Muito antes de ocupar a frequência 88,9 FM, a Rádio UFRJ já existia. Não tinha concessão, nem grande alcance, mas reunia estudantes interessados em experimentar novas formas de comunicação. Em 1985, no campus da Praia Vermelha, nasceu a Rádio Interferência, uma rádio livre criada por alunos da Escola de Comunicação (ECO) e de outros cursos, no ambiente político do DCE Mário Prata e no auge do movimento das rádios livres.
Quase quatro décadas depois, aquela experiência ganhou outro alcance. Nesta sexta-feira (3/7), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) inauguraram as transmissões experimentais da Rádio UFRJ FM 88,9. A emissora passa a integrar a Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP) e receberá, nesta fase inicial, quatro horas diárias de programação da Rádio MEC AM.
A cerimônia, transmitida ao vivo pela própria Rádio UFRJ FM, pela Rádio MEC AM e pelos canais da UFRJ e da EBC no YouTube, foi realizada no Salão Nobre do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e reuniu representantes da universidade, da EBC e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Também teve música, com apresentação do sambista Pedro Miranda, e terminou com o descerramento da placa alusiva ao início das transmissões experimentais.
No centro da cerimônia estava a história da própria rádio. O diretor da Rádio UFRJ, Marcelo Kischinhevsky, lembrou que o projeto atravessou gerações. “Essa rádio é fruto de uma luta de muitas décadas”, afirmou. Segundo ele, o sonho chegou a caber “numa caixa de sapatos”, referência ao pequeno transmissor de 20 watts usado nos primeiros tempos da rádio livre. Hoje, a Rádio UFRJ FM entra no ar com potência de 20 quilowatts.
Marcelo destacou que a chegada ao FM concretiza uma demanda antiga: a de que a maior universidade federal do país tivesse uma emissora educativa no Rio de Janeiro. “Foi uma luta longa. A gente não esmoreceu, perseverou e sabia que esse momento ia chegar”, observou. Ele reforçou que a proposta é fazer da Rádio UFRJ um espaço de divulgação científica, cultura, prestação de serviço e diálogo com a sociedade, voltado principalmente ao público jovem.
A missão da emissora também foi destacada pelo reitor da UFRJ, Roberto Medronho. Segundo ele, a rádio nasce em um momento em que universidades públicas precisam ampliar sua capacidade de dialogar com a sociedade. “A universidade não pode ser uma torre de marfim voltada para si mesma. A universidade tem que estar junto com o povo, com o dia a dia da população”, disse.
Medronho defendeu uma rádio aberta à sociedade, capaz de ouvir críticas, acolher dúvidas e dialogar com diferentes públicos. “Nós precisamos ter uma rádio que resgate o ambiente da diversidade, das diferentes opiniões. Precisamos dar vozes às diferentes manifestações culturais, às diferentes visões de mundo”, afirmou. Para o reitor, a nova FM não deve “fazer mais do mesmo”, mas buscar uma linguagem capaz de chegar “ao coração e às mentes” das pessoas.
A proposta da Rádio UFRJ FM combina produção universitária, programação musical e parceria institucional. A emissora já vinha funcionando pela internet e reúne hoje mais de 60 programas hospedados em seu site. São conteúdos produzidos por diferentes áreas da UFRJ, como Comunicação, Medicina, Filosofia, Direito, Serviço Social e Escola de Música, além de parcerias externas. A seleção de programas continuará sendo feita por chamadas públicas, abertas à comunidade acadêmica e a colaboradores de fora da universidade.
A programação musical foi pensada especialmente para o público jovem e adulto jovem. A ideia é reunir MPB, rock, hip hop, samba, jazz, música instrumental, afrobeat e produção independente, sem separar os gêneros em blocos rígidos. “A gente não quer colocar a música dentro de caixinhas. Quer estabelecer pontes entre diferentes públicos”, resumiu Marcelo.
A parceria com a EBC é parte central dessa nova fase. Diretor-geral da empresa, Thiago Regotto afirmou que a inauguração marca “a realização de um sonho construído ao longo de muitos anos, por muitas mãos”. Ele lembrou que a Rádio MEC AM, cuja programação será retransmitida pela Rádio UFRJ FM nesta etapa inicial, é herdeira da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, pioneira da radiodifusão educativa no Brasil.
Para Regotto, há um simbolismo no local da cerimônia. Foi no entorno do atual Fórum de Ciência e Cultura, durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência, em 1922, que o rádio foi apresentado oficialmente aos brasileiros. “Mais de um século depois, neste mesmo lugar, nasce uma nova emissora”, lembrou. “A partir de hoje, a maior universidade federal do país passa a contar definitivamente com a sua rádio em FM”, disse.

O conselheiro da Anatel Octávio Pieranti, ex-aluno da ECO/UFRJ, lembrou que a trajetória da Rádio UFRJ foi marcada por esperas, obstáculos e persistência. Segundo ele, o projeto aguardou 37 anos para sair do papel. Pieranti ressaltou que a Rádio UFRJ FM nasce em um momento de expansão da comunicação pública no país. Segundo estimativas da Anatel, a cobertura da nova emissora poderá chegar a 10 milhões de pessoas na capital e na região metropolitana. “Façam da Rádio UFRJ uma emissora à altura da maior universidade federal do país”, conclamou.
Vinculada ao Fórum de Ciência e Cultura, a rádio também nasce com a missão de aproximar o conhecimento produzido na universidade da vida cotidiana. A coordenadora do Fórum, Christine Ruta, afirmou que a emissora permitirá que ciência e cultura cheguem mais longe, com linguagem acessível e proximidade com a população.
Christine lembrou que o rádio entra na casa, no carro, no trabalho e no celular, acompanhando a rotina das pessoas. Para ela, uma rádio universitária pode transformar dúvidas comuns em conhecimento. “A ciência não está distante. Ela está na água, no alimento, na saúde, no clima, na cidade, no mar, nos bichos e na cozinha do dia a dia”, afirmou.
Desenvolvida pelo Núcleo de Rádio e TV (NRTV), vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura, a Rádio UFRJ FM chega ao dial como resultado de uma história coletiva. Da Rádio Interferência à frequência 88,9, mudou a escala, mudou a potência e mudou o alcance. Mas permaneceu a ideia que moveu os primeiros estudantes: fazer da comunicação um espaço de formação, experimentação e presença pública da universidade.
