Categorias
Saúde Tecnologias

Estudo da UFRJ investiga possíveis alterações oculares em crianças com lúpus em uso de hidroxicloroquina

Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Saúde Materno-Infantil aponta sinais de olho seco e reforça a importância do acompanhamento oftalmológico

Uma pesquisa do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) analisou possíveis alterações oculares em crianças e adolescentes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil (Lesj) em tratamento com hidroxicloroquina, medicamento amplamente utilizado no controle da doença. O trabalho, de autoria da pesquisadora Alessandra Fonseca Graça da Silva, foi publicado na Revista Lúpus, periódico internacional de referência nos estudos da doença.

O estudo buscou preencher uma lacuna importante: embora os efeitos oculares da hidroxicloroquina estejam bem descritos em adultos, ainda há pouca literatura sobre seu impacto em pacientes pediátricos. “A criança não é um adulto pequeno”, destaca a oftalmologista e orientadora da pesquisa, Julia Rossetto. Segundo ela, protocolos baseados exclusivamente em dados de adultos podem não refletir com precisão as particularidades da infância.

O que é o Lesj e por que pesquisá-lo?

O lúpus eritematoso sistêmico juvenil (Lesj) é uma doença autoimune rara, mas potencialmente grave. Tanto a própria doença quanto os medicamentos utilizados no tratamento podem causar alterações oftalmológicas. No caso da hidroxicloroquina, o principal receio é a toxicidade retiniana, que pode levar a danos irreversíveis e à perda visual. 

O objetivo da pesquisa foi realizar uma avaliação oftalmológica completa dos pacientes e correlacionar possíveis alterações com tempo de doença, tempo de uso da medicação, doses acumuladas e índice de atividade do lúpus. “Na criança, isso é ainda mais significativo, porque os anos de vida com deficiência visual seriam muito mais prolongados do que em um adulto”, explica Rossetto. 

Entre os resultados mais relevantes, o estudo identificou que as crianças avaliadas apresentavam sinais de olho seco, mesmo na ausência de queixas clínicas. Segundo a orientadora, o dado chama a atenção porque evidencia a necessidade de investigação ativa durante as consultas oftalmológicas, mesmo quando não há sintomas relatados. Em relação à hidroxicloroquina, as doses utilizadas pelos pacientes juvenis não ultrapassaram os limites considerados seguros para adultos, e não foram observados danos retinianos associados ao uso nas dosagens avaliadas.

No entanto, a pesquisa identificou uma possível alteração em exame de tomografia que pode sugerir dano retiniano precoce, ainda sem impacto visual detectável. Devido a limitações metodológicas, não foi possível determinar com precisão a localização exata dessa alteração nas camadas da retina. “Pode ser um marcador precoce, mas isso ainda precisa ser confirmado em estudos futuros”, aponta Rossetto.

Impacto do estudo para a prática clínica

Os resultados trazem implicações diretas para a rotina de atendimento, especialmente no que diz respeito ao diagnóstico e tratamento do olho seco. “Isso precisa ser pesquisado ativamente e tratado para evitar danos no futuro, pois muda a forma como atendemos os pacientes”, afirma a pesquisadora. A recomendação é que o exame do segmento anterior do olho seja realizado com atenção redobrada, independentemente de queixas visuais.

Apesar dos achados promissores, a equipe reconhece que ainda há questões em aberto. O próximo passo será aprimorar a técnica de aquisição das imagens para localizar com maior precisão a camada da retina possivelmente afetada. “O que falta é realizar a tomografia de coerência óptica de maneira mais direcionada, para caracterizar melhor essa alteração que observamos, mas cuja localização exata na retina ainda não sabemos”, explica.

A pesquisadora também defende a inclusão de um grupo controle, com o objetivo de esclarecer se o achado é incidental ou se está realmente associado à medicação ou ao curso da doença. Caso seja confirmado como marcador precoce, poderá servir como sinal de alerta clínico para reavaliação das doses terapêuticas. Ao ampliar o olhar sobre a saúde ocular no lúpus juvenil, a pesquisa contribui para a construção de protocolos mais específicos e seguros, reforçando que adaptar o cuidado às particularidades da infância não é um detalhe, mas uma necessidade.