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Museu Nacional celebra 208 anos com exposições que unem ciência, arte e reconstrução

Mostras inauguradas no Paço de São Cristóvão revelam os bastidores da produção científica da instituição e transformam vestígios do incêndio de 2018 em reflexão sobre memória e futuro

As marcas do incêndio de 2018 continuam presentes em algumas paredes do Palácio de São Cristóvão. Mas, na quinta-feira (18/6), elas dividiram espaço com algo igualmente visível: a capacidade de reconstrução do Museu Nacional. Um dos retratos mais eloquentes desse processo está nas duas exposições inauguradas pela instituição como parte das celebrações de seus 208 anos.

Instaladas em seis galerias do edifício histórico, Bastidores da Ciência e Rescaldo das Memórias oferecem ao público uma experiência singular. De um lado, revelam o trabalho cotidiano de pesquisadores, técnicos e restauradores que mantêm viva a produção científica do museu. De outro, transformam cinzas, fragmentos e vestígios do incêndio em arte, memória e reflexão.

A cerimônia de inauguração das duas mostras reuniu representantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Unesco, do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Instituto Cultural Vale, do Projeto Museu Nacional Vive, além de pesquisadores, artistas, técnicos e autoridades que acompanham a reconstrução da mais antiga instituição científica do Brasil.

Em seu discurso, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, destacou que as duas exposições traduzem o espírito da reconstrução em curso. “Juntas, elas afirmam que o Museu Nacional vive. E ele vive em seus pesquisadores, seus técnicos, seus professores, estudantes e trabalhadores. Vive em suas coleções resgatadas e reconstruídas, vive nas instituições e nas pessoas que se uniram em torno de sua recuperação e vive, sobretudo, na relação de afeto e pertencimento com a sociedade brasileira”, afirmou. 

Para Medronho, a reconstrução do Museu Nacional ultrapassou os limites da universidade e se transformou em uma causa nacional. “A reconstrução do Museu Nacional é responsabilidade da UFRJ, mas também é um compromisso do Estado e uma causa nacional. A dimensão desse trabalho demonstra que grandes patrimônios públicos somente podem ser preservados pela cooperação, pela continuidade das políticas públicas e pela compreensão de que investir em ciência, cultura, educação e memória é investir no futuro do país”, observou.

O reitor agradeceu também o empenho das instituições parceiras envolvidas no processo de recuperação do palácio. Lembrou ainda que “o Museu Nacional é patrimônio da UFRJ, mas pertence verdadeiramente a todo o povo brasileiro, que o reconhece como parte de sua história, de sua ciência e de sua memória”.

O que acontece quando o museu fecha as portas?

A exposição Bastidores da Ciência responde justamente a essa pergunta. Desenvolvida pelas equipes do Museu Nacional e do Projeto Museu Nacional Vive, a mostra revela atividades que normalmente permanecem invisíveis para os visitantes. São laboratórios, oficinas e técnicas que permitem conservar, restaurar, estudar e interpretar os acervos científicos da instituição.

Da paleoarte à taxidermia, da modelagem digital à restauração de peças arqueológicas, passando pela ilustração científica e pela conservação de coleções, a exposição apresenta o trabalho de profissionais que fazem a ciência acontecer diariamente.

Um dos destaques é o conjunto de instrumentos musicais construídos pelo luthier Davi Lopes a partir de madeiras resgatadas dos escombros do incêndio. “Hoje abrimos mais uma vez as portas do Palácio de São Cristóvão para o seu verdadeiro dono, o público”, afirmou o diretor do Museu Nacional, Ronaldo Fernandes.

Segundo ele, a exposição é também uma homenagem às equipes que mantiveram a instituição funcionando nos anos mais difíceis de sua história recente. “Em Bastidores da Ciência, exploramos o fascinante processo da formação de nossos acervos científicos e expositivos. A exposição não poderia ter sido feita sem a dedicação e o esforço das equipes do Museu Nacional”, disse. 

Ronaldo destacou ainda que a retomada gradual das atividades públicas demonstra que o museu avança de forma consistente em seu processo de reconstrução. “O caminho é longo e complexo, mas tenho a convicção de que estamos no rumo certo. Em poucos anos poderemos devolver esta casa de forma permanente à sociedade.”

