“Qual mulher negra que te inspira?” A pergunta, lançada este mês na internet pela Ouvidoria-Geral e pela Ouvidoria da Mulher da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ilustra uma das iniciativas institucionais de valorização das lutas, do protagonismo e da memória daquelas que são o motivo da celebração do Julho das Pretas. O marco, que remete ao Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela, comemorados em 25/7, foi criado em 2013 pelo Instituto Odara, em Salvador.
Nas respostas à postagem, inicialmente citada, estão intelectuais icônicas, como a antropóloga, professora e ativista negra Lélia Gonzalez, assim como nomes de gente comum, que viraram referência, por exemplo, no cotidiano familiar. Mas foi no dia a dia da Universidade que as equipes das respectivas ouvidorias escolheram o nome de quem, representativamente, levou o título de “Mulher Preta de Julho de 2026”, homenagem prestada na rede social dos referidos órgãos àquelas que, pela sua potência e resistência, têm tornado a Minerva mais diversa ao longo do tempo.
Reconhecimento de Minerva
Não faltaram motivos para que a técnica-administrativa em Educação (TAE) do Centro de Tecnologia (CT) da UFRJ, Josete Lima, fosse a homenageada no Julho das Pretas. A servidora, que é bacharel em Ciências Contábeis e pós-graduada em Recursos Humanos, trabalha na instituição há 40 anos. Durante esse período, já atuou na Prefeitura Universitária (PU), na Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), na Reitoria e no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF). Com toda esta trajetória, a ouvidora-geral da UFRJ, Katya Gualter, não teve dúvidas em afirmar:
“Josete Lima quebra o teto técnico-administrativo, colocando no centro dos diálogos e das ações o reconhecimento do trabalho invisível. Servidora de excelência, ela é uma mulher preta que sustenta a Universidade no seu cotidiano. Homenagear mulheres pretas icônicas é reafirmar, com muita força, que a UFRJ não existe só nas teses e nos palcos. Essas mulheres transformam a UFRJ de um lugar que estuda os múltiplos coletivos e organizações sociais para um lugar ocupado e construído por eles. A representatividade aqui não é símbolo. É corpo que garante à Universidade o funcionamento com qualidade, enquanto luta contra qualquer tipo de discriminação e preconceito, em prol de uma excelência acadêmica, dentro de horizontalidades políticas!”, enfatizou.

Conhecida como uma profissional agregadora, que reúne as mulheres negras para almoçar e conversar, Josete também convida pessoas para participarem da Semana de Consciência Negra na Universidade, projeto idealizado por ela em 2012. Além disso, este ano, ela foi uma das TAEs destacadas pela tese da doutora em Educação e pedagoga da UFRJ Mônica Gomes, intitulada “Tecituras de escrevivências: (in)visibilidades, intelectualidades e protagonismo de técnicas-administrativas negras da UFRJ”, que percorre trajetórias marcadas por resistência, construção coletiva e transformação institucional:
“Faço o meu trabalho com muito amor, por isso, a homenagem recebida neste mês tão representativo para as mulheres negras me deu uma grande emoção. É um título de que muito me orgulho! Toda a minha dedicação profissional foi muito valorizada quando fui uma das TAEs negras, que iniciaram uma mudança de cultura nesta instituição com relação à população negra. Com relação aos docentes, ainda é preciso maior representatividade; porém, mulheres negras como Cecília Isidoro e Maria Soledade são destaque. De maneira geral, hoje, a UFRJ está mais oxigenada após a criação das Comissões de Heteroidentificação, da Sgaada e outros movimentos de estudantes que defendem os direitos da população negra. Ter uma TAE como superintendente negra, que é o caso da Denise Góes, representa um grande ganho para nós, negras, desta instituição”, avalia Josete.
Ação cotidiana
Algumas das conquistas citadas por Josete Lima dizem respeito às ações contínuas desenvolvidas pela Superintendência-Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (Sgaada). Desde que foi aprovada, por unanimidade, na sessão especial do Conselho Universitário da UFRJ (Consuni) em 22/6/2023, o órgão atua, de maneira contínua, na liderança e na coordenação das iniciativas e das políticas voltadas para a promoção da igualdade, da inclusão e da acessibilidade em ações internas e extramuros da Universidade. Vinculada à Reitoria, na composição da Sgaada, há diretorias que tratam das questões de gênero, raça e acessibilidade em todos os meses do ano:
“A Sgaada é uma superintendência ocupada por duas mulheres negras e, por conseguinte, nossas celebrações estão dadas em todas as nossas ações e representações internas e externas, durante todo o ano. Agora, por exemplo, estou na Colômbia representando a UFRJ no projeto de implementação da Lei 19.639/03, no município de Paracambi. Posteriormente, estaremos no Congresso de Pesquisadores Negros. Nossa atuação é criar e participar de ações concretas, que nos levem às transformações necessárias para um mundo com mais igualdade e equidade. Ocupamos espaços, formulamos, projetamos e pensamos no “ano” das pretas. É uma militância ininterrupta. Impusemos organizadamente, através do movimento negro, que nossa ação é cotidiana. O propósito do 25 de julho está vivo em nós!”, reforça a superintendente da Sgaada, Denise Góes.

