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Meio Ambiente

Arte para salvar os recifes de coral

A crise dos recifes exige ações coletivas de políticas públicas e engajamento de todos

Adotar a arte, em diversas manifestações, a fim de chamar a atenção das pessoas para questões de preservação do meio ambiente é a ideia de um grupo de cientistas e artistas de diversas nações que se uniram em torno do consórcio Coral Art Science Consortium com o objetivo de proteger os recifes de coral por meio da narrativa, da colaboração e da conscientização ambiental. A iniciativa ganhou destaque na capa da revista Science Advances, no início de julho, com o artigo “Communicating Coral: art and science for global reef action”. Entre os coautores do texto está um único brasileiro, o professor Fabiano Thompson, do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IB/UFRJ).

De acordo com o artigo, diversos projetos semelhantes obtiveram sucesso porque se conectaram com o público ao mesmo tempo que ligavam crises distantes ou abstratas a experiências imediatas e tangíveis. Para exemplificar, os autores citam a Ice Watch, iniciativa do artista islandês-dinamarquês Olafur Eliasson, em parceria com o geólogo Minik Rosing. Os dois usaram enormes blocos de gelo glacial resgatados do oceano após se desprenderam de geleiras, instalando-os e exibindo-os em cidades europeias. Em Londres, os visitantes podiam interagir com esses blocos, tocando e andando neles, à medida que derretiam em tempo real, como demonstração das mudanças climáticas.

Assim como o gelo, o artigo defende que os recifes de coral também atuam como sentinelas, alertando sobre as mudanças planetárias e revelando as consequências do aquecimento global antes que elas se manifestem completamente. Hoje, os recifes estão entre os ecossistemas mais ameaçados da Terra devido não só às alterações do clima, mas a outros fatores, como a sobrepesca, a poluição e o desenvolvimento costeiro. “Este trabalho e a formação deste consórcio internacional permitem agora que ações locais sejam planejadas e executadas”, afirmou Thompson.

Os eventos de branqueamento em massa de corais, que antes eram raros, atualmente ocorrem com frequência e em escala global. Isso deixa os ecossistemas degradados incapazes de se recuperar. Embora seja necessária uma ação coletiva marcada por políticas públicas e engajamento público para enfrentar a crise dos recifes, o grupo do consórcio enxerga que instalações de arte inspiradas em corais, que combinem dados científicos, design interativo e chamadas claras à ação, podem ampliar a compreensão pública sobre o tema e estimular o apoio das pessoas. 

A conservação dos recifes pode se beneficiar de movimentos populares, iniciativas lideradas por cidadãos e plataformas digitais que mobilizem a ação coletiva em escalas significativas. De acordo com o texto, é necessário também que as iniciativas evitem reproduzir abordagens impostas de cima para baixo e envolvam vozes locais ao consultar as comunidades afetadas, criando mecanismos de diálogo e retorno, o que assegura a equidade e legitimidade das ações.

O Coral Art Science Consortium representa o primeiro passo para um movimento global que pode assumir diversas formas, como eventos sincronizados, festivais com temática de corais, exposições virtuais e projetos participativos. Para o cientista do IB, a arte é muito poderosa para sensibilizar e mobilizar a ação coletiva ao redor da temática da saúde dos corais e do oceano. Ele acredita que, por exemplo, o Rio de Janeiro tem vocação para esse tipo de iniciativa artística, científica e cultural. “O nosso exemplo mais icônico é o Carnaval. No Rio, as festividades ocorrem trazendo à tona a história, o debate político e a irreverência”, lembrou Thompson.

Os recifes de coral fornecem segurança alimentar, proteção costeira, identidade cultural e meios de subsistência a centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Os esforços de conservação e restauração são prioridade máxima, e exigem soluções multifacetadas, destaca o artigo. A conclusão é de que a ciência fornece dados e estratégias para a conservação e a restauração, enquanto a arte e o design criam a narrativa que transcende jargões e a política, alcançando tanto os corações quanto as mentes, ao tornar visível e acessível o mundo subaquático.