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Estudo revela mecanismo que controla ação de célula do sistema imunológico

O papel da XPC no reparo de DNA dos linfócitos T pode desenvolver novas estratégias terapêuticas

Um estudo publicado em abril na revista Nature Communications, conduzido por pesquisadores da UFRJ e da USP e de instituições nos Estados Unidos e na Alemanha, descreve como células do sistema imunológico conseguem reparar o próprio DNA enquanto se multiplicam para atuar na defesa do organismo. Quando essa atividade ocorre de forma persistente ou fora do contexto adequado, as células podem contribuir para doenças autoimunes como a psoríase (uma inflamação crônica da pele) ou a esclerose múltipla (que afeta o sistema nervoso). O estudo abre novas possibilidades para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas, pois contribui para a compreensão de diversas doenças inflamatórias.

Essenciais para o controle de infecções causadas por bactérias e fungos, as células Th17 são um tipo de célula do sistema imunológico que produz substâncias importantes, como IL-17 e IL-22, sinais que alertam o corpo sobre invasões de patógenos causadores de doenças. Os pesquisadores buscaram entender como essas células lidam com danos no próprio DNA quando entram em atividade. 

Para melhor compreensão, vamos imaginar que uma bactéria, um vírus ou um fungo que ao entrar em nosso corpo desencadeia uma infecção. A partir desse momento, o organismo inicia a formação de um verdadeiro “exército” de defesa, com rápida multiplicação de células chamadas linfócitos T.  Como numa máquina fotocopiadora, se a imagem sair muito clara ou escura demais a legibilidade fica comprometida, pois a cópia não é como a primeira. Da mesma forma, se essas células acumulam erros ao se multiplicar, elas podem não funcionar corretamente, comprometendo a capacidade do corpo de combater a infecção de forma eficiente.

É por isso que é fundamental que existam mecanismos eficientes de reparo do DNA para manter o funcionamento adequado dessas células. Os cientistas mostram no artigo que uma proteína chamada XPC (Xeroderma Pigmentosum complementation group C) exerce um papel central nesse processo. Essa proteína atua como um sensor que reconhece danos no DNA e ajuda a coordenar o seu reparo. “Observamos que, durante a formação das células Th17, a expressão de XPC aumenta, indicando que essas células dependem desse mecanismo para manter sua integridade”, explicou o autor principal do artigo, o professor Jefferson Antônio Leite, do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes (IMPG) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A proteína XPC já é conhecida pelo papel em uma doença genética rara chamada xeroderma pigmentoso, que torna os indivíduos extremamente sensíveis à luz solar (radiação ultravioleta) e aumentam significativamente o risco de câncer de pele. Com o estudo, os pesquisadores mostram que essa mesma proteína também é essencial para o funcionamento de células do sistema imunológico. De acordo com Leite, quando a proteína XPC está ausente, as células passam a acumular mais danos no DNA, em especial o dano oxidativo, gerando radicais livres muito prejudiciais.

Além disso, células Th17 apresentam alterações no funcionamento interno, incluindo mudanças no metabolismo e redução da produção de IL-17, uma das principais moléculas produzidas por elas. O estudo também mostrou que a XPC não atua isoladamente. Ela funciona em conjunto com outros mecanismos de reparo do DNA, formando uma rede coordenada que protege a célula. Quando essa coordenação não ocorre de forma adequada, há um desequilíbrio nesses processos, o que impacta diretamente na atividade celular. “Descobrimos também que na ausência da XPC, células Th17 mostram uma certa capacidade de mudar seu comportamento, passando a adquirir características anti-inflamatórias semelhantes às de células Treg, um tipo celular cuja descoberta foi reconhecida com o Prêmio Nobel de Medicina”, contou Jefferson Leite.

“Com certeza o estudo abre perspectivas para tratamentos de doenças autoimunes, como a  psoríase, a doença inflamatória intestinal, o diabetes tipo 1, a artrite reumatóide, entre outras. Já iniciamos, por exemplo, um estudo em modelo pré-clínico de  esclerose múltipla. Também vamos avaliar o limiar que existe entre a produção de XPC entre as doenças autoimunes e as causadas por patógenos. Outras células produzem a IL-17, queremos verificar o que acontece se inibirmos a produção da proteína nas células Th17, por exemplo, para não gerar doenças autoimunes, mas ter citocinas suficientes para proteger o corpo de bactérias e vírus. Hoje, há apenas inibidores da IL-17 como medicamentos, podemos propor um outro caminho”, concluiu o professor.