Pesquisa desenvolvida por Alaine Victorino, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Nutrição (PPGN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conquistou o primeiro lugar na categoria de melhor pôster eletrônico no XXV Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Formada em Nutrição e mestre em Segurança Alimentar pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Alaine participa, há um ano e meio, do projeto “Obesidade e cirurgia bariátrica: um estudo das relações da genômica nutricional, sistema endocanabinoide, saúde mental e perfis metabólicos e hormonais”, do qual o trabalho premiado faz parte.
O objetivo central do projeto, idealizado antes da pandemia pela professora doutora Eliane Rosado, coordenadora da iniciativa e referência na área de Nutrição, é compreender a obesidade de forma clínica, investigando fatores metabólicos, genéticos, hormonais e psicológicos associados à doença. Apesar de o consumo energético superior ao gasto ser a base do ganho de massa corporal, a pesquisa parte do entendimento de que a obesidade é uma doença multifatorial, complexa e de alta prevalência mundial.
O estudo é voltado exclusivamente para mulheres com obesidade grau 3, nível mais alto da doença, atendidas pelo Programa de Cirurgia Bariátrica (Prociba) do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ. Embora o programa também acompanhe homens, a escolha metodológica do projeto por estudar apenas mulheres permite maior controle das variáveis e maior precisão dos resultados, uma vez que fatores metabólicos e ciclos hormonais diferem entre os gêneros.
Além de exames laboratoriais, análise de parâmetros como perfil lipídico, glicose, insulina, Índice de Massa Corporal (IMC) e percentual de gordura, o estudo se destaca pelo uso da nutrição de precisão, técnica que consiste em avaliar componentes genéticos, como a microbiota intestinal e os polimorfismos. Ao avaliar esses parâmetros, a pesquisa leva em consideração as particularidades biológicas de cada pessoa. A microbiota intestinal se refere aos microrganismos presentes no trato gastrointestinal humano que desempenham funções importantes, como a regulação do metabolismo e da inflamação. Já os polimorfismos genéticos são variações no DNA que modificam a expressão de um gene ou a estrutura de uma proteína.
A pesquisa identificou que mulheres com polimorfismo no gene Adipoq apresentavam pior perfil glicêmico, com níveis mais elevados de glicose e insulina, além de maior massa corporal. A obesidade está associada a um estado inflamatório crônico de baixo grau, e esse gene é responsável por codificar a adiponectina, proteína que melhora a sensibilidade à insulina e exerce ação anti-inflamatória. O polimorfismo indica que essa proteína pode estar funcionando de forma mais lenta ou inadequada, o que ajuda a explicar por que mulheres com perfis metabólicos e antropométricos semelhantes, como peso, altura e circunferências corporais, não respondem da mesma maneira ao tratamento clínico.
O perfil das mulheres recebidas no HUCFF
As mulheres atendidas pelo programa têm, em média, 50 anos. Mais da metade (51,56%) está na menopausa e a escolaridade predominante entre o grupo é o ensino médio completo. Em termos socioeconômicos, a maioria delas têm baixa renda, com rendimento mensal de até dois mil reais. São pacientes que convivem com a obesidade há décadas e que, antes de chegar à cirurgia bariátrica, passaram por diversas tentativas de tratamento, incluindo dietas restritivas e outras estratégias. Ao longo desse percurso, muitas desenvolveram comorbidades associadas à obesidade, como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares e infertilidade.
Alaine também chama atenção para os fatores sociais ligados à obesidade, como a realidade da insegurança alimentar e nutricional. Essa condição não se limita à falta de alimentos, mas envolve, sobretudo, a qualidade do que é consumido. A obesidade está associada à insegurança alimentar porque muitas pessoas têm acesso, predominantemente, a alimentos ultraprocessados, mais baratos e de alta densidade calórica, porém pobres em nutrientes, como macarrão instantâneo, biscoitos e outros produtos industrializados. A menor ingestão de vitaminas, minerais e proteínas está relacionada à falta de escolha alimentar, fator que contribui para o ganho de peso.
“Obesidade não escolhe classe social, ela está presente em todas. Mas imagine o quanto isso é agravado em uma população vulnerabilizada, que é o perfil das mulheres que atendemos no hospital. Não podemos tratar a obesidade com estigma. Não se trata apenas de ‘fechar a boca’, como muitos dizem. É lutar contra o metabolismo e contra uma vulnerabilidade social. É uma condição complexa, que vai além da fisiologia e envolve o ambiente, a renda, a escolaridade e a saúde mental”, afirma Alaine.
Diante dessa complexidade, a pesquisa adota uma abordagem multidisciplinar, envolvendo nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, cardiologistas e educadores físicos. As pacientes são acompanhadas antes da cirurgia bariátrica, seis meses e um ano após o procedimento. Durante esse período, recebem devolutivas dos exames realizados, como análises de sangue, bioimpedância, percentual de gordura e massa muscular, além de acompanhamento clínico e orientações de saúde, através da equipe do Prociba.
Sistema endocanabinoide e seus impactos
O estudo também investiga o papel do sistema endocanabinoide, um conjunto fisiológico responsável por regular a fome, a saciedade, a cognição, a concentração, a microbiota intestinal e outros processos do organismo. Embora seja mais conhecido por sua relação com a cannabis, o corpo humano produz seus próprios endocanabinoides, substâncias semelhantes ao canabidiol, que se ligam aos mesmos receptores do tetrahidrocanabinol (THC) e do canabidiol (CBD) de origem vegetal.
Em indivíduos saudáveis, esse sistema atua em equilíbrio; em pessoas com obesidade, no entanto, tende a estar superativado, o que reduz a sensação de saciedade e aumenta o estímulo à ingestão alimentar. Por isso, a pesquisa de doutorado de Alaine Victorino analisa o impacto do consumo de lipídios sobre o sistema endocanabinoide, a microbiota intestinal e os polimorfismos genéticos em mulheres com obesidade grave. Como os endocanabinoides são derivados de lipídios, o estudo busca compreender se uma maior ingestão de gorduras está associada a uma maior produção e concentração dessas substâncias no organismo.
Trata-se de uma investigação inédita e promissora, com potencial de aplicação futura em outras doenças crônicas, considerando a baixa quantidade de estudos que relacionem diretamente dieta e sistema endocanabinoide. O projeto conta com a parceria do Laboratório de Endocrinologia Molecular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), único laboratório no Brasil capaz de realizar a dosagem de endocanabinoides, atendendo também instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Ao investigar a obesidade por meio de abordagens como a nutrição de precisão e o estudo do sistema endocanabinoide, o projeto busca produzir conhecimento capaz de subsidiar políticas públicas e orientar futuras diretrizes de cuidado, inclusive no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). “Temos um projeto pioneiro sendo desenvolvido na UFRJ. O recebimento deste prêmio reforça a relevância de uma pesquisa que, muitas vezes, ainda é pouco conhecida e valorizada. Não por desinteresse da sociedade, mas porque comunicar de forma simples o que fazemos e o impacto direto disso no cotidiano das pessoas, ainda é um desafio”, conclui Alaine.
* Texto escrito por Tamiris Zapata sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro.
