Pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicaram na revista científica Oikos no início do ano, um estudo que avaliou os resultados da reintrodução do tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel) no Parque Nacional da Tijuca mais de 50 anos após as aves terem sidos soltas na mata. Considerada a primeira reintrodução documentada para esta localidade, essa ação foi coordenada pelo primatólogo Ademar Coimbra Filho, entre 1970 e 1971, em uma iniciativa para recuperar a fauna do parque, que havia sofrido muito com o desmatamento.
De acordo com os cientistas, a ave chegou a ser considerada desaparecida em 1968 na Floresta da Tijuca, em decorrência do desmatamento, da fragmentação e da caça para a confecção de artesanatos, como, por exemplo, o manto imperial exposto no museu de Petrópolis. Após a soltura de 47 indivíduos de tucanos em diferentes pontos da Estrada da Vista Chinesa, a presença de tucanos-de-bico-preto em todo o parque e em áreas próximas tornou-se algo comum.
De acordo com a pesquisadora Flávia Zagury, uma das autoras do estudo, o Parque Nacional da Tijuca abrange uma floresta que passou historicamente por um processo de extinção e declínio de populações de diversas espécies de animais, sendo que normalmente os primeiros a desaparecerem são os animais de grande porte. “A ausência dos animais, em processo de defaunação, como chamam os biólogos, causa uma série de problemas para a floresta, como por exemplo alterações na dispersão de sementes por zoocoria (por animais), processo de extrema importância para a manutenção das populações de planta e para a composição florística da floresta como um todo”, explicou.
A reintrodução dessas aves não foi por acaso, mas sim um primeiro passo para recuperar a funcionalidade da Floresta da Tijuca. A presença de tucanos, portanto, representava uma esperança para essas espécies de plantas. “O tucano é uma ave de grande porte e, uma vez que voa longas distâncias, consegue dispersar sementes para novas áreas. Por seu tamanho corporal e abertura de bico grande, consegue consumir sementes de pequeno a grande porte. Logo, sua reintrodução em ambientes defaunados é estratégica para recuperar interações de frugivoria (consumo de frutos e dispersão de sementes) que possam estar perdidas”, comentou Flávia, que recebeu orientações da professora Rita Portela, do Instituto de Biologia da Universidade (IB).
Apesar do histórico e da importância funcional do tucano-de-bico-preto, até o presente momento não havia nenhuma informação referente a essa população proveniente da reintrodução, e o conhecimento acerca da espécie em si permanecia escasso. O principal objetivo do estudo foi avaliar o sucesso da tentativa de inserir as aves no parque. “Avaliar o sucesso dessa reintrodução, levando em conta a frugivoria, seria de extrema importância para compreender o sucesso que ela obteve em termos de recuperação de interações que foram perdidas com a extinção da espécie. Desta forma, é possível hipotetizar uma recuperação de funcionalidade”, disse.
Além de uma revisão das publicações científicas sobre as interações do consumo de frutos e dispersão de sementes pelo tucano-de-bico-preto antes do sumiço da Floresta da Tijuca, os cientistas passaram um ano em campo acompanhando semanalmente quais interações essa população reintroduzida estava de fato realizando. Para a pesquisadora, a principal conclusão com a pesquisa foi que, em termos de recuperação de interações ecológicas de frugivoria, a reintrodução do tucano-de-bico-preto foi bem sucedida. “Especificamente quando olhamos para as espécies com sementes de médio a grande porte, temos valores altíssimos de recuperação de interações, o que é um resultado muito promissor”, afirmou Flávia.
Segundo os pesquisadores, os tucanos estão cumprindo 76% de todas as interações de frugivoria esperadas e, especificamente para espécies de sementes médias e grandes (aquelas que mais carecem de dispersores), a recuperação foi, respectivamente, de 88% e 89%. “A espécie se alimenta sem auxílio humano, sabemos que também se reproduz bem sem ajuda do ser humano e nossos resultados evidenciam a recuperação de suas interações, portanto, a reintrodução após 53 anos foi um sucesso”, concluiu a pesquisadora.
