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Memória Saúde

A batalha contra o coronavírus

Profissionais da saúde e voluntários da UFRJ lutam contra as adversidades causadas pela pandemia e superlotação dos hospitais

Todos os dias homens e mulheres reúnem suas forças e vestem máscaras, aventais, luvas, óculos e toucas de proteção para enfrentar uma inimiga que causa devastação, medo e sofrimento pelo mundo: a COVID-19. Enfermeiros, médicos, técnicos de enfermagem, maqueiros, profissionais de limpeza, assistentes sociais, fisioterapeutas, voluntários e outros heróis trabalham, no Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Rio de Janeiro,em diversas atividades de atendimento e suporte a equipe de saúde aos infectados pelo coronavírus.

Cecília Izidoro é uma das profissionais envolvidas nos cuidados contra a doença. Enfermeira e Diretora Acadêmica Adjunta da Divisão de Enfermagem no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), ela vem trabalhando no esforço coletivo para treinar e acolher aqueles que fazem parte da área da saúde na Universidade. Uma força-tarefa, que reúne a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar(CCIH), Coordenação de Educação Permanente (Coep), Professoras da Escola de Enfermagem Anna Nery (Eean) e Divisão Médica, seguem um plano de ação que, dentre diversas atividades, vem capacitando os profissionais que cuidam dos pacientes e os que trabalham nos laboratórios. Segundo Izidoro, entre as principais técnicas ensinadas e aplicadas estão aparamentação e desparamentação do próprio profissional, os cuidados do corpo após a morte, a pronação do paciente e a reanimação cardiorrespiratória nos que se encontram em terapia intensiva.“Questões vão surgindo e exigindo capacitação imediata das equipes e movimentando todo o hospital para dar conta do complexo cuidado que caracteriza a evolução da doença sempre baseada nas melhores evidências cientificas”, ressalta.

A rotina com a COVID-19 é difícil, de acordo com Izidoro, já que os profissionais de saúde, mesmo os intensivistas, trabalham sempre com a perspectiva de cura. Porém, o coronavírus e sua alta taxa de mortalidade aumentam a tensão na linha de frente. Além da exaustão, do medo do contágio e das perdas, o isolamento da família é um dos maiores sofrimentos:“Boa parte de médicos e enfermeiros mudou-se para outros locais, saíram de casa para evitar contaminação de seus filhos, pais, avós, estabelecendo nesse período um doloroso distanciamento social para preservar as pessoas que amam”.

Outra frente de trabalho que envolve a comunidade universitária é a testagem de profissionais da área realizada no Centro de Ciências da Saúde (CCS). Terezinha Castiñeiras é professora da Faculdade de Medicina e coordena os testes feitos pela UFRJ. Segundo ela, médicos, enfermeiros e estudantes da área de saúde fazem a coleta de amostras da região nasofaríngea e enviam para testagem, já que existe uma parceria com o Laboratório de Virologia Molecular.

A iniciativa, que começou pequena, hoje atende entre 250 e 300 profissionais da saúde por dia, chegando à taxa de 60% de resultados positivos. “No início, tínhamos apenas cerca de 5% de confirmação positiva. Embora eu não esteja testando a comunidade, sei que é exatamente isso que está acontecendo fora desse grupo. E provavelmente isso está sendo galopante, pois as pessoas não estão respeitando o isolamento social e as orientações.”

Castiñeiras também cita o isolamento como uma das maiores dificuldades para os profissionais que trabalham na saúde. “As pessoas se sentem isoladas e o adoecimento contribui para o isolamento completo. Quando fazemos as testagens aqui, somos recebidos com gratidão por essa acolhida”, declara.

Voluntariado e reconhecimento

Gratidão também é o reconhecimento que Carla Luzia Araújo, diretora e professora da Eean, vem recebendo no momento. À frente do projeto de voluntariado, Araújo intermedeia a demanda das unidades envolvidas em ações contra a COVID-19 e os quase 2 mil voluntários que já se inscreveram. Entre os que se dispuseram a enfrentar o vírus junto aos profissionais da Universidade, estão estudantes de diversos cursos, docentes, técnicos-administrativos de outras áreas, além de pessoas sem vínculo com a UFRJ.

“Atualmente temos voluntários atuando na Maternidade Escola, na testagem para a COVID-19 no CCS, na distribuição de quentinhas, produção de álcool 70%, na parte de tecnologia da informação e produção de máscaras e protetores faciais em impressoras 3D, na confecção de máscaras de pano e na atuação de treinamento de pessoal da área de saúde no Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira e HU”, conta

Esses voluntários vêm das mais diversas áreas, como belas-artes, comunicação, letras, engenharia, segurança do trabalho, história. O que todos têm em comum é a vontade de apoiar os profissionais de saúde que, todos os dias, lutam para salvar vidas e, muitas vezes, sofrem preconceito pelo risco de contaminação.

Izidoro relata ainda ter vivido uma situação assim recentemente: “No meu condomínio, manifestações de apoio ao meu trabalho são alternadas com pessoas passando o mais longe possível de mim ao me verem no mesmo espaço.  É difícil para muitos entender que o distanciamento social exigido pelas autoridades sanitárias não deve ser enriquecido de medo e repulsa, pois somos nós que, de forma direta ou indireta, estamos no ambiente hospitalar salvando vidas”.

Para ela, no entanto, atitudes empáticas e de valorização do trabalho têm ajudado no dia a dia dos que se encontram na frente da batalha, seja no atendimento, testagem e pesquisa, seja na comunicação e segurança pública. “O clima é de guerra e o cuidado é de guerra. Estamos travando uma luta com um inimigo invisível e por vezes imprevisível, que colocou toda uma cidade em suspenso, e, é claro, tudo isso se reflete dentro de nós e na nossa perspectiva de futuro na Universidade. Somos UFRJ e estamos no combate à COVID-19 com cuidado e ciência, baseados nas melhores evidências”, conclui.