Até que ponto um ecossistema consegue resistir às mudanças climáticas antes de perder sua capacidade de prover serviços e se recuperar? Em que momento sistemas produtivos ou ecossistemas como uma lagoa costeira, os campos úmidos da Sibéria ou uma região do Cerrado ultrapassam um limite crítico e passam a sofrer danos irreversíveis?
Responder a essas perguntas está no centro de duas propostas aprovadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no âmbito do Programa BRICS Network University (BRICS-NU), que reúne universidades dos países integrantes do bloco em torno de desafios estratégicos para o desenvolvimento científico e tecnológico.
No eixo de Ecologia e Mudanças Climáticas, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) assumirá papel de destaque por meio da atuação dos professores Francisco Esteves e Rodrigo Lemes Martins, ambos do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (Nupem), localizado em Macaé, e vinculado ao Centro de Ciência da Saúde (CCS). Os pesquisadores lideram a participação da universidade em duas redes internacionais que conectam instituições do Brasil, Rússia, Índia e China para estudar os impactos das mudanças climáticas sobre ecossistemas considerados particularmente vulneráveis.
Os projetos terão duração de quatro anos e envolvem pesquisadores de diferentes unidades da UFRJ, da Universidade Federal de Goiás (UFG), além de instituições parceiras nos demais países do BRICS.

Os limites da resiliência
Coordenado pelo professor emérito Francisco Esteves, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC), o projeto Conhecimento em Resiliência para Ecossistemas Sensíveis sob Mudanças Climáticas busca identificar os chamados “limiares ecológicos” — pontos a partir dos quais um ecossistema perde sua capacidade de manter funções essenciais, como a regulação do clima, a produção de água e a conservação da biodiversidade.
A pesquisa reúne especialistas da UFRJ, da UFG, em grupo coordenado pelo professor Fausto Nomura, da Universidade Estatal de Tomsk, na Sibéria, e da TERI School of Advanced Studies, em Nova Déli, na Índia. Juntos, eles irão comparar ecossistemas muito diferentes entre si, mas que compartilham uma característica comum: a elevada vulnerabilidade às mudanças ambientais.
Entre os ambientes estudados estão lagoas costeiras e áreas úmidas brasileiras, regiões de Cerrado, ambientes marinhos sujeitos ao aumento da temperatura dos oceanos, além das turfeiras e áreas alagadas da Sibéria, importantes reservatórios globais de carbono.
A proposta prevê o desenvolvimento de modelos capazes de antecipar riscos de colapso ecológico e identificar sinais precoces de degradação ambiental. A expectativa é produzir ferramentas que auxiliem gestores públicos e pesquisadores na tomada de decisões voltadas à conservação da biodiversidade e à adaptação às mudanças climáticas.
Da biodiversidade aos serviços ecossistêmicos
Se o projeto coordenado por Francisco Esteves busca compreender os limites de resiliência dos ecossistemas, a segunda proposta aprovada amplia o foco para os serviços ambientais prestados pela natureza à sociedade. A iniciativa tem coordenação do professor Paulo De Marco, da UFG, e co-liderança do professor Rodrigo Lemes Martins, da UFRJ.
O projeto investigará, por exemplo, como a perda de biodiversidade pode comprometer a segurança hídrica, o armazenamento de carbono, a polinização, a fertilidade dos solos e a regulação climática. Esses serviços desempenham papel central na qualidade de vida das populações e na capacidade de adaptação das sociedades às transformações ambientais.
A iniciativa reúne pesquisadores brasileiros, chineses e russos em torno de estudos sobre biodiversidade, monitoramento ambiental e respostas dos ecossistemas às mudanças climáticas. O projeto conta com a participação da South East University, da China, e da Universidade Estatal de Moscou, na Rússia.

Modelagem ecológica e monitoramento ambiental
As propostas ampliam a cooperação científica internacional em áreas como modelagem ecológica, monitoramento de ambientes naturais e avaliação dos impactos das transformações climáticas sobre espécies, paisagens e serviços ecossistêmicos.
Segundo os coordenadores, as duas iniciativas foram concebidas de forma complementar. Enquanto um projeto busca compreender os mecanismos que determinam a resiliência dos ecossistemas, o outro amplia a capacidade de monitorar e analisar como as transformações afetam os serviços ambientais em diferentes escalas geográficas, produzindo informações que poderão subsidiar políticas públicas de conservação e adaptação climática.
“O edital representa uma iniciativa fundamental para o fomento de uma ciência que contemple distintas perspectivas e cosmovisões sobre a natureza e sua organização, especialmente em países detentores de sistemas pouco conhecidos e megadiversos”, diz Rodrigo Lemes Martins. “Tais nações, notadamente mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, abrigam ecossistemas sensíveis que, embora fundamentais para o equilíbrio global, ainda são insuficientemente estudados e compreendidos”, afirma o professor.
Além da produção científica, os projetos terão impacto direto na formação de estudantes e jovens pesquisadores. Ao longo dos quatro anos de execução, serão oferecidas bolsas internacionais para estudantes de doutorado e pesquisadores em estágio pós-doutoral desenvolverem pesquisas em universidades parceiras da China, Rússia e Índia, fortalecendo a internacionalização da pós-graduação da UFRJ.
Estão previstas ainda missões científicas, seminários internacionais, intercâmbio de pesquisadores e produção conjunta de artigos científicos.
Para a UFRJ, a participação no BRICS-NU representa não apenas a ampliação da cooperação internacional, mas também a oportunidade de contribuir para a construção de soluções científicas voltadas a um dos maiores desafios contemporâneos: compreender como proteger os ecossistemas dos quais depende a vida humana em um planeta em rápida transformação.
Integração de pesquisadores
A elaboração das propostas mobilizou pesquisadores de diferentes unidades acadêmicas da universidade. Ao todo, cerca de 13 docentes da UFRJ e 12 da UFG participam dos projetos, envolvendo pesquisadores da sede e das unidades fora da sede.
A articulação contou com o apoio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2), por meio da professora Fernanda Mello, buscando garantir a participação de pesquisadores que atuam em diferentes áreas relacionadas às mudanças climáticas e à conservação ambiental.
O esforço resultou na integração de quatro centros da UFRJ, aproximadamente cinco programas de pós-graduação da Universidade e quatro da UFG, fortalecendo a abordagem interdisciplinar necessária para enfrentar problemas ambientais complexos.
Criada pelos países do BRICS, a BRICS Network University (BRICS-NU) é uma rede internacional de cooperação acadêmica que reúne universidades dos países integrantes do bloco para desenvolver pesquisas, formação de recursos humanos e intercâmbio científico em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável.
A iniciativa busca fortalecer a colaboração entre instituições de diferentes regiões do mundo, ampliando a cooperação científica entre países do Sul Global e promovendo a produção de conhecimento em temas como mudanças climáticas, saúde, energia, segurança alimentar, ciência da computação, ciências naturais e ciências sociais.

