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Mídia x Política: reflexos de uma intrincada relação

Apesar das denúncias de corrupção que permearam o governo federal nos últimos quatro anos, o presidente Luiz Inácio da Silva conseguiu 48,61% dos votos válidos, no dia 1º de outubro, e segue na luta pela reeleição. Lula não só provou o alcance de seu carisma junto à parte do povo brasileiro como também pôs em xeque o real poder da imprensa de influir no processo eleitoral.

 Escândalos dos Bingos e dos Correios. Mensalão. Fraudes nos fundos de pensão. Caso Dossiê. Por mais que esses episódios tenham sido relacionados a uma possível corrupção do governo e tenham culminado, de acordo com a grande mídia, em uma crise no Partido dos Trabalhadores (PT), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permanece na corrida pela reeleição e vai ao segundo turno, no dia 29 de outubro.

As denúncias de irregularidades no governo, maciçamente veiculadas por jornais e redes de rádio e TV em todo o país, não impediram que todas as pesquisas de boca-de-urna indicassem a supremacia de Lula frente aos seus adversários no pleito de 2006. Apesar de a possibilidade de vitória no primeiro turno não ter sido confirmada pelas urnas, o atual presidente recebeu 48,61% dos votos válidos, venceu a eleição em 16 dos 27 estados brasileiros e reacendeu a discussão em torno do real poder que a imprensa exerce sobre o processo eleitoral.

Acusada de manipular, em favor próprio, informações políticas e influenciar resultados, a grande mídia, inesgotável fonte de acusações ao partido de situação, foi ignorada por boa parte do eleitorado brasileiro no primeiro turno das eleições presidenciais. Eduardo Refkalefsky, docente da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), assegura que os mecanismos midiáticos de intervenção na política são, por vezes, superestimados. De acordo com o professor, a imprensa, em especial os jornais de grande circulação, atinge índices pouco expressivos de eleitores.

Refkalefsky credita o resultado parcial das eleições à relação de identificação que existe entre Lula e o povo brasileiro: “no Brasil, há um sentimento generalizado pela busca de um messias, como ocorreu com Collor e o Plano Real. E Lula soube capitalizar a própria imagem no poder, com programas como o Bolsa Família. Por isso ele não teve a imagem arranhada para grande parte dos eleitores”, explica.

Na opinião de Eduardo Granja Coutinho, também docente da ECO, a mídia ainda é, em última instância, responsável pela definição do quadro político brasileiro. “A mídia poupou o Lula em muita coisa, porque ele estava adotando posturas de direita. Massacraram o PT, mas o Lula foi poupado. Se ele quiser ser reeleito, terá que fazer o jogo da imprensa”, alerta o pesquisador.

Corrupção banalizada

Coutinho intitula a banalização da corrupção como um dos fatores que explicam o bom desempenho do presidente Lula nas eleições 2006. Segundo o professor, ao alardear acusações de fraudes e ilícitos, a mídia prioriza a emoção em detrimento da razão e “deixa então de ser um espaço de discussão política, esvaziando a realidade do seu conteúdo histórico”. 
Para Bernardo Iudcovsky, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), o sistema midiático, de maneira inconsciente, contribui para a associação, cada vez mais crescente, entre democracia e corrupção. “A imprensa cria a imagem de que todas as pessoas envolvidas em política são corruptas; os eleitores passam a ter a impressão de que a corrupção é inerente à política brasileira e então a ética deixa de ser um critério a ser levado em conta na hora da escolha do candidato”, sublinha o docente.

O papel do marketing eleitoral

O marketing eleitoral ganhou notoriedade nacional na campanha presidencial de 2002, quando alguns publicitários transformaram o Lula metalúrgico e líder sindical das três eleições anteriores em um Lula mais próximo da imagem de presidente da República. Marcelo Serpa, consultor em Ciência Eleitoral e professor da ECO, garante que, apesar de todas as denúncias imputadas a membros do PT, a linha de atuação do marketing eleitoral de Lula em 2006 não guarda grandes distâncias em relação à de 2002: “o que mudou foram as circunstâncias. O Lula de agora é o presidente e carrega sobre os ombros todos os efeitos de desgastes naturais de quem está no poder há quatro anos – os bônus e os ônus”, explicita.

Avaliando as possibilidades de segundo turno, Serpa afirma que, as denúncias, mesmo quando não comprovadas, podem deixar seqüelas na imagem do candidato, nem sempre reversíveis pela atuação do marketing eleitoral, e ocasionar a perda de parte do eleitorado. “Lula continua muito identificado com o seu eleitorado. O fato é que essa identificação é muito importante, porém muitas vezes pode não ser suficiente”, pondera.