O luthier Davi Lopes, responsável por instrumentos produzidos com madeiras recuperadas do incêndio, o artista Vik Muniz e o reitor Roberto Medronho visitaram as exposições no Museu Nacional. Foto: Divulgação

Quando a arte encontra as cinzas

Se Bastidores da Ciência ilumina o cotidiano da pesquisa, Rescaldo das Memórias convida o visitante a refletir sobre perda, permanência e reconstrução. Instalada justamente na sala onde o incêndio teve início, a exposição reúne fotografias e esculturas produzidas pelo artista plástico Vik Muniz a partir de cinzas e fragmentos resgatados dos escombros.

As obras ocupam um espaço onde ainda é possível observar vigas de aço retorcidas pelo fogo. O contraste entre destruição e criação ajuda a construir uma narrativa poderosa sobre memória e resiliência.

Emocionado, Vik Muniz lembrou que estava na Holanda quando soube do incêndio.“Quando fiquei sabendo do incêndio, a primeira coisa que veio à minha cabeça foi: quando eu vou poder voltar aqui?”, relatou o artista, durante seu discurso na cerimônia de inauguração. 

Ele contou que as obras nasceram inicialmente como uma forma de elaborar pessoalmente a tragédia. “Estou voltando aqui com obras que são minhas, mas que falam sobre as coisas que eu não posso mais ver. Mas falam também sobre coisas que talvez possam ser vistas no futuro”, explicou.

Para Vik, a exposição encerra simbolicamente um ciclo iniciado em 2018. “Esse círculo que se fecha hoje responde àquela pergunta que me fiz quando vi o museu em chamas. Estou muito emocionado e muito feliz de poder voltar a este lugar dessa forma”, disse.

Uma reconstrução coletiva

A gerente executiva do Projeto Museu Nacional Vive, Lúcia Bastos, ressaltou que cada etapa da reconstrução vai muito além da obra física. “Estamos falando da recuperação de um patrimônio que faz parte da história do Brasil, da memória de gerações e de mais de dois séculos de produção científica”, observou.

Representando a Unesco, Mariana Salvadori destacou que as exposições simbolizam a capacidade do conhecimento e da cultura de resistir às adversidades.

Já a diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale, Mariana Luz, afirmou que a reconstrução do museu demonstra a força da união entre poder público, iniciativa privada, comunidade científica e sociedade civil.

Representando o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, a diretora de Pessoas, Tecnologia da Informação e Operações do banco, Helena Tenório, lembrou que o banco já destinou R$ 100 milhões ao Museu Nacional. É o maior apoio individual concedido pela instituição a um projeto de restauração patrimonial.

Também participaram da solenidade o luthier Davi Lopes, responsável por instrumentos produzidos com madeiras recuperadas do incêndio, representantes do corpo diplomático, pesquisadores, técnicos e profissionais envolvidos na reconstrução do palácio.

Festa continua no domingo

As comemorações pelos 208 anos do Museu Nacional prosseguem neste domingo (21/6), na Quinta da Boa Vista. Além das exposições Bastidores da Ciência e Rescaldo das Memórias, o público poderá participar de mais de 40 atividades gratuitas, incluindo oficinas, apresentações culturais, exibição de documentários, visitas educativas, mostra de acervos científicos, feira gastronômica e atrações musicais.

Sob o tema “Ciência, Cultura e Memória”, a programação celebra não apenas a trajetória de uma instituição bicentenária, mas também sua capacidade de se reinventar.

Serviço

Exposições: Bastidores da Ciência e Rescaldo das Memórias
Local: Paço de São Cristóvão – Museu Nacional/UFRJ, Quinta da Boa Vista

Visitação gratuita
Domingo, 21 de junho de 2026

Horário das exposições:
Das 9h às 16h (entrada livre, sujeita à lotação)

Além das exposições, o público poderá participar de uma programação especial pelos 208 anos do Museu Nacional, com mais de 40 atividades gratuitas no entorno do palácio, das 10h às 18h, incluindo mostra de acervos científicos, atividades educativas, visitas guiadas, contação de histórias, apresentações culturais, feira gastronômica e exibição de documentários.

Destaques das exposições

  • Bastidores da Ciência – apresenta técnicas, processos e práticas que fazem parte do cotidiano do Museu Nacional, como restauração, paleoarte, modelagem digital, taxidermia e conservação de acervos.
  • Rescaldo das Memórias – mostra do artista Vik Muniz composta por fotografias e esculturas produzidas a partir de cinzas e fragmentos resgatados do incêndio de 2018, propondo reflexões sobre memória, perda e reconstrução.

Entrada gratuita. Sujeita à capacidade de público.