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Da UFRJ para a Unesco

Ex-reitora Denise Pires de Carvalho chega a um dos principais postos da Unesco na área científica e se torna a primeira brasileira a exercer a função em 80 anos da organização

A cientista e professora Denise Pires de Carvalho coleciona pioneirismos. Primeira mulher a ocupar a Reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela será agora a primeira brasileira a assumir o cargo de vice-diretora-geral de Ciências da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Escolhida após processo internacional de seleção, Denise leva para a instituição uma trajetória de quase quatro décadas construída entre a pesquisa, a docência e a gestão da educação superior e da ciência.

O nome de Denise foi anunciado pelo diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, na segunda-feira, 28/9, e divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) na terça-feira, 29/9.  “Ser a primeira brasileira e ser uma mulher realmente me traz muita alegria. Fiquei muito honrada”, afirmou ontem Denise, em entrevista ao comentar a escolha.

A nova função coloca a professora da UFRJ diante de uma agenda que reúne alguns dos grandes desafios contemporâneos: mudanças climáticas, inteligência artificial, bioética, desigualdades, acesso ao conhecimento e cooperação científica internacional. Denise assumirá uma área que passa a integrar as ciências naturais e as ciências humanas e sociais.

“Parabenizo a professora e desejo muito sucesso nesta nova missão. Sua nomeação para um cargo de tamanha relevância é motivo de reconhecimento para a UFRJ e para a ciência brasileira”, disse o reitor da UFRJ, Roberto Medronho.

Trajetória

A relação de Denise com a UFRJ começou nos anos 1980. Ela se formou em Medicina em 1987 e construiu a carreira científica no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF). Ali fez o mestrado em Ciências Biológicas, na área de Biofísica, concluído em 1989, e o doutorado em Ciências, em 1994. Depois vieram experiências internacionais: pós-doutorado no Hôpital de Bicêtre, na França, e na Universidade de Nápoles Federico II, na Itália.

De volta à UFRJ, consolidou-se como pesquisadora na área de fisiologia endócrina, especialmente nos estudos sobre a tireoide. Tornou-se professora titular do Instituto de Biofísica, pesquisadora 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Presidiu a Latin American Thyroid Society e participou de sociedades científicas, conselhos editoriais e projetos de cooperação internacional.

Ao mesmo tempo, passou a ocupar diferentes espaços de gestão na UFRJ. Coordenou a graduação e a pós-graduação do Instituto de Biofísica, passou pela Pró-Reitoria de Graduação, foi vice-diretora e diretora do instituto e integrou o Conselho Universitário.

Em 2019, Denise Pires de Carvalho tornou-se a primeira mulher a ocupar a Reitoria da UFRJ. O mandato (2019 a 2023) coincidiu com um período particularmente difícil para as universidades públicas. Aos sucessivos desafios orçamentários somou-se, a partir de 2020, a pandemia de Covid-19, que fechou salas de aula, mudou rotinas e exigiu da Universidade respostas rápidas nas áreas de ensino, pesquisa, assistência e saúde.

Novos caminhos

Em janeiro de 2023, antes do encerramento do mandato, Denise deixou a Reitoria para ocupar a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. A passagem pelo MEC abriu uma nova etapa de sua carreira, voltada à formulação de políticas nacionais para o ensino superior.

No início de 2024, assumiu a presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A gestão incorporou à política científica temas como equidade de gênero, inclusão e internacionalização. Entre as iniciativas estiveram a criação do Programa Aurora, destinado a apoiar pesquisadoras que se tornam mães durante a carreira acadêmica, e a institucionalização de um comitê permanente voltado às políticas de equidade de gênero.

Também foi realizado o primeiro Censo da Pós-Graduação Brasileira, criadas novas estruturas de informação científica e estudos avançados e desenvolvidas ações para ampliar o acesso aberto à produção científica brasileira.

Em entrevistas concedidas após o anúncio de sua escolha, Denise declarou que pretende levar para a Unesco a experiência brasileira de cooperação Sul-Sul, com foco na transferência de conhecimento para países com populações vulnerabilizadas. Entre as preocupações citadas pela cientista estão também os pequenos Estados insulares, ameaçados pela elevação do nível dos oceanos.

No domingo, 4/10, Denise Pires de Carvalho embarca para Paris, sede da Unesco, para iniciar a nova etapa de uma trajetória que começou quase quatro décadas atrás, na UFRJ.