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O melhor lugar para o parto

Recentemente, uma antiga maneira de realizar partos tem voltado ao centro de discussão da obstetrícia. Com certo destaque na mídia atual, o parto não-hospitalar, que se mostrava até pouco tempo mais comum em regiões afastadas dos centros urbanos, ressurge com uma nova corrente, que defende a idéia de que dar à luz num ambiente familiar traria mais tranqüilidade à mãe e ao bebê.

Recentemente, uma antiga maneira de realizar partos tem voltado ao centro de discussão da obstetrícia. Com certo destaque na mídia atual, o parto não-hospitalar, que se mostrava até pouco tempo mais comum em regiões afastadas dos centros urbanos, ressurge com uma nova corrente, que defende a idéia de que dar à luz num ambiente familiar traria mais tranqüilidade à mãe e ao bebê, devido à atmosfera de aconchego e privacidade. Essa opinião tem causado divergências entre profissionais da área, pois, ao contrário desta afirmação, outros especialistas garantem que é fundamental que se tenha à disposição da gestante todo o apoio hospitalar, desde o medicamento à tecnologia necessária para o bem-estar da mãe e da criança.

Para a diretora da Maternidade Escola da UFRJ, a obstetra Rita Bornia, o equívoco na adoção do parto fora do hospital já começa na forma de abordar o grupo de gestantes que poderia optar por ele: as classificadas de baixo risco. “Ao ser tratado como um procedimento simples, bastante sociável fora do ambiente hospitalar, comete-se o primeiro deslize. A expressão ‘gestante de baixo risco’ refere-se ao pré-natal, em que não foram observadas intercorrências ou patologias que possam interferir no desenvolvimento da gravidez, tanto para a mulher quanto para o bebê. Entretanto, isso não significa que o trabalho de parto e o próprio nascimento não terão complicações, pois existem acidentes que são imprevisíveis, não podendo ser detectados durante o pré-natal. Um parto só pode ser classificado como de baixo ou alto risco após 48 horas do nascimento, independente do tipo de gestação”, alerta a diretora.

Para Rita Bornia, outro ponto que deve se levar em consideração é a existência de legislação que regulamenta a assistência obstétrica e neonatal, configurada por pré-requisitos mínimos para o bem estar da gestante e do recém-nascido, mesmo que durante o parto não sejam necessários todos os recursos disponíveis. Segundo estudo norte-americano, o intervalo de tempo entre a indicação de um procedimento cirúrgico e a execução do mesmo, nos casos de urgência obstétrica, deve ser preferencialmente de até 30 min, tempo este difícil de ser alcançado mesmo dentro do ambiente hospitalar. “Se existem locais sem os recursos necessários para executar uma operação cesariana em tempo hábil, então a possibilidade de complicações num parto não-hospitalar torna a qualidade da assistência ao mesmo, questionável”, declara a especialista.

O vice-diretor da Maternidade-Escola, Joffre Amim Júnior, destaca que 30% dos casos de morte fetal ocorrem ainda no período intra-parto, isto é, durante o trabalho de parto. “Neste período a paciente necessita de uma atenção toda especial, porque o risco de morte daquele feto é ainda maior. Daí a importância de um acompanhamento hospitalar adequado”, afirma Amim Júnior. Já o presidente da Comissão de Ética Médica da Maternidade da UFRJ, Alvio Palmiro, compara os índices de mortalidade durante o parto em épocas anteriores aos recursos hoje oferecidos à gestante. “Antes, eram comuns histórias de morte materna e do próprio bebê. Atualmente, essa estatística caiu de maneira significativa, o que se deu pela assistência hospitalar. Com isso, percebemos que o parto domiciliar representa um risco não só para o feto, mas também para a mulher”, completa.

Rita refuta também a idéia de que o parto ambientado fora do hospital seria de maior tranqüilidade para a gestante e seu bebê, ao contrário do hospital, muitas vezes julgado excessivamente “medicalizado”. “O ambiente hospitalar, ao longo dos anos, vem sendo modificado, tornando-se mais humano. Por exemplo, já é possível a presença de acompanhante ao lado da paciente no momento do parto, além do maior número de pessoas envolvidas na assistência à gestante, tanto no pré-natal, quanto no trabalho de parto e no nascimento. São enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e médicos treinados para acolher da melhor forma possível essa paciente, permitindo que ela se sinta segura e relaxada. Assim, o ambiente será favorável a ela e ao bebê”, afirma.

O doutor Alvio Palmiro dá ênfase à diferença entre a opção materna e a segurança do bebê, além de destacar a importância do esclarecimento e informação à gestante, dos riscos e complicações possíveis num parto domiciliar. “Deve-se considerar que qualquer complicação no nascimento pode trazer repercussões futuras e permanentes para a criança, como danos físicos e cerebrais. Tudo por causa daquele momento que ela não recebeu a assistência necessária para um desenvolvimento saudável” explica. O vice-diretor então completa, destacando que isso não se relaciona apenas a doenças congênitas ou má formação fetal. “Esse comprometimento da saúde física e mental da criança está relacionado às complicações como falta de oxigenação, complicações com o cordão umbilical ou com a placenta, que não podem ser diagnosticadas no pré-natal, apresentando-se apenas no momento do parto”, complementa Joffre.

A diretora então salienta que realizar o parto num hospital não significa utilizar tecnologias de modo desnecessário ou receitar medicamentos demasiadamente. “A disponibilidade de recursos hospitalares modernos é um direito da mãe e do bebê. Dessa forma, a humanização do parto e a intervenção mínima possível podem estar aliados à estrutura hospitalar para oferecer segurança à gestante. Enfim, todo esse romantismo sobre o parto natural, fora das instalações hospitalares, defendendo que não há risco nenhum ou mínimo, deve levar em conta toda uma série de fatores, como estes já mencionados”, finaliza a especialista.