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Tabagismo: um problema social

Em 2003, o tabagismo passou a ser considerado uma pandemia. A partir daí, obrigou-se restrições ao plantio de tabaco, foram estabelecidas medidas de apoio à cessação deste vício, além de ter sido requerida uma legislação que garantisse ambientes livres da poluição da fumaça do cigarro.

 Em 2003, o tabagismo passou a ser considerado uma pandemia. A partir daí, obrigou-se restrições ao plantio de tabaco, foram estabelecidas medidas de apoio à cessação deste vício, além de ter sido requerida uma legislação que garantisse ambientes livres da poluição da fumaça do cigarro.

Inspirando-se nisso, o Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo (NETT) realizou no Auditório Alice Rosa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) a II Jornada Interdisciplinar de Tabagismo. Gilvan Renato, diretor do Instituto de Doenças do Tórax (IDT) destaca: “fumar é prazeroso, mas parar de fumar é muito melhor”.

A psiquiatra Analice Gigliotte, chefe do setor de Dependência Química da Santa Casa, iniciou a palestra falando que por mais viciado que seja o usuário de drogas, ele não perde sua consciência e pode largar o vício quando quiser. A dificuldade está em buscar desvincular-se da droga sozinho, êxito alcançado por apenas 5% dos que tentam.

A droga do cigarro é a nicotina. Quando inalada, é logo absorvida pelos alvéolos pulmonares, em seguida, alcançando o cérebro. A nicotina causa sensação de prazer, por provocar a liberação de dopamina, substância que age por aproximadamente duas horas até que se inicie o processo de abstinência.

O homem tem de início dez receptores de acetilcolina, com os quais a nicotina consegue se ligar. Adquirido o hábito de fumar, o corpo se adapta à presença desta substância, aumentando gradativamente a quantidade de receptores nicotínicos – o que acentua a capacidade de o indivíduo fumar sem sentir desconforto. Neste processo, o cérebro aprende que a sensação de prazer se repetirá sempre que se recorrer ao cigarro.

O consumo de tabaco provoca mudanças intracelulares, diferenciando pouco a pouco o cérebro do fumante em relação ao do não fumante. Algumas alterações acabam enfraquecendo a região cerebral responsável pelo controle inibitório. Isso explicaria, por exemplo, porque tantas pessoas insistem em fumar, mesmo após anos livres desta dependência e mesmo conscientes dos prejuízos à saúde gerados pelo cigarro.

A psiquiatra concluiu sua apresentação mencionando a insula. Uma novidade no tratamento contra o tabagismo foi a percepção de que a manipulação desta área do cérebro consegue inibir no indivíduo o craving, ou seja, a vontade de fumar.

Alberto José de Araújo, diretor do NETT, apontou o tabaco como o primeiro produto global, hoje, a quarta indústria mundial em lucros. E um relatório do Instituto Souza Cruz indica que a venda de cigarros permanece crescente. Neste contexto, a Aliança de Controle de Tabagismo (ACT) iniciou sua campanha “não seja cúmplice da indústria de tabaco. Aceitar doações ou parcerias ajuda a vender mais cigarros!”.

O especialista alerta que o cigarro deveria ser regulado pelo governo, tamanho é o malefício inerente ao produto. O hábito de fumar causa mais de 50 doenças, entre elas, o câncer de pulmão, acidentes cardiovasculares e o infarto do miocárdio. Vale ressaltar que todos os danos à saúde trazidos pelo cigarro resultam em um custo significativamente alto para o Sistema Único de Saúde no Brasil – o SUS.

Alberto José diz ainda que a reflexão sobre o tabagismo abre caminho para a discussão de responsabilidade social. As substâncias tóxicas do cigarro não afetam apenas quem fuma. Envolvem todos nas proximidades, os fumantes passivos, entre eles, crianças. O tabaco pode ser considerado uma doença infantil, até mesmo chegando ao extremo de bebês que morrem por overdose de nicotina, vítimas de pais fumantes.

Análises revelam que a epidemia do cigarro vem se caracterizando com uma doença da pobreza, atingindo grande parte da população de baixa renda, particularmente as mulheres. No Brasil, apesar de constatada uma redução drástica no número de fumantes, há ainda, aproximadamente, 25 milhões de viciados. Além disso, o tabaco é responsável direto por cerca de 200 mil óbitos ao ano.

Referindo-se às alternativas de tratamento contra o fumo, Alberto José destacou a vareniclina, um novo medicamento que reduz o craving eameniza os sintomas de abstinência. Outra novidade é uma vacina que insere no organismo anticorpos capazes de seqüestrar grande parte da nicotina antes que ela desencadeie as sensações de prazer, de recompensa. Porém, sem efeitos sobre os sintomas de abstinência.

Joab Trajano Silva, professor adjunto do Instituto de Química da UFRJ falou mais a respeito da nicotina. Alerta que esta substância não provoca dependência sozinha. Ela precisa da colaboração de outros componentes presentes na fumaça do cigarro. Entre eles, um açúcar que, ao ser queimado, deriva um aldeído capaz de inibir a enzima monoaminoxidase. Esta é codificada pelos genes MAOA e MAOB, responsáveis por equilibrar os níveis de dopamina. Ou seja, o cigarro não apenas provoca a liberação deste hormônio, como retarda sua degradação no organismo.

O professor concluiu mostrando a hipótese de aspectos genéticos diferenciados influenciarem em uma maior ou menor predisposição nas pessoas para experimentar o cigarro e, feito isso, de recair ao vício em tabaco.

Por fim, teve a palavra Nelson Caldas, psiquiatra do Serviço de Psicologia Médica e Saúde Mental. Esclareceu que o vício em cigarro pode ser impulsionado por fatores sociais, psicológicos e biológicos. Disse ainda que mais relevante não é a qualidade, nem a quantidade da droga, mas a alteração comportamental produzida por este consumo.

Muitas vezes, os fumantes escolhem momentos particularmente emotivos para largar o vício, como a morte de um familiar. Entretanto, é mais aconselhável dedicar-se a esta tarefa em fases mais tranqüilas. Análises revelam também que geralmente há um persistente desejo de parar de fumar, porém os esforços acabam falhando. Mas quanto maior o contato humano recebido pelo paciente, maior a chance de ele se curar.

Segundo Nelson, a nicotina é das drogas mais difíceis de superar. Parar de fumar pode precipitar um transtorno bipolar, uma recaída de depressão mais intensa e até problemas com outras drogas – como álcool. A abstinência de nicotina provoca ganhos de peso, sono, irritabilidade, diminui a taxa metabólica e os batimentos cardíacos.

Os primeiros traços de abstinência se manifestam entre 24 e 48 horas, podendo se estender por quatro semanas. Seus sintomas afetam o organismo, daí poderem ser amenizados por medicamentos. Mas parar de fumar também causa fissura, um traço comportamental que se prolonga por até seis meses, e não pode ser tratado senão por uma abordagem psicológica.