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Hialo… o quê?

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da UFRJ atraiu muitos interessados ao campus do Fundão, nos dias 19 a 22 deste mês.

Por Luana Trino e Natália Shimada

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia da UFRJ atraiu muitos interessados ao campus do Fundão, nos dias 19 a 22 deste mês. Universitários, professores, pesquisadores e alunos do Ensino Fundamental e Médio dividiam sua atenção entre um planetário inflável, um muro de escalada, tirolesa, shows e outras atrações.

Um dos stands mais procurados, porém, foi o de hialotecnia, apresentado pelo Instituto de Química da UFRJ (IQ). Nele, hialotécnicos transformavam tubos de vidro em artigos de decoração, utilizando-se basicamente de um maçarico e espátulas com ponta de metal. Aquecido pelo fogo, o vidro se torna maleável, e pode ser moldado nas mais diversas formas.

Os profissionais trabalhavam cercados por crianças deslumbradas que esperavam ganhar de presente flores, frutas e aves confeccionadas na hora. Camila Pereira, aluna do primeiro ano do Colégio Estadual Álvaro Negromonte, conta que aguardou por mais de 40 minutos na fila para receber uma rosa, mas considera que valeu a pena. Ela e seus colegas de turma ficaram entusiasmados com a técnica, a qual definiram  como “simplesmente maravilhosa”.

Ontem e hoje
Hialotecnia é uma palavra de origem grega, derivada da fusão dos vocábulos hyalos (vidro) e tekne (arte). Antigamente, essa prática fazia parte da atividade cotidiana de todo químico. Eram eles que construíam seus próprios instrumentos de vidro como, por exemplo, tubos de ensaio, decantadores e pipetas. Com isso, esses cientistas podiam criar equipamentos de acordo com as necessidades de suas experiências.

Com o tempo, porém, essa função foi transferida para profissionais especializados no ofício. Surgiam, então, os vidreiros, responsáveis por criar materiais necessários ao estudo da química, também chamados de hialotécnicos. Atualmente esse trabalho passou a ser executado por fábricas multinacionais, perdendo seu caráter artesanal. No entanto, existem exceções a essa regra e o Laboratório de Hialotecnia do IQ se orgulha de ser uma delas.

Segundo Jairo Bordinhão, professor responsável pela conexão da Hialotecnia com outros setores da Universidade, a existência desse laboratório “é vital para o funcionamento autônomo de uma Instituição de Ensino e Pesquisa como o IQ”. Isso porque ele produz, sob medida, a maior parte dos artigos utilizados  pelos pesquisadores e estudantes de química da UFRJ, que de outra maneira teriam que ser comprados e até mesmo importados. “É uma questão de dependência ou independência” conclui o professor.

Uma profissão em extinção
O cotidiano de um vidreiro, porém, difere muito do que foi apresentado no salão de exposições da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Os objetos de decoração dão lugar a um trabalho menos estético e mais funcional. Animais e flores são substituídos por tubos de ensaio e beckeres. A “mágica” acontece diariamente longe dos olhares de espectadores atentos, em uma oficina escondida no sétimo andar do Centro de Tecnologia (CT) no campus do Fundão.

Apesar de sua importância, trata-se de uma atividade praticamente em extinção, já que hialotécnicos qualificados são raros. Levy Ferreira é um dos poucos. Contratado  da UFRJ há 23 anos, ele conta que sua profissão é quase hereditária. “Meu tio me trouxe pra trabalhar na universidade aos 14 anos, não freqüentei nenhum curso, foi mais na prática mesmo”. Hoje, Levy passa seus conhecimentos para o filho adolescente que, aos 12 anos, já demonstra interesse pela técnica.

Ainda que exerçam uma prática fascinante, os vidreiros convivem constantemente com o perigo. Levy lembra que precisa trocar sua identidade a cada dois anos por conta de mudanças na impressão digital causadas por queimaduras. O manuseio do vidro sempre provoca cortes, por mais hábil que seja o profissional.  Além disso, prejuízos na audição e visão, conseqüências do barulho do maçarico e da proximidade com a luz do fogo, ocorrem freqüentemente. São os ossos do ofício.

De olho no futuro
Tendo em vista a escassez de hialotécnicos no país, na década de 80, a UFRJ criou, em parceria com o Senai, um curso técnico para formar esses profissionais. Hoje, esse projeto não existe mais. No entanto, segundo Jairo Bordinhão, é desejo da direção do IQ reimplantá-lo. “Para isso é preciso que a comunidade perceba a importância desse trabalho, porque cursos deste tipo somente se consolidarão se houver apoio financeiro para tanto”.
Se a idéia se concretizar, não faltarão interessados, a julgar pelo entusiasmo demonstrado por aqueles que passaram pelo stand da feira. “Claro que iria me inscrever”, afirmou animado Fabiano Fernandes, estudante do Ensino Médio, que visitou a exposição. Quem sabe ele não será o próximo artista do vidro?