Categorias
Cinema

Cineclube Medcine cresce e atrai cada vez mais estudantes

Projeto de extensão une arte e ciência, promovendo debates após cada sessão de filmes

Pipoca e refrigerantes distribuídos de graça eram as estratégias iniciais para atrair o público, quando a ideia de um cineclube voltado para as áreas da saúde estava apenas no começo, em 2022. Cada sessão reunia no máximo duas dezenas de pessoas. Mas o jogo virou. Hoje, o projeto de extensão Medcine tem um público cativo de mais de 500 estudantes, 120 estão na fila de espera e é preciso limitar o número de participantes em cada uma das exibições, tamanho o sucesso conquistado em pouco tempo. A ideia cresceu e se tornou também uma referência para diferentes cursos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que querem promover os próprios cineclubes.

A ideia surgiu em um dos encontros da Cátedra Carlos Chagas Filho de Fronteiras da Biologia e da Medicina do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), um núcleo de estudos voltados para ambas as áreas, que começou as atividades após as celebrações do centenário da Universidade e é capitaneado pela professora Cláudia Mermelstein e pelo professor Manoel Luis Costa, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB). “A gente fez várias atividades nessa cátedra. Fizemos palestras, produzimos livros, exposições e palestras até que em dado momento, em reuniões que fazíamos com professores e alunos, surgiu a ideia de exibir filmes e promover debates em torno dos assuntos que os alunos traziam”, contou o professor Costa.

A primeira sessão aconteceu há três anos, no dia 25 de novembro de 2022. Nise – O Coração da Loucura, um filme brasileiro protagonizado por Glória Pires e dirigido por Roberto Berliner,  que se baseava em um momento da vida da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira da terapia ocupacional no Brasil, fez a estreia. No mês seguinte, a atração foi o drama alemão dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, Werk ohne Autor (em inglês: Never Look Away; em português: Não Deixe de Lembrar), que foi inspirado na vida de Gerhard Richter. A história mostra uma estudante de arte na Alemanha Oriental após a Segunda Guerra Mundial, que se apaixona por um colega, mas seu pai, um professor com envolvimento com o nazismo se opõe ao relacionamento.

Sempre em uma sexta-feira, acontece o encontro mensal do cincelube MedCine, no prédio do CBAE/Fórum de Ciência e Cultura, no Flamengo | Foto: divulgação

A partir de então, uma vez por mês, sempre em uma sexta-feira, acontece o encontro entre a arte e a saúde, no prédio do CBAE/Fórum de Ciência e Cultura, na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. “As sessões começam às 18 horas e vamos controlando a presença dos estudantes e convidados por uma plataforma que criamos. Quando a lotação é alcançada, avisamos por um grupo formado em uma rede social. De qualquer maneira, ao fim do filme ocorre um debate entre os que ficaram e, eventualmente, com um especialista da Universidade que chamamos. Acho que essa é a melhor parte do projeto. As conversas são sempre muito ricas”, disse a professora Cláudia.

A grande virada

Quando as sessões passaram a ser divulgadas também para outros cursos, além dos de saúde, houve a grande virada na audiência para o cineclube. Para se ter uma ideia, a maioria dos inscritos no projeto de extensão são estudantes do Instituto de Economia, seguido, é claro, pelos alunos da Faculdade de Medicina. “Atualmente, o nosso público é muito variado. Tem alunos da Arquitetura, da Contabilidade, da Administração, do Direito e, é claro, dos cursos de Biologia, de Enfermagem, de Farmácia, de Fisioterapia dentre tantos outros. Essa mistura só enriquece os debates, pois cada um traz uma visão diferente, relacionado à área de conhecimento de onde a pessoa vem”, afirmou o professor Costa.

Embora todos os filmes busquem uma relação com a temática científica, as exibições perpassam por situações diferentes do cotidiano dos profissionais e pacientes da área da saúde, com todos os problemas e dificuldades existentes na sociedade e como eles são superados. É essa aproximação que atrai o público. “Já tivemos a participação também do reitor da UFRJ, o professor Roberto Medronho, que veio assistir a saga do médico Ignaz Semmelweis, no século XIX, ao derrotar a febre puerperal, indo contra todas as teorias tradicionais. Também tivemos a participação remota da diretora Nina Seavey no debate do filme Um medo paralisante: o triunfo sobre a pólio na América (A paralyzing fear: the triumph over polio in America, no título original)” sobre a poliomielite, contaram os professores.

As discussões duram mais de uma hora. Segundo o estudante de Medicina Murilo Nespolo Spineli, membro da diretoria do projeto, as pessoas estão sempre dispostas a dialogar, mesmo tendo visões opostas sobre algum tema. “Um dos dias mais emblemáticos foi após a exibição de Bicho de Sete Cabeças, com o ator Rodrigo Santoro. Acho que ficamos quase duas horas no debate sobre o tratamento adotado para doenças mentais e as pessoas expuseram suas ideias mesmo que elas fossem completamente opostas”, resumiu ele.

Os debates após as exibições duram mais de uma hora e promovem a interação entre estudantes e professores de diferentes áreas da UFRJ | Foto: Divulgação

As sessões são gratuitas e abertas até a capacidade limite da sala de exibição, que é de 170 lugares. “O projeto foi conquistando as pessoas. Alguns estudantes levavam companhia e jamais alguém foi barrado. O boca a boca fez o MedCine crescer e hoje já estamos com a discussão de como seria possível aumentar os dias de exibição ou ter mais de um lugar de exibição para ser possível atender ao nosso público”, revelou o estudante de Medicina Nicola Meirelles, que também é membro da diretoria do projeto.

Para a professora Cláudia Mermelstein, o MedCine pode ser o embrião de um cinema próprio na Universidade. “A gente já tem conversado com a diretora do CBAE, a professora Ana Célia Castro, e outros professores. A demanda está muito aquecida e procuramos um novo lugar para mais exibições. Há uma carência na Universidade para realizar esse tipo de evento. Outros professores da UFRJ já estão nos procurando para conversar sobre cineclubes em outras áreas temáticas. O MedCine tem se mostrado como um espaço muito interessante de interação e troca entre alunos e professores de diferentes áreas”, concluiu a professora.