O Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCOM-UFRJ) iniciou o segundo semestre de 2026 com uma aula inaugural dedicada às transformações do sistema midiático chinês e ao avanço das plataformas digitais. Na terça-feira, 11/08, o professor Jin Qian, da School of Journalism and Communication da Shanghai International Studies University (SISU), esteve na UFRJ para apresentar a palestra “Plataformizando a China: convergência profunda e a reorganização do sistema midiático” (Platformizing China: Deep Convergence and Rewiring of Media System).
O encontro reuniu pesquisadores do Programa e marcou mais uma etapa da aproximação acadêmica entre a UFRJ e instituições chinesas. A atividade contou com a participação do coordenador do PPGCOM-UFRJ, professor Leonardo De Marchi, e da doutoranda Lucia Novaes, que recentemente retornou de um período de doutorado sanduíche na Renmin University of China, em Pequim, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
A aula colocou em discussão um processo que vem alterando profundamente a comunicação e diferentes dimensões da vida social: a plataformização. A partir da experiência chinesa, Jin Qian apresentou a trajetória da internet no país, o desenvolvimento de grandes plataformas nacionais e os efeitos da digitalização sobre o trabalho, o consumo, os serviços e as relações sociais.

Da internet à “sociedade de plataformas”
Ao apresentar a evolução do sistema midiático chinês, Qian organizou sua análise em três momentos: a formação da internet no país, a transformação social promovida pela web e a chamada “virada das plataformas”.
“A construção da internet chinesa esteve ligada a fluxos internacionais de capital, conhecimento e infraestrutura tecnológica. A formação de estudantes chineses em universidades estrangeiras, os investimentos internacionais e a ampliação das conexões com outros países participaram desse processo”, explica o pesquisador.
A expansão ganhou força nos anos 2000, período marcado também pela maior inserção da China na economia mundial, pelo crescimento da indústria de mídia e por profundas transformações sociais e urbanas. O desenvolvimento da internet ocorreu, portanto, paralelamente a mudanças na organização da sociedade chinesa.
Esse processo resultou na formação de um ecossistema digital com características próprias. A saída do Google do mercado continental chinês, os debates sobre soberania de dados e o crescimento das empresas nacionais de tecnologia contribuíram para diferenciar o modelo chinês de outras experiências internacionais, explica Qian.
Um dos exemplos apresentados foi o Weibo. A plataforma, inicialmente associada a serviços semelhantes aos oferecidos por redes sociais ocidentais, passou a desempenhar um papel próprio na organização dos públicos digitais, na circulação de informações e no desenvolvimento de novas formas de mediação algorítmica.
O processo ganhou outra dimensão com o WeChat. Reunindo comunicação, pagamentos e uma série de serviços em uma única plataforma, o aplicativo passou a ocupar um espaço integrado à rotina dos usuários. Por isso, Qian utiliza a expressão “everything app” para caracterizar o serviço.
A mudança ajuda a explicar uma das principais ideias discutidas durante a aula: as plataformas deixaram de ser apenas ferramentas digitais e passaram a funcionar como infraestruturas sociais.
Na prática, isso significa que sua atuação ultrapassa a comunicação. As plataformas passam a mediar atividades relacionadas ao consumo, ao trabalho, à mobilidade, ao acesso a serviços e às relações entre indivíduos e instituições.
Entre plataformas, poder e os novos desafios do trabalho
Durante a palestra, Qian destacou que a eficiência e a integração proporcionadas pelas plataformas convivem com processos de concentração de dados, recursos tecnológicos e capacidade de intermediação. A mesma infraestrutura que pode facilitar serviços e reduzir burocracias também pode ampliar a concentração de poder em grandes ecossistemas digitais.
“A China contemporânea é uma ‘sociedade de plataformas’, marcada simultaneamente pelo potencial de eficiência das tecnologias digitais e pelos desafios decorrentes da concentração de poder e da formação de sistemas cada vez mais fechados”, salientou Qian.
Outro eixo da aula foi o avanço da inteligência artificial e da robotização. Para o pesquisador, a automação já não está restrita às atividades industriais e passa a alcançar também setores ligados às indústrias criativas e à produção de conteúdos.
A discussão desloca, assim, o foco da tecnologia em si para seus efeitos sociais. A questão passa a ser como a automação modifica as profissões, as competências exigidas e as formas de inserção no mercado de trabalho. Criatividade, empreendedorismo e capacidade de adaptação aparecem, nesse cenário, como competências cada vez mais relevantes diante de uma transformação tecnológica que alcança diferentes setores da economia.
