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Novos honoris causa da UFRJ

Em cerimônia virtual, Nísia Trindade recebeu o título de professora honoris causa e Noca da Portela o de doutor honoris causa

Em meio às comemorações do centenário da UFRJ, a instituição também decidiu honrar quem honra o Brasil com suas contribuições à ciência e cultura nacionais. Na última terça-feira, 8/9, em cerimônia virtual, a UFRJ concedeu à presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade, o título de professora honoris causa e ao compositor, cantor e instrumentista Noca da Portela o título de doutor honoris causa.

A diretora do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (Cbae) da UFRJ, Ana Célia Castro, abriu o evento. “No centenário da UFRJ, Nísia Trindade e Noca da Portela estão indissoluvelmente ligados a este marco, à resistência e à luta pelo futuro da ciência e da cultura no Brasil”, afirmou.

A reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho, disse se sentir agraciada por participar do momento. “É uma grande honra ser reitora da UFRJ no ano do centenário, mas a maior honra foi presidir o Conselho Universitário (Consuni) da UFRJ (…) que concedeu, por unanimidade e aclamação, o título de professora honoris causa à primeira mulher presidente da Fiocruz, a socióloga Nísia Trindade, uma cara amiga, defensora da ciência e da democracia no nosso país, à frente dessa importante instituição de 120 anos comemorados neste ano, uma guerreira pela ciência e no enfrentamento da pandemia”, afirmou. “Também é uma grande honra conceder, por unanimidade e aclamação, o título de doutor honoris causa ao Noca da Portela, principalmente para mim, que sou ­­­­— como alguns amigos mais próximos sabem — amante do samba, ainda mais para mim, amante da cultura brasileira (…). Muito obrigada, Noca, por representar a cultura brasileira tão bem”, disse Denise.

Homenagem a Nísia Trindade

Maria Cristina Miranda, vice-diretora do Colégio de Aplicação (CAp/UFRJ) enalteceu a gestão de Nísia à frente da Fiocruz. “Sob a presidência de Nísia Trindade, a Fiocruz tem sido um bastião em defesa da ciência, com posições firmes contra tentativas de descrédito da ciência e da reputação de pesquisadores. Nísia Trindade tem logrado construir forte unidade institucional em todo o país, consolidando a Fiocruz como instituição de referência e de reconhecida liderança científica, ética e política no Brasil e no mundo, construindo conexões virtuosas com as universidades e os demais institutos de pesquisa”, afirmou. “Outorgar o título de professora honoris causa a Nísia Trindade traduz o reconhecimento da UFRJ de seu trabalho acadêmico e o acolhimento de sua liderança científica. É também um ato político, de respeito e de amor à ciência e ao trabalho de todos os cientistas”, completou, emocionada.

“Quanta emoção receber o título de professora honoris causa desta casa de Minerva, a deusa grega da ciência, das artes, dos ofícios, uma representação feminina para a aventura do conhecimento e que hoje se expressa também na sua representação maior com a primeira reitora da UFRJ e, aqui vos falando, a primeira presidente da Fiocruz”, afirmou Nísia.

“Os laços entre a Fiocruz e a UFRJ são centenários”, disse Nísia. “Ressalto o papel de Carlos Chagas na criação da Cátedra de Medicina Tropical bem nos primórdios da Universidade, em 1926. Destaco também os laços que unem a nossa instituição a Carlos Chagas Filho, que criou o Instituto de Biofísica e que defendeu a ciência e tecnologia e muitas das ações da Fiocruz no contexto da luta pela redemocratização”, continuou.

Homenagem a Noca da Portela

Roberto Medronho, diretor da Divisão de Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ, fez homenagem a Noca da Portela, de quem é amigo há décadas.

“Noca não é só da Portela, é de todas as escolas, de todos os blocos, de todos os sambas. Noca é de todos nós. Amálgama de bravura e bondade, está sempre a postos aplaudindo a quem já vai subindo, amparando a quem já vai caindo, como disse nosso verdadeiro Vendaval da Vida. É um artista com rara sensibilidade social, sempre atento aos grandes momentos do nosso país e ao sofrimento humano”, disse Medronho.

“Com sua vasta sabedoria, Noca nunca ficou no muro. Ao contrário, derrubou todos, erigindo esse harmônico e consistente monumento que hoje celebramos com muito júbilo. Noca sempre teve lado: o do povo oprimido”, sustentou Medronho. “Compor com ele é um deleite e um grande aprendizado, um verdadeiro mestre na arte da vida. Sempre digo aos meus alunos: ‘eu sou o professor de vocês, mas o meu professor é o Noca da Portela’”, continuou, ao passo que fez o compositor sorrir ainda mais.

“A UFRJ, em seus 100 anos, ao conferir o título de doutor honoris causa a Osvaldo Alves Pereira, reitera o seu inabalável compromisso social, reconhece que a sabedoria está em toda parte, que a ponte do saber não é uma via de mão única”, afirmou Medronho.

