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Memória

Das linhas do campo às linhas do papel

A história do Esporte no Brasil, além da relevância para o entendimento das práticas esportivas contemporâneas, tem grande destaque no cenário atual, às vésperas de um evento como o Pan Americano. É nesse contexto que Victor Andrade de Melo, professor e pesquisador da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ lançou seu último livro Dicionário do Esporte no Brasil – do século XIX ao início do século XX, organizando as questões centrais do esporte, dentro do quadro de mudanças políticas, culturais e econômicas da época, traçando, segundo o próprio autor, “um panorama histórico dos primeiros momentos do esporte em terras brasileiras”.

 A história do Esporte no Brasil, além da relevância para o entendimento das práticas esportivas contemporâneas, tem grande destaque no cenário atual, às vésperas de um evento como o Pan Americano. É nesse contexto que Victor Andrade de Melo, professor e pesquisador da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ lançou seu último livro Dicionário do Esporte no Brasil – do século XIX ao início do século XX, organizando as questões centrais do esporte, dentro do quadro de mudanças políticas, culturais e econômicas da época, traçando, segundo o próprio autor, “um panorama histórico dos primeiros momentos do esporte em terras brasileiras”.

O professor formado na década de 80 – período em que a pesquisa na Educação Física foi impulsionada –, teve um envolvimento maior com investigações na área de história primeiro na área de Educação Física, na graduação e no mestrado e depois, no doutorado, e no pós-doutorado, no campo do esporte, onde se especializou. A pesquisa que ele desenvolveu dentro desse campo, na verdade, funciona como outra investigação histórica qualquer. O processo é principalmente o de busca e análise de materiais nos jornais que, no caso do professor, foram do Rio de Janeiro, notadamente seu interesse maior, com enfoque na transição dos séculos XIX e XX. O material coletado foi disponibilizado na internet em um banco de dados para, em seguida, possibilitar o trabalho de tais bases para estudos históricos mais aprofundados.

– Eu quis entender como se estruturou o esporte na sociedade brasileira. Isso porque se tratava de uma sociedade com aspirações modernas, que ainda transitava entre uma realidade rural e o desejo de se modernizar. O intuito era compreender como esse objeto era apreendido pela sociedade brasileira: camadas populares, elites, mulheres, dentre outras. Feito isso, trabalhei basicamente na Biblioteca Nacional, na busca de fontes para entender como tal processo acontecia. Inicialmente foi um trabalho difícil, pelo amplo campo pesquisado, mas hoje as coisas funcionam melhor – complementou Victor, explicando o processo.

No caso da investigação feita para a elaboração do Dicionário do Esporte no Brasil houve a observação da existência de outros tantos dicionários da área no mercado, mas que configuram esportes de memória, nos quais se divide as análises por modalidade esportiva e explica-se o surgimento de cada prática, o que representa um projeto documental e factual. A idéia do professor, no entanto, era de que seu dicionário não tivesse somente entrada pelo esporte, mas também através de conceitos. Que o livro pudesse apresentar um panorama histórico, sendo um misto entre um estudo erudito e um dicionário memoralístico. Para tanto ele lança mão de personagens dessa história esportiva, mas somente se eles contribuírem para o entendimento do contexto histórico. A partir daí cria-se uma rede de conceitos que são relacionados, como as camadas populares, as mulheres, dentre outros.

– O Dicionário não foi uma pesquisa que tenha exigido muito tempo. Isso porque ele surgiu da minha tese de doutorado, que já tinha bastante material e que acabou ficando de fora – pesquisas que eu já tinha guardado após os cinco anos de projeto. Depois desse período eu amadureci idéias, descobri novas coisas e com isso elenquei primeiro um conjunto de termos que eu queria trabalhar, aproveitando parte da tese de doutorado. Outras, eu aprofundei a pesquisa, tive novos interesses e reuni todo o material. No fim achei que seria muito e acabei excluindo alguns verbetes, mas todo esse processo levou cerca de um ano para que se pudesse configurar um dicionário – revela o pesquisador.

Hoje, o projeto de pesquisa mais expressivo do professor é a relação entre esporte e arte, que desenvolve junto ao ANIMA. A busca consiste em utilizar como fontes objetos artísticos a exemplo do cinema, que é uma área que já foi toda coberta no Brasil e parte da América do Sul e dos países de língua portuguesa, além das artes plásticas, artes cênicas, música e literatura, onde uma equipe a desenvolve, junto a Victor, com bolsas de pesquisa de fontes diferentes. O foco da pesquisa permanece o mesmo, que é o interesse em identificar como o objeto esportivo penetrou pelas redes da sociedade brasileira. O esforço é fazer uma espécie de arqueologia social do esporte, descobrindo onde ele está presente, como dialoga com outras manifestações, o que ele tem a dizer sobre a sociedade, utilizando a arte como fonte prioritária.