Cooperação entre UFRJ e China
A presença de Jin Qian na UFRJ integra uma trajetória mais ampla de cooperação entre a Universidade e instituições chinesas. A parceria entre a UFRJ e a China vem sendo construída há anos e envolve diferentes áreas do conhecimento, com iniciativas voltadas à pesquisa, à inovação, à formação e ao intercâmbio acadêmico.
Um dos marcos recentes dessa aproximação ocorreu em novembro de 2024, quando a UFRJ e o governo chinês anunciaram a criação do Instituto China-Brasil de Engenheiros de Destaque, iniciativa voltada à formação e à produção de conhecimento de excelência na área de engenharia. Na mesma ocasião, foi inaugurado o Instituto Brasil-China de Inovação, Ciência e Tecnologia (BCCSTI).
A cooperação ganhou novos desdobramentos em 2026. Entre as iniciativas recentes, estão a inauguração do Centro de Livros da China, na Faculdade de Letras, novos acordos no Parque Tecnológico voltados aos setores de petróleo e energia e a realização de competições acadêmicas bilaterais de inovação.
A agenda de cooperação inclui ainda acordos e iniciativas com universidades chinesas, entre elas a Universidade do Petróleo da China e a Universidade Tsinghua. A construção dessa rede aproxima universidades, pesquisadores, empresas e instituições dos dois países.
No campo da comunicação, a aproximação com a Shanghai International Studies University amplia essa agenda para temas relacionados às Ciências Humanas e Sociais, à comunicação digital e às relações entre tecnologia e sociedade.
A discussão apresentada por Jin Qian permite observar como a transformação tecnológica chinesa ultrapassa o campo técnico e produz efeitos sobre a comunicação, as relações sociais, o trabalho e as indústrias criativas. A iniciativa também abre possibilidades para novas pesquisas comparativas, intercâmbios de pesquisadores e atividades acadêmicas conjuntas entre instituições brasileiras e chinesas, explica Leonardo De Marchi.
Pesquisa aproxima comunicação, tecnologia e sustentabilidade
A agenda de cooperação também dialoga com pesquisas desenvolvidas atualmente no PPGCOM-UFRJ. É o caso do trabalho da doutoranda Lucia Novaes, que acaba de retornar de um período de doutorado sanduíche na Renmin University of China, em Pequim.
Com apoio da Capes, a pesquisadora desenvolveu atividades acadêmicas na China relacionadas à comunicação, à sustentabilidade e aos debates sobre civilização ecológica. Sua pesquisa de doutorado investiga as relações entre comunicação, inteligência artificial verde, governança global e crises climáticas, com atenção especial à cooperação entre China e Brasil.
O trabalho busca compreender como tecnologias emergentes, narrativas e infraestruturas comunicacionais participam da construção de respostas aos desafios ambientais contemporâneos.
A experiência da pesquisadora acrescenta outra dimensão à cooperação acadêmica entre os dois países. Ao lado dos estudos sobre plataformas e inteligência artificial apresentados por Jin Qian, a pesquisa desenvolvida no PPGCOM-UFRJ evidencia como tecnologia, comunicação, sustentabilidade e governança global estão cada vez mais conectadas.
Novas possibilidades de intercâmbio
A aula inaugural reuniu, assim, diferentes frentes da cooperação acadêmica entre Brasil e China e reforçou a internacionalização do PPGCOM-UFRJ.
Para além da discussão sobre o desenvolvimento tecnológico chinês, o encontro colocou em pauta questões que atravessam diferentes sociedades: quem controla as infraestruturas digitais? Como a inteligência artificial transforma o trabalho? Quais são os impactos sociais e ambientais da expansão tecnológica?
“Ao trazer essas questões para a universidade pública brasileira, o PPGCOM-UFRJ amplia o diálogo com pesquisadores internacionais e fortalece novas possibilidades de pesquisa, intercâmbio e produção de conhecimento. A presença de Jin Qian na UFRJ representa, nesse sentido, mais um passo na construção de uma agenda acadêmica entre Brasil e China, aproximando comunicação, tecnologia, inovação e sustentabilidade e ampliando as possibilidades de cooperação científica entre os dois países”, concluiu Leonardo De Marchi.

