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O percurso da amamentação

Com o encerramento do Agosto Dourado, mulheres contam suas experiências com o aleitamento materno e destacam a importância da data

Desde os primórdios da existência humana, a amamentação é um dos maiores símbolos da maternidade. Nutrir as crias é uma exclusividade entre os mamíferos de corpo biologicamente feminino, protegendo o filhote de inúmeras doenças, além de criar um vínculo único entre mãe e bebê. Mas o aleitamento materno, nos dias de hoje, passa por diversos desafios, como a romantização, a estigmatização e os empecilhos de um mercado de trabalho que enxerga a mulher apenas como mão de obra, por vezes exercendo dupla ou até mesmo tripla jornada.

Em defesa do direito à amamentação e à informação de qualidade, movimentos pró-maternidade, feministas e da saúde constroem anualmente, em parceria com o governo federal, o Agosto Dourado. O Mês do Aleitamento Materno tem como objetivo promover o acesso das gestantes e lactantes ao conhecimento sobre o tema, com palestras, eventos, reuniões com a comunidade, entre outras ações que buscam fortalecer a amamentação como política de saúde pública.

Durante este mês muitas mulheres utilizaram suas redes sociais para compartilhar histórias sobre amamentação, algumas sobre sofrimento e solidão, mas também sobre e superação e acolhimento. Uma dessas mulheres é Juliana Montez, mãe da pequena Liz, de 3 anos, e médica em uma Clínica da Família no Jacarezinho. Amamentando a filha até hoje, Juliana vê no aleitamento um momento que é apenas das duas.

“A amamentação era a única coisa que só eu podia fazer para o meu bebê, então, na minha opinião, sempre foi  muito legal. O tempo do ‘mamá’ é só da mãe”, conta, brincando que a filha é conhecida na família como mamadora oficial.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde são unânimes em recomendar o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade e o complementar até, no mínimo, os dois anos. Em nenhum momento, no entanto, as instituições indicam quando é necessário parar. A mãe de Liz afirma que a menina continua  gostando tanto do contato e vínculo quanto da saciedade que o alimento traz.

“Para mim, hoje em dia, a amamentação é uma grande aliada. Se a Liz está com fome, com sede ou fazendo birra, o leite materno ainda a acalma.”

Mulher caminha entre árvores amamentando uma menina no colo
Juliana e Liz | Foto: Reprodução

Mas nem tudo é felicidade nessa trajetória. Monique França, mãe de Maria Luanda, de 6 meses, e médica na mesma Clínica da Família, conta que, durante a gravidez, o parto sempre foi sua maior preocupação. Lidar com a pressão que a sociedade coloca sobre os corpos das mulheres grávidas e seu direito de parirem como quiserem trouxe para a recém-mãe a sensação de que essa seria a maior batalha. “Parir é um desafio que você enfrenta muito mais rápido: você vai lá e acabou. Mas amamentar é um percurso”, explica.

“A fórmula é um avanço, mas o leite materno é proteção”

A maioria das lactantes enfrenta, em algum momento, a necessidade ou a orientação para introdução da fórmula láctea para suprir seja um problema do bebê ou uma dificuldade da mãe. Maria Luanda, por exemplo, precisou ficar internada na UTI neonatal de uma grande rede de maternidades carioca. Mesmo com a experiência de Monique como médica, ela não conseguiu evitar que a criança fosse submetida ao soro glicosado, à fórmula e à mamadeira.  “Acho que a minha visão de maternidade mudou. Hoje eu entendo quem desiste de amamentar. Ter uma rede de apoio é fundamental, trocar experiências com outras mulheres também”, explica, lembrando que esse tipo de troca permite que a fase não seja apenas romantizada.

Mulher deitada na cama amamenta uma menina
Monique e Malu | Foto: Reprodução

Marcela Aragão, mãe dos gêmeos Maria Luísa e Antônio, de um ano, viveu situação similar. Os bebês nasceram prematuros e o menino precisou ficar na UTI neonatal durante 15 dias para ganhar peso e melhorar sua capacidade respiratória. Dividida entre a casa e a maternidade, além de todo o cansaço do início da vida materna, a advogada também foi orientada a usar fórmulas especiais para cada um dos bebês.

“Desde o início eu tive poucas pessoas que me incentivassem: a pediatra disse que seria muito estressante e que eu não precisava passar por isso; que a fórmula bastava”, recorda Marcela.

Nas duas primeiras semanas de vida, é esperado que o recém-nascido recupere o peso que perdeu após o parto. O pequeno Fábio Akin, de 8 meses, filho da jornalista Vanessa Almeida, teve dificuldades em engordar. A mãe conta que a introdução da fórmula, de maneira segura e sem mamadeiras, ajudou neste momento. “Conseguimos voltar para a amamentação só no peito, mas precisei de muita ajuda e, principalmente, informação atualizada. Isso faz toda a diferença. Ter ao seu redor profissionais atualizados que defendam a amamentação e uma rede de apoio que efetivamente te apoie é muito importante”, defende.

