Categorias
Meio Ambiente

Céus impulsionam o turismo sustentável no Brasil

Na terceira edição, a Conferência Brasileira de Astroturismo vai reunir profissionais e entusiastas do novo segmento da indústria

A fim de debater propostas para aprimorar o astroturismo, um segmento emergente do turismo científico, que pode estar associado ao ecoturismo ou ao turismo cultural, cientistas, pesquisadores e estudantes participam da III Conferência Brasileira de Astroturismo. O evento, que acontece entre 1º e 4/12, é totalmente online e gratuito. A meta é atrair não só profissionais e entusiastas da área, mas também sensibilizar o público quanto à preservação ambiental e ao papel fundamental da ciência no desenvolvimento dessa nova modalidade de turismo sustentável.

O professor Daniel Mello, do Observatório do Valongo (OV) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi um dos pioneiros a trazer o tema para discussão no Brasil, ao criar em 2021 o projeto de pesquisa Astroturismo nos Parques Brasileiros. Na ocasião, ele realizava trabalhos de campo em parques e reservas fluminenses com o Sky Quality Meter (SQM), aparelho que mede o brilho do céu e indica o quanto está degradado pela poluição luminosa. Foi o primeiro passo para impulsionar a atividade e a divulgação da ciência em uma experiência imersiva e de contato íntimo com a natureza.

Segundo Mello, em 2025, as ações foram ampliadas e levadas para sete estados, fazendo pesquisa, extensão, divulgação da Astronomia e conquistando parceiros em prol do desenvolvimento do astroturismo. “Chegou o momento em que foi criado algo mais abrangente, coletivo e independente. Decidimos formalizar a criação do Instituto AstroParques em outubro de 2025. Além disso, a necessidade de buscar recursos para manter as ações também se tornou fundamental. O Instituto é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) sem fins lucrativos e sem vínculo direto com a UFRJ. Na conferência deste ano, a UFRJ entra como apoiadora. Mas teremos oito pessoas da Universidade envolvidas no evento, sejam palestrantes ou organizadores. Todavia, certamente é meta do Instituto estabelecer uma parceria formal com a UFRJ em um futuro próximo”, informou o professor.

Nesta terceira edição, estarão presentes representantes do Ministério do Turismo, da Sociedade Astronômica Brasileira, de universidades brasileiras e vários profissionais que já transformaram o astroturismo numa atividade cotidiana. De acordo com o professor Mello, as pessoas estão viajando em busca de locais em que a poluição luminosa é inexistente e permite a contemplação do céu noturno, como faziam as antigas culturas. “Esse turismo de experiência está se consolidando como alternativa viável para o desenvolvimento turístico em áreas naturais protegidas e municípios nos arredores, ajudando também na preservação ambiental”, afirmou.

Para o professor do Valongo, houve uma evolução no cenário do astroturismo aqui e em outros países. “Tanto em 2024 quanto em 2025, a Mintur indicou o astroturismo como uma das maiores tendências de viagens dos próximos anos. Outras agências e plataformas de turismo indicam dados que mostram interesse crescente, tais como o Airbnb e o TripAdvisor. No Brasil, os dados ainda são escassos, mas há uma projeção de crescimento constante até 2030. Isso é bem evidente nos dados de nossos parceiros que operam no mercado, indicando que a demanda está cada vez maior”, revelou.

Em 2025, o Observatório de Valongo publicou um artigo inédito que mapeou os 75 parques nacionais e criou um ranking dos mais adequados para o astroturismo. “ Esse trabalho já começa a dar resultados com gestores e pessoas mais interessadas nos parques mais bem ranqueados. Embora o cenário seja otimista, há um problema que também evoluiu: o aumento da poluição luminosa. É necessário que se adotem diretrizes e políticas públicas para o uso correto da iluminação artificial, para que o crescimento do astroturismo prossiga”, afirmou.

O primeiro parque da América Latina com certificação para observação celeste ideal fica no interior do Rio de Janeiro, entre os municípios de Santa Maria Madalena, Campos dos Goytacazes e São Fidélis. É o Parque Estadual do Desengano (PED), refúgio de diversas espécies da flora e fauna remanescentes da Mata Atlântica original, que foi escolhido pela International DarkSky Association (IDA), entidade criada para acompanhar o problema da poluição luminosa e para se tornar uma referência. 

Os parques nacionais das Emas e da Chapada dos Veadeiros (GO), da Serra da Canastra e da Serra do Brigadeiro (MG), e os Lençóis Maranhenses (MA) e a Chapada Diamantina (BA) são outros locais espalhados pelo Brasil onde em noites claras é possível ver estrelas, constelações e, dependendo da região, até a Via Láctea. “Boa parte das crianças que nasceram nas capitais brasileiras jamais viram a constelação de Órion, por exemplo, uma das mais conhecidas por causa das três marias. O astroturismo traz a contemplação dos céus, mas também lições de preservação ambiental nas regiões de céu escuro”, contou Daniel Mello.

Na opinião de Mello, os graduandos e pós-graduandos em Astronomia da UFRJ participam das ações do AstroParques e aproveitam as experiências, as  vivências e um aprendizado que escapa da grade curricular. “Ter contato com um céu estrelado de verdade, interagir com comunidades e culturas diversas e compartilhar um conhecimento que não pode ficar restrito às universidades. O AstroParques tem dado essa contribuição para a formação discente. É evidente que o campo do astroturismo é uma via aberta para expandir a formação da carreira do astrônomo e criar um campo novo no mercado de trabalho, que até então era inexistente no Brasil”, enfatizou Mello.

A III Conferência Brasileira de Astroturismo será realizada 100% online, sempre após as 19h, com transmissão exclusiva pelo canal do Instituto AstroParques no YouTube, no qual há os links para os dias de evento e a programação completa das apresentações.

PROGRAMAÇÃO 

1°/12

Abertura do evento com Daniel Mello e Rafael Pereira (19h)

Palestrantes:

Fabíola Gomes – Instituto AstroParques

Roberto Starzynski – Parque Solar de Cunha

Paulo Hunold Lara – Fundação Projeto Tamar 

Guilherme Mota – Canopus Astroturismo

Gustavo Fernandes & Marina Gomide – Parque Arqueológico da Pedra do Sol & Observatório Seichú

2/12

Walmir Thomazi Cardoso – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Astronomia Cultural | UFRJ

Alexandre Ugarte – Espírito de Aventura

André Fonseca da Silva – Centro de Estudos do Universo (CEU)

Fabiana Oliveira – Ministério do Turismo

Samara Monteiro, Matheus Santos & Raimundo Ferreira – Observatório do Valongo | UFRJ

3/12

Rodolfo Langhi – Departamento de Física e Meteorologia da Unesp/Bauru

Robson Chagas – Pousada Verbicaro

Juliana de Freitas – Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT)

Dalvanete Dantas & Felipe Sérvulo – Casarão do Jabre & Associação Paraibana de Astronomia (APA)

Helio Jaques Rocha Pinto – Sociedade Astronômica Brasileira (SAB)

 4/12

Juan Pablo Valenzano Bustamante – Fundación Cielos de Chile

Marcel Bonfada – Cosmos Iguassu

Rogéria Cristina Lopes – Espaço Trilha Viva

Ângelo Alves Correa – Nazareth Cânion Lodge & UFPI

Ricardo Takamura – Takamura Photography