– Todos os segmentos artísticos que nós trabalhamos, como é o caso das artes cênicas, de maneira bem inicial, a música, que desenvolvo atualmente, o cinema, que já foi amplamente visto, entre outras, ainda que não aprofundadas, possuem um banco de dados bastante rico, o que é um fator essencial. Já existe material para promover uma série de pesquisas nessas áreas nos próximos anos – garante o professor.

É sabido que o esporte é uma das manifestações culturais mais importantes do século passado e que, ao tudo indica, será para esse novo século também, já que dialoga com inúmeros segmentos sociais. A escolha dessas fontes artísticas ocorreu, então, porque, de alguma forma, elas trazem um reflexo da realidade, carregando informações acerca do modo como a sociedade vivencia culturalmente o esporte.

– Não que o artista tenha sempre a intenção, mas ele faz, através de sua obra, um retrato do contexto social de onde ela foi produzida. Então quando se elenca obras que falam sobre esporte, o que supomos é que o artista também tinha uma representação sobre esporte, ou ele expressava o seu sentido do significado no momento de sua produção – destaca Victor Andrade.

Além dessa abordagem, um outro enfoque dado à pesquisa é uma discussão sobre os diálogos inter-semióticos entre esporte e arte, num âmbito cultural de lazer, onde o grupo que apura tais estudos criou a hipótese de que quando o diálogo é estabelecido entre esses dois objetos, o que acontece é uma relação entre uma linguagem e outra. O que tal hipótese revela é a alteração de ambas as partes nesse encontro; tanto o esporte como as artes se modificam após esse contato.

Dentro de um projeto maior, que engloba diversas abordagens na pesquisa do esporte, o desenvolvimento se dá em quatro linhas: a questão da linguagem, da memória, da história, e, por fim, uma de natureza pedagógica, ou seja, se pensa de que forma é possível trabalhar o esporte na escola, ou em qualquer campo que se insira o profissional de Educação Física, através do uso dessas fontes artísticas, como filmes, obras de artes plásticas, o teatro e a música. Todo esse processo é estudado porque o grupo acredita que é possível ampliar a noção do que é a prática esportiva ao aluno, mostrando outras vertentes do esporte além do futebol, que costuma ser o grande protagonista na vida da maioria dos jovens.

– O que existe no Brasil é quase uma monocultura do futebol e isso fica claro nas fontes, já que têm mais filmes, mais músicas, mais representações desse esporte. Porém é importante levar ao aluno a oportunidade de conhecer outras modalidades esportivas e o objeto artístico pode colaborar com esse processo – salienta o pesquisador.

Um evento como Pan Americano, que está se aproximando, também tem sua importância reconhecida pelo professor, que acredita numa difusão maior da cultura esportiva, apesar da possibilidade de ganho ter sido pouco explorada, já que para a cidade, em si, os ganhos serão poucos até mesmo em termos de estrutura após a realização do evento.

Histórico

Estudar história no curso de Educação Física. Isso pode parecer estranho para alguns, já que tal formação está geralmente ligada à área da biologia e das ciências exatas, o que é notável até mesmo nos processos de seleção do estudante, no vestibular. Porém, por figurar como integrante da área de saúde, a Educação Física não pode ter seus estudos dissociados das ciências humanas, bem como as sociais. Mesmo tendo historicamente se preocupado com a questão prática, o estudo da história da Educação Física e do Esporte é essencial para o rompimento de estruturas de ensino lineares, possibilitando ao profissional uma formação diferenciada.

Assim acredita Victor Andrade de Melo, que explica como uma ênfase histórica ocorreu dentro do curso de Educação Física no Brasil:

– Na década de 80 a Educação Física deu uma espécie de guinada que hoje nomeamos de “crise da Educação Física na década de 80”, que ocorreu com o fim da ditadura militar, propiciando a várias instituições a possibilidade de se repensar. Também nessa época uma série de pessoas que tiveram formação na área acabou seguindo, no mestrado e doutorado, a carreira acadêmica, estudando no campo da educação, o que as fez ter maior contato com uma outra discussão, mais crítica, normalmente num diálogo com o marxismo. A partir daquele momento a área começou a ter um olhar mais pronunciado sobre as ciências humanas e sociais.