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Governo austríaco condecora ex-diretor do Museu Nacional

Alexander Kellner recebeu honraria pelo empenho na reconstrução da instituição e pela relevância na paleontologia

As atuações na paleontologia e na luta pela reconstrução do Museu Nacional (MN) levaram o governo da Áustria a conceder a Cruz de Honra Austríaca para Ciência e Arte ao cientista Alexander Kellner. A condecoração foi concedida por recomendação do governo federal austríaco em dezembro de 2025, mas a entrega ocorreu no fim de julho pelo embaixador austríaco Andreas Stadler em cerimônia no Jardim Botânico, na residência da ativista cultural Frances Reynolds

Criada em 1955, a Cruz de Honra reconhece tanto austríacos quanto personalidades estrangeiras que se destacam por serviços criativos e louváveis ​​de excelência nas áreas das ciências ou das artes. “Fiquei muito feliz em receber essa homenagem, pois é uma premiação bastante relevante do governo da Áustria, que somente me foi entregue em cerimônia muito bonita no dia 24 de julho deste ano, na casa da querida Frances Reynolds”, declarou Kellner, que convenceu a argentina apaixonada pelo país a se engajar na reconstrução da maior instituição dedicada à história natural e à antropologia na América Latina – o Museu Nacional. 

Alexander Kellner nasceu no principado de Liechtenstein e veio para o Brasil ainda criança. Filho de pai alemão e mãe austríaca, acabou se naturalizando brasileiro após a graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos anos 1980. “Fui um imigrante muito bem acolhido pelo povo brasileiro, ao qual sou muito grato. O meu principal sentimento foi de gratidão pelo reconhecimento que me foi dado pela Áustria. Além da questão do museu, foi fundamental para a premiação a minha ação como pesquisador que fez contribuições relevantes na questão da paleontologia. E sim, se minha mãe fosse viva, estaria muito orgulhosa”, enfatizou o ex-diretor do MN.

Para ele, também é de enorme relevância ter conseguido ingressar na Academia Brasileira de Ciências, ainda jovem, com 35 anos. Outro sonho conquistado, segundo Kellner, foi ter publicado, em 2002, um artigo na prestigiosa Science, ao lado de seu orientador de mestrado, Diógenes de Almeida Campos. “Também fiquei muito feliz em ter recebido a grã-cruz da classe de comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico [um dos principais prêmios científicos do Brasil], em 2010, por parte do governo brasileiro. Acredito que sou o único paleontólogo de vertebrados com essa honra”, afirmou com entusiasmo.

Apesar das diversas premiações e honrarias, Kellner costuma enfatizar para os alunos que o importante é trabalhar com aquilo que se gosta. “Se houver reconhecimento, ótimo, e não havendo, pelo menos do ponto de vista acadêmico, a pessoa terá tido uma vida completa da qual se pode orgulhar”, reconheceu o pesquisador, que enfrentou o desafio de permanecer à frente do MN por oito anos, quase todos após o incêndio que o atingiu.

Segundo ele, muitos planos foram totalmente destruídos com o incêndio. “Toda a minha organização e projetos para o museu foram cancelados, e o único mote que se tinha era o da sobrevivência. Publiquei, em dezembro de 2025, um livro disponível online, retratando minha gestão de 2018 a 2026. Fiz questão de publicá-lo ainda no fim do ano passado, para não influenciar de alguma forma a nova administração que se iniciou neste ano. Confesso que apenas agora eu estou passando pelo meu luto por tudo o que se perdeu no incêndio de 2 de setembro de 2018. Ainda vai demorar um pouco, mas eu me permito esse tempo. Por isso mesmo, estou voltando a me dedicar aos meus projetos de pesquisa com mais afinco. E espero em breve viajar para a Antártica”, contou.

No ponto de vista de Kellner, o bom relacionamento com instituições de diferentes países o ajudou a ser um diretor que acabou indo mais longe, resgatando, inclusive, peças importantes, como o manto Tupinambá, por exemplo. “Sempre podemos dizer que algo pode ter faltado. Mas as conquistas foram muitas e bem maiores do que qualquer um poderia ter imaginado. São conquistas diretamente vinculadas ao trabalho que eu procurei desempenhar para recompor as coleções da nossa instituição.” 

Para o futuro, além de uma expedição ao continente Antártico, Kellner planeja escrever um romance no qual pretende soltar a imaginação para contar um pouco do cotidiano no Museu Nacional da UFRJ. “Claro que muitas pessoas irão se reconhecer, tanto pelas coisas boas como também pelas coisas complexas que fizeram. Mas ninguém será diretamente afetado. Fico brincando e dizendo que vai faltar carapuça para tanta cabeça que vai aparecer. Revelo algo que eu vou colocar nesse livro: sexo. Não será um projeto fácil, mas certamente um que eu farei com misto de satisfação e dor. Pelo menos é mais efetivo e barato do que pagar um analista”, concluiu Kellner, em tom jocoso.