Enquanto os noticiários apresentam cenas de morte e destruição por todo o país com as chuvas de verão, muitas soluções que surgem nas universidades são ignoradas pelo poder público. Um exemplo é o projeto desenvolvido na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) para criar um parque-esponja capaz de absorver as águas de enchentes dos rios Iguaçu e Sarapuí, na Baixada Fluminense, e ainda preservar sítios arqueológicos e vegetação remanescente da Mata Atlântica. O Parque Estadual do Quilombo do Bomba ocuparia uma área de mais de 3,3 milhões de metros quadrados com equipamentos públicos, ciclovia e mirantes para a Baía de Guanabara.
A proposta prevê a preservação de uma área equivalente a 530 campos de futebol e um minucioso planejamento de integração com o entorno, na região conhecida como Campo do Bomba, às margens da Rodovia Washington Luiz (BR-040), beneficiando não só os moradores vizinhos do bairro de São Bento, em Duque de Caxias, mas também quem vive em Nilópolis, Mesquita, Belford Roxo, São João de Meriti e Nova Iguaçu. O projeto coordenado pela professora Ana Lúcia Britto, do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourb) da UFRJ, já recebeu até prêmio internacional, o Design For a Better World Award (Design para um Mundo Melhor), mas ainda tem um longo caminho para se tornar realidade.
O Parque Estadual do Quilombo do Bomba foi inspirado no conceito de cidade-esponja, criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, que morreu em um acidente aéreo no Brasil ocorrido em setembro de 2025. “A iniciativa surgiu de uma demanda das associações de moradores de Duque de Caxias. Nosso papel foi apresentar uma forma de utilização do terreno, para que ele absorva as águas, reduza as enchentes na região, contenha a ocupação irregular, evite a perda de residências, móveis e pertences dos moradores da região e preserve o mangue”, afirmou a professora da FAU.

Os estudantes do Prourb participaram de reuniões com representantes de associações de moradores e movimentos sociais para conhecer as demandas locais. Com tudo anotado, eles propuseram atender as demandas locais de infraestrutura com a criação de áreas gramadas e jardins, 17 quilômetros de ciclovias, quadras esportivas, parquinho com brinquedos infantis e áreas para piqueniques. O projeto, que contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), também sugere a construção de uma estação de trem, pontos de ônibus, mirantes para a Baía de Guanabara, creche e outras instalações que atendam às necessidades da comunidade. As edificações teriam tijolos produzidos localmente, sendo uma solução sustentável de intervenção e respeitando a tradição local da autoconstrução.
Pioneirismo no Rio
O Parque Estadual do Quilombo do Bomba seria o primeiro projeto dentro do conceito de cidade-esponja no Rio de Janeiro. O Brasil ainda não possui cidades totalmente capazes de serem uma “esponja” das águas pluviais e fluviais. Soluções como jardins de chuva e áreas permeáveis foram criadas em São Paulo, Niterói e Belo Horizonte. Todavia, a que mais se destaca dentre todas as propostas vem de Curitiba, onde há os parques Barigui, São Lourenço, Tingui e Atuba, que atuam como bacias de retenção, absorvendo a água de forma controlada para proteger áreas residenciais e evitar cheias.
Do ponto de vista do arquiteto chinês criador do conceito, Kongjian Yu, as cidades modernas negligenciam soluções naturais que permitem à água se infiltrar no solo. Em 2012, a ideia de cidade-esponja surgiu quando chuvas intensas provocaram a morte de mais de 70 pessoas em Pequim, na China, enquanto a Cidade Proibida — residência dos antigos imperadores chineses e construída séculos antes com um sofisticado sistema de drenagem — permaneceu incólume.

Em 2013, o presidente chinês, Xi Jinping, apresentou oficialmente o conceito. Dois anos depois, 16 cidades na China foram selecionadas como cidades-esponja piloto e, em 2016, outras 14 cidades foram adicionadas ao projeto. Na verdade, a ideia reúne um conjunto de outras iniciativas de gestão sustentável de águas pluviais, como as de Desenvolvimento de Baixo Impacto (DBI), nos EUA e Canadá; os Sistemas Urbanos de Drenagem Sustentável (SUDS), no Reino Unido; o Design Urbano Sensível à Água (WSUD), na Austrália; o de Cidade Ativa, Bonita e Limpa (ABC), em Singapura; e a Gestão Paisagística de Águas Pluviais, na Dinamarca.
Polêmica para uso da área
A Prefeitura de Duque de Caxias, em vez de apoiar a iniciativa, trava uma luta com os cidadãos da cidade há pelo menos cinco anos, pois cogita construir no local uma Central de Abastecimento de produtos agrícolas para a região metropolitana. O Ministério Público Federal entrou na disputa e o projeto também foi abraçado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando o deputado estadual Waldeck Carneiro da Silva (hoje suplente de Eduardo Bandeira de Mello, do PSB) protocolou um projeto de lei com a bancada do Psol para fazer a ideia sair do papel.
O Campo do Bomba é uma planície fluvial que divide a Área de Proteção Ambiental (APA) São Bento, criada em 1997. Na verdade, o terreno pertence ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que cedeu a área mas depois a retomou, já que diversos requisitos de utilização não foram preenchidos pela prefeitura de Duque de Caxias. “Há muitos interesses em jogo e temos esperança de que, em uma próxima legislatura, o novo governo do Rio olhe para a questão, pensando na importância ecológica”, concluiu a professora Ana Britto.
