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Repensando a atuação dos CAs

Vivemos, para muitos autores, uma época de incertezas, de fragmentações, de desconstruções, de questionamentos aos valores universais que informaram a modernidade e de acirramento do individualismo egoísta, que contesta, ou vê com desconfiança, a participação política e as formas de organização — partidos e sindicatos — que marcaram a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século passado.

 Vivemos, para muitos autores, uma época de incertezas, de fragmentações, de desconstruções, de questionamentos aos valores universais que informaram a modernidade e de acirramento do individualismo egoísta, que contesta, ou vê com desconfiança, a participação política e as formas de organização — partidos e sindicatos — que marcaram a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século passado. O movimento estudantil não parece ter escapado a essa crise das grandes ideologias, e nas últimas décadas vive uma evidente crise de participação. Ainda mais grave pelo papel que desempenhou na resistência à ditadura militar e pela democracia no país.

Tendo em vista a fragilização das organizações estudantis, o Olhar Virtual entrevistou o vice-presidente do Centro Acadêmico de Engenharia (CAEng), Haroldo Júnior, e a representante do CA de Comunicação Social (CAEco), Natália Alves, para discutir sobre a representatividade dessa entidade nos dias de hoje.

Haroldo Júnior
Aluno do 7º período de Engenharia Elétrica e vice-presidente do CAEng

 

Natália Alves
Aluna do 4º período de Comunicação Social e representante do CAEco

 "O Centro Acadêmico é um espaço para criar discussões, pensar em soluções e auxiliar o aluno a seguir o melhor caminho diante de cada problema. O principal objetivo, hoje, é integrar os diversos cursos de engenharia. Recentemente, estudantes de cada habilitação reuniram-se e formaram confrarias, visando facilitar ações integradas do CA.

Os centros acadêmicos são muito importantes para estimular a participação dos estudantes na vida universitaria, e conseqüentemente, fortalecer o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e assegurar maior representatividade estudantil junto à reitoria. É um efeito dominó.

Desde a ditadura militar sentimos que o movimento estudantil enfraqueceu, por vários motivos. Principalmente, porque depois da reabertura política observou-se um vício de aparelhamento partidário e os estudantes que chegavam às universidades não queriam se envolver com os centros por pensarem que se tratavam de entidades partidarizadas. O CAEng funcionou na ilegalidade no final da década de 60. Na época, seu presidente era Mário Prata, que hoje dá nome ao DCE da UFRJ.

Muitos apontam os movimentos em rede (movimento dos sem terra, feminista, negro, GLS, entre outros) como principais causadores do enfraquecimento das entidades estudantis. Quando alguém se insere numa entidade social, de certa forma se insere naquela que está mais próxima de transformar o seu meio. Apesar do crescimento desses movimentos isolados, eles não roubam o lugar da entidade estudantil. Eles podem até mesmo se mesclar. Há movimento gay dentro do próprio DCE.

Nos últimos anos, o CAEng tem experimentado maior visibilidade e um aumento na participação dos estudantes. Isso se deve, especialmente, à recepção na semana de calouros, que promove uma enorme interação entre os alunos. Outra atividade que vem sendo realizada há quatro períodos é o trote solidário. Este ano, os alunos arrecadaram latas de leite e doaram para crianças carentes. Teve também a coleta de lixo no mangue, o que contribuiu para promover uma consciência ecológica.

A Engenharia é conhecida como um curso de pessoas despolitizadas, que só querem ler livros técnicos, ligados à matemática, à física. Na verdade, não é assim. Nós queremos acabar com esse estereótipo."

 

 “O CA é uma entidade que procura zelar pelo direito de termos uma educação de qualidade, dispormos de recursos para nossa formação profissional e por uma política governamental dentro da universidade que garanta esses direitos, como assegura a Constituição.

Não dá para comparar a década de 60/70 com os dias de hoje. Não se tem muitos parâmetros porque a situação do país era diferente. A repressão era clara. Era impossível ir à universidade sem perceber a falta de democracia que atingia a todos, diretamente. Hoje, nós temos uma certa aparência de liberdade que maquia um pouco a falta de direitos. Por isso, a mobilização por parte dos estudantes torna-se mais difícil. Apesar disso, várias lutas recentes comprovaram a importância do movimento estudantil, dentre elas a manifestação pelo passe livre, que rapidamente reuniu um grande número de alunos do Rio de Janeiro, e a luta contra a discriminação racial na Universidade de Brasília (UnB).

É fundamental ter uma entidade centralizada, no entanto, a União Nacional dos Estudantes (UNE) está sendo representante da política do governo no movimento. O fato de não haver uma UNE como na década de 60/70, de luta e de verdade, contribui para o enfraquecimento do movimento estudantil.

As entidades têm que perceber a importância de estarem vinculadas aos estudantes e contarem com sua participação. Às vezes, essa questão fica um pouco de lado, muito por conta de uma propaganda dentro da própria universidade, que tenta estigmatizar aquele que faz política como panfletário, partidário. As pessoas absorvem esse discurso e cabe ao CA mostrar a elas a relevância das reivindicações.

É muito válido promover atividades que não sejam, em princípio, políticas, — festas, campeonatos de esportes, eventos culturais — mas que sirvam para integrar os estudantes, aproximá-los da entidade que os representa e deixá-los mais abertos para discutirem as questões políticas.

O Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, promovia discussões dos problemas sociais brasileiros, através do teatro, do cinema e da música para diversos pontos do país. A partir dessas linguagens as pessoas absorviam muito melhor propostas políticas e se sentiam mais conscientes da realidade.

Hoje, se fala da reforma universitária e muita gente não consegue acompanhar o debate, por ser acadêmico demais. Existe uma peça do CPC chamada “Auto dos 99%”, que contava a história dos 99% de jovens que não tinham acesso à universidade. Então, ao invés de ir às salas de aula e debater sobre isso, abordava-se a questão de outra maneira."

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