De acordo com Gualter, o Julho das Pretas é o ponto alto do simbolismo do 25/7 no Brasil. Este ano, com o tema “Seguimos em marcha por reparação e bem viver”, a 14ª edição do movimento traz uma agenda com atividades variadas, distribuídas ao longo do país. Trata-se de uma ação coletiva de mobilização em prol da valorização de trajetórias femininas negras, do combate ao racismo e ao sexismo, da construção de espaços mais justos e inclusivos e da ampliação de vozes e representações.
Acolhimento, informação e prevenção
Em consonância com estes propósitos e apoiada pela Ouvidoria-Geral, a Ouvidoria da Mulher da UFRJ traz sua contribuição ao corpo social feminino da Universidade, em especial para as mulheres negras, para o enfrentamento e a prevenção de todas as formas de violência, preconceito e discriminação:
“Em seu interior, a Universidade é acometida pelos mesmos problemas, que afetam as mulheres na sociedade geral. Encontramos aqui também todos os tipos de violência, notadamente as que atingem aquelas que estão em condições de maior vulnerabilidade, tanto social quanto econômica. Nesse sentido, as políticas públicas de educação são fundamentais, pois vão abrir espaços para uma formação de qualidade para que as mulheres negras possam alcançar postos de trabalho e condições de vida mais dignas. O papel da Ouvidoria da Mulher na UFRJ é abrir espaços formativos, no sentido de informar também, e espaços de prevenção. É apresentar para as mulheres da Universidade, em especial às mulheres negras, um espaço de acolhimento, de escuta qualificada, de proteção e de enfrentamento às violências, que sabemos atingir muito mais este público”, afirma a ouvidora da Mulher da UFRJ, Angela Brêtas.

Os frutos da resistência
A vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci, também reafirma que o compromisso de Minerva com o simbolismo do Julho das Pretas perdura nas relações diárias, que tecem o legado das mulheres negras na instituição, e no dever institucional de estar na linha de frente no combate ao racismo e ao sexismo:
“O Julho das Pretas não é apenas uma data no calendário: é um chamado constante à ação e à memória. Celebrar o protagonismo da mulher negra dentro da UFRJ significa reconhecer a força das mães, das servidoras, das pesquisadoras, das estudantes e das terceirizadas, que constroem a história desta Universidade diariamente. O combate ao racismo e ao machismo é uma luta diária, mas este mês nos lembra da potência e do impacto que as mulheres negras têm na transformação da sociedade. Ver mulheres negras produzindo conhecimento em todas as áreas, liderando projetos e ocupando a Universidade é a prova viva de que a resistência gera frutos. Fazer do 25 de julho um marco de conscientização na UFRJ é fundamental para que o conhecimento produzido aqui sirva como ferramenta real na construção de uma sociedade equânime, onde o protagonismo negro seja reconhecido e valorizado em todos os setores!”.
