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Diálogo é o Trunfo do CAp UFRJ

O Colégio de Aplicação da UFRJ é líder nacional no ensino público. Freqüentado por alunos de diversas classes sociais pelo sistema de sorteio de vagas, o CAp estimula a criatividade e o senso crítico dos alunos.
A diretora do CAp UFRJ, Militza Bakich Putziger, destaca como diferenciais do colégio,o currículo diversificado e o corpo docente.

agencia964T.jpgColégio de Aplicação da UFRJ é líder nacional no ensino público
Na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cenários mais bonitos do Rio de Janeiro, está um dos melhores colégios públicos do país, o CAp UFRJ. Freqüentado por alunos de diversas classes sociais pelo sistema de sorteio de vagas, o Colégio tem grandes trunfos para atrair cada vez mais estudantes.
─ Nosso colégio prioriza o diálogo e nós temos um corpo docente muito bem preparado, selecionado, que está sempre se atualizando, pois este é um colégio de formação de professores. Além disso, os alunos têm aulas de artes cênicas, artes plásticas, educação física, desenho geométrico, francês, inglês e música, e exigem muito dos professores, o que proporciona uma boa troca. ─ diz Militza Bakich Putziger, diretora do Colégio de Aplicação da UFRJ.
Conhecido por estimular o senso crítico e a criatividade dos alunos, o CAp UFRJ possui currículo diversificado e acesso democratizado também como diferenciais. Entretanto, a formação do aluno e o desenvolvimento global da criança são questões que recebem atenção especial dos profissionais da escola.
─ Os alunos de 1ª à 4ª série têm a Oficina da Palavra, que é uma espécie de disciplina adicional, em que o discurso é desenvolvido. As crianças ouvem estórias, contam-nas e lêem poemas. Saber a gramática é muito importante, mas é imprescindível a criança saber se expressar. Há um cuidado com a formação da criança, não educamos somente para o conteúdo, para o vestibular, mas para a vida ─ destacou Militza.

A Democratização do CAp UFRJ
Com turmas de 30 alunos, o sistema de ingresso no CAp UFRJ era, até 1998, feito através de concurso. Os estudantes faziam provas e os melhores colocados eram selecionados, mas a partir de 1999, para que o colégio pudesse atender às classes economicamente menos favorecidas, foi decidido sortear as vagas do colégio. Atualmente, os candidatos ao Ensino Médio realizam provas de nivelamento antes do sorteio, a fim de evitar patamares de conhecimento muito diferentes entre os alunos nesta etapa do ensino, próxima ao vestibular.
─ Como o nível de ensino varia muito de escola para escola, se fizermos um sorteio puro do Ensino Médio, ficará muito difícil, porque algumas crianças não conseguem, mesmo com as aulas de apoio, superar as lacunas que trazem, e como ainda persiste o sistema de jubilamento, aceitar uma criança com muitas lacunas é praticamente dizer que daqui a pouco ela será jubilada, porque não é só a entrada no CAp que é democrática, é a permanência do aluno também ─ argumentou Militza.

As Razões do Sucesso do CAp
O perfil diversificado de alunos combina com a metodologia de ensino do CAp UFRJ, que rejeita a famosa “decoreba” e se volta para a arte de compreender o assunto. Assim, o colégio desenvolve atividades que estimulam a vontade de aprender do aluno, realizando visitas a museus, a monumentos e lugares históricos da cidade.
Outra atividade realizada pelos alunos é o teatro, cujas peças são produzidas em parceria com a Escola de Direção Teatral da UFRJ. Além disso, o colégio promove olimpíadas, festas juninas, tem uma biblioteca muito freqüentada, e o Grêmio da escola criou a Rádio CAp, ainda em fase experimental, para dar notícias e tocar músicas na hora do recreio.
─ A biblioteca que temos é pequena para as atividades que acontecem. Os alunos freqüentam muito esse espaço, pois a biblioteca atende desde alunos da Série Inicial, antigo CA, até o 3º ano do Ensino Médio, alunos da Licenciatura e professores do colégio, além dos alunos da Universidade, que também têm acesso aos livros ─ disse Lúcia Helena, responsável pela biblioteca do CAp UFRJ.

As dificuldades que a escola enfrenta
Apesar de toda a estrutura educacional que o colégio oferece, o CAp UFRJ sofre com a crise no ensino federal, tem problemas de infiltração no prédio e está com o quadro de professores e funcionários incompleto. São 80 professores efetivos, 36 substitutos e 28 turmas, mas ainda faltam 18 professores para compor o quadro de educadores.
─ O governo está abrindo concurso, o que não acontecia desde 1997, e esperamos que as vagas sejam preenchidas ─ disse Militza.
Outro ponto crítico do CAp é a alimentação dos alunos. O colégio não oferece merenda escolar, e a ajuda que a escola recebe do MEC e do FNDE _ R$ 0,06 por aluno/dia e R$ 0,13 para as crianças de 1ª à 5ª série _ é pouca diante das necessidades dos estudantes.
─ A Reitoria da UFRJ está tentando nos ajudar a solucionar esse problema da alimentação, afinal, uma criança que está aqui desde as 7h da manhã até 12h40, horário normal do expediente, para ficar de tarde para as aulas de apoio, vai precisar almoçar e muitos não têm dinheiro para o almoço ─ explicou Militza.
O CAp recebe contribuições de pais de alunos, e além disso, a UFRJ repassa verbas para o colégio, mas a prioridade da Universidade agora é consertar telhados, evitar riscos de incêndio e modernizar o sistema elétrico das faculdades e do colégio.
 O Colégio de Aplicação da UFRJ vai completar 56 anos e até hoje não tem uma sede própria. O prédio em que funciona a escola pertence ao Município e a Universidade não investia em melhorias. Agora a Reitoria se comprometeu a nos ajudar, mas na realidade, já se discutiu a viabilidade de se construir um CAp no Fundão, porém, acho que o ideal seria ter um CAp perto da Escola de Educação, na Praia Vermelha ─ disse Militza.
Mesmo com as dificuldades que enfrenta, o CAp UFRJ obteve excelente resultado no Enem, foi classificado como a melhor escola pública do país, conta com uma equipe de professores seleta e com alunos críticos, de culturas e hábitos diversificados, o que é considerado um desafio para o colégio. Enumerar as razões do sucesso do CAp não é tarefa fácil, mas pode-se dizer que o seu grande trunfo na formação dos estudantes é a filosofia da escola, o diálogo.
─ Hoje em dia, na sociedade, em geral, está tudo mais difícil para a criança. Por exemplo, as questões da propriedade pública, da propriedade do outro, têm de ser trabalhadas. Por que você não pode pegar o objeto do outro? Nós dialogamos muito, mas é claro que temos limites, afinal, uma educação sem limites não existe, contudo a rigidez não é nosso lema ─ afirmou Militza.