As mães, então, buscaram a ciência, a medicina, a informação bem fundamentada, o apoio familiar e suas próprias convicções para tomar decisões que dizem respeito, principalmente, a elas. Monique e Juliana conseguiram abandonar a fórmula e manter o aleitamento exclusivo. Já Marcela optou por manter a fórmula acompanhando o aleitamento materno e  a introdução alimentar até quando conseguir. “A informação é essencial nesse cenário. Você precisa saber das técnicas, mas também precisa se preparar para o cansaço físico e mental”, relata Monique.

Dor física e emocional

Juliana também sofreu com os seios doloridos, o cansaço e com os palpites alheios nas suas escolhas. “Quando o bebê nasce, a sua confiança vai lá para baixo. São mil pessoas falando com você; a dificuldade na descida do leite; e a dor, que é muito grande, mesmo com a pega correta.”

As pressões internas e externas são questões que unem todas as mulheres desse relato às outras que, em algum momento, pariram e precisaram nutrir seus filhos. São comuns  palpites sobre como fazer descer o leite, como cicatrizar as mamas, sobre o peso e a saúde do bebê e, até mesmo, sobre a introdução de outros alimentos mesmo antes dos 6 meses. “Tive muitas questões com a minha família, que me pressionou para o uso de complemento sem que ainda houvesse a necessidade de complementar. Na verdade eu acho que as pessoas esperam um recém-nascido que não chore e que não demande a mãe o tempo todo, e a realidade não é essa”, lembra Vanessa.

Mulher sentada em um banco de uma praça amamenta um menino
Vanessa e Akin | Foto: Reprodução

Segundo a jornalista, muito além da romantização do aleitamento, existe um processo de simplificação.

“As pessoas ainda acreditam que é só botar o peito pra fora que vai dar certo. Pode até acontecer, mas na maioria dos casos não é assim. Amamentação é um processo de conhecimento, tanto seu quanto do seu bebê.”

Direitos maternos e direitos trabalhistas

A licença-maternidade é um direito das mulheres desde o princípio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. Inicialmente, o período de 84 dias ficava a cargo do patrão, por isso muitas mães, mesmo que em trabalhos formais, sofriam uma série de assédios para terem seus direitos cumpridos. Com a Constituição de 1988, a licença passou a ser integralmente custeada pela Previdência Social por 120 dias.

Embora a lei garanta o afastamento, a licença ainda não é compatível com o que as principais autoridades médicas defendem ser melhor para mãe e bebê. Na visão das entrevistadas, a legislação não é favorável à amamentação exclusiva, influenciando no desmame e na introdução alimentar precoce. “Uma das maiores conquistas do Brasil em termos de leis trabalhistas é a licença-maternidade, mas é pequena. Se você quer ser um país que promove a amamentação, precisa que a licença seja de, pelo menos, seis meses”, afirma Juliana.

Luana Guimarães, mãe de Felipe, de 2 anos, e auxiliar de serviços gerais, precisou suspender a amamentação após o fim da licença. A criança ficou aos cuidados da avó, que realizou a introdução alimentar e, também, passou a dar mamadeiras com leite comercializado em supermercados, já  que o preço da fórmula não condizia com o orçamento familiar. “Eu não tive como continuar dando peito para ele e isso me deixou muito triste. Gasto nove horas do meu dia no trabalho e ainda levo quase duas horas no transporte”, lembra Luana, enfatizando que o filho acabou rejeitando a amamentação posteriormente.

Marcela também viveu situação similar: quando os gêmeos completaram 5 meses, ela precisou retornar ao trabalho, tendo apenas o horário do almoço para amamentar. “Como trabalho perto de casa, tinha a flexibilidade de voltar e amamentar nesse horário, mas como são dois, não conseguia ter leite para deixar nos outros horários. Eles continuaram com a fórmula nesse período.” A pandemia da COVID-19 permitiu que pouco depois ela voltasse a amamentar os filhos com mais frequência devido ao trabalho remoto. “Amamentar tem sido muito especial porque há algo único entre os gêmeos e eu. Inicialmente, eu iria só até 1 ano, e agora pretendo levar até os 2, se eles quiserem, mesmo com as dificuldades.”

Para as mães no mercado informal essa realidade é ainda pior,  já que a falta de vínculos oficiais e legais acaba impedindo o afastamento.

“Precisamos lembrar a existência dessas mulheres e lutar pela garantia de políticas públicas trabalhistas que levem em conta questões de gênero, raça e sexualidade, entre outros”, conclui Monique.

Segundo recente estudo preliminar do Ministério da Saúde, houve um crescimento dos índices de amamentação no país: mais da metade (53%) das crianças brasileiras continua sendo amamentada no primeiro ano de vida, e mais de 45% das menores de seis meses recebem leite materno exclusivo.