transporte aéreo. Esse é um problema estrutural, do qual não se espera solução imediata, e a repetição dessas fatalidades no noticiário minam a credibilidade desse sistema de transporte, da mesma forma que afetaria o rodoviário ou fluvial. Pessoalmente, sou muito racional em relação aos meus medos. O transporte aéreo, independentemente disso, é a forma de transporte mais segura não somente no Brasil como em todo o mundo. Nesse último acidente envolvendo o vôo 3054 da TAM, morreram por volta de 200 pessoas. Em certos períodos do ano esse número de mortes é registrado diariamente em acidentes rodoviários.
        
As estatísticas ainda fazem maior efeito sobre minha cabeça, sou bem racional. Por exemplo, a aterrissagem e decolagem são os momentos que de fato fico mais tenso numa viagem, pois sei que, comprovadamente, são os momentos que oferecem maior perigo aos passageiros num avião. Reconheço, porém, que o aeroporto de Congonhas é o mais perigoso do Brasil e que esses acidentes não são casos isolados. O problema é sério, estamos vivenciando uma crise que deve ser solucionada o quanto antes. Obviamente, aposto na melhoria do aeroporto de Congonhas e de todo o sistema aéreo no Brasil. Certamente as pessoas não vêem as coisas dessa forma racional e um pânico generalizado está se instalando, mas creio que a solução para o problema não está no transporte terrestre.

Várias informações sobre a crise aérea são passadas através da mídia de uma maneira que deixa o público ainda mais confuso. A ‘enxurrada’ de suspeitos e possíveis culpados só deixam o povo mais assustado, pois é nessa hora que os brasileiros perdem o chão e não sabem em quem confiar. A imprensa também não ajuda em nada trabalhando a ‘toque de caixa’. Qualquer notícia ou boato que chega à mídia tem passe livre para os meios de comunicação. A aparência disso tudo é que não há pesquisa nem confirmação da proveniência das informações. O governo é o que menos colabora, porque não investe nem no mais provável: autodefesa."