Noca se emocionou. “Eu estou recebendo essa honraria (…) com os olhos cheios de lágrimas e quero dizer que estou feliz da vida”, confessou. “Perto de completar 88 anos, eu pensei que já estava na hora de eu comprar uma bengalinha e uma cadeira de balanço e ficar sentado curtindo as glórias que eu conquistei, mas não. Vocês estão me dando flores em vida agora. Muito obrigado, de todo coração, à universidade centenária por esse momento tão feliz e importante da minha vida”, disse Noca.

“Nesses 72 anos de carreira, tive grandes parcerias, participei de tantas coisas em prol da democracia desse país, em nome da cultura do nosso samba. Orgulho de fazer parte da família portelense, orgulho de ser um dos compositores mais gravados deste país”, afirmou. “O orgulho maior que eu tenho nessa minha missão de ser compositor é pelo meu país, pela luta, pela democracia”, completou o novo doutor honoris causa da UFRJ.

Martinho da Vila participou da cerimônia

Na cerimônia, Noca da Portela e Martinho da Vila compartilharam experiências e riso solto em meio a histórias com o samba, a vida e a Universidade na luta pela democracia no país.

A reitora finalizou o evento. “Martinho em 2017, Noca em 2020, quem será o próximo? Temos que pensar, porque a cultura precisa ser cada vez mais fortalecida. E eu faço minhas as palavras do Noca – só podemos continuar vivos e cada vez mais saudáveis porque nos amamos. Mas mais do que isso, Noca (…): você se ama e ama o povo brasileiro e quer o melhor para o nosso povo. Como dizia João Ubaldo: viva o povo brasileiro! Viva Noca! Viva Martinho! Viva a cultura! Viva a ciência! E todas as manifestações artísticas do nosso país que é muito rico, muito diverso, muito criativo. Nós merecemos um Brasil cada vez melhor e, para isso, dependemos de figuras como vocês dois, que nos trazem muita alegria, muita reflexão”, finalizou Denise.

Presentes na cerimônia

Além dos homenageados, estiveram presentes Denise Pires de Carvalho, reitora da UFRJ; José Sérgio Leite Lopes, pesquisador do Museu Nacional; Ana Célia Castro, diretora do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (Cbae) da UFRJ; Maria Cristina Miranda, vice-diretora do Colégio de Aplicação (CAp/UFRJ); Roberto Medronho, diretor da Divisão de Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ. O cantor e doutor honoris causa pela UFRJ Martinho da Vila também participou do evento.

Biografias

Nísia Trindade, nova professora honoris causa da UFRJ

Servidora da Fiocruz desde 1987, Nísia iniciou seu mandato como presidente da Fiocruz em 2017, sendo a primeira mulher a ocupar o posto em 120 anos de história da instituição, uma das principais do mundo quando se fala em pesquisa em saúde pública.

Nísia é doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e conta com largo currículo em defesa da ciência no país.

Durante seu mandato como presidente, vem destacando o papel da instituição na comunidade global de saúde. Nísia participa de programas e redes internacionais nas áreas de história da ciência e história da saúde. Ela integra, ainda, a Zika Alliance Network (2018), um consórcio de pesquisa multinacional.

Noca da Portela, novo doutor honoris causa da UFRJ

Compositor, cantor e instrumentista brasileiro, Osvaldo Alves Pereira, o Noca da Portela, começou cedo a compor: aos 15 anos de idade, já atuava na Escola de Samba Unidos do Catete, vencedora do carnaval com o samba-enredo O Grito do Ipiranga, sua primeira nota dez.

Ainda que o pai − o professor de violão Ernesto Domingos de Araújo − não o tenha incentivado a seguir a carreira artística, preocupado com o futuro financeiro do filho, não teve jeito. Noca abriu as alas da sua vida para fazer cultura: lançou mais de 400 músicas e oito álbuns, ganhou sete disputas de samba-enredo pela Portela e sua obra se destaca por abordar temas sociais e raciais do país.

Noca escreveu sambas-enredo e vários sambas de vulto nacional, como Virada, consagrado por Beth Carvalho e considerado um símbolo da luta pela democratização do Brasil.

Ao lado do professor Roberto Medronho, Noca compôs o samba comemorativo do centenário da UFRJ, 100 Anos de Arte, Ciência e Balbúrdia:

Olha a Minerva de novo aí

Eu vou cair de corpo e alma na folia

São 100 anos de existência

E resistência

Com arte, ciência e consciência

Quero esquecer os desenganos

Que passei nesses anos

De golpe na democracia

Vamos dar um basta na tristeza

Virar a mesa

Com alegria e autonomia

Direito, Medicina, Engenharia

Formaram a primeira Academia

Hoje democratizou, é multicor

Demorou pro trabalhador virar doutor

Eu quero sonhar

Criar um futuro melhor

Vou fazer balbúrdia

Pra sair dessa pior