Categorias
Cinema

Brasil no Oscar: “O Agente Secreto” aumenta a visibilidade do cinema nacional

Disciplina da Escola de Comunicação transforma cineclube em espaço de debate, formação crítica e valorização do audiovisual brasileiro

A indicação de “O Agente Secreto” ao Oscar 2026 reacendeu o entusiasmo do público brasileiro com o cinema nacional e também mobilizou discussões dentro da própria universidade. Na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), o tema está no centro das atividades do Cinerama, projeto que funciona como cineclube e disciplina eletiva voltada à análise crítica do audiovisual.

O novo longa dirigido por Kleber Mendonça Filho recebeu quatro indicações à premiação, igualando-se ao recorde brasileiro estabelecido por “Cidade de Deus”, em 2004, um dos raros momentos em que o cinema nacional alcançou grande destaque na premiação. O filme concorre nas categorias de Melhor Seleção de Elenco, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e também na principal categoria da premiação, Melhor Filme. A cerimônia do Oscar 2026 acontece no domingo, 15/3.

A repercussão da obra se soma a uma sequência recente de conquistas do audiovisual brasileiro no exterior. No ano passado, a mesma euforia mobilizou o país quando “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, recebeu três indicações ao Oscar 2025: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, para Fernanda Torres, que acabou levando a estatueta. Além desse, a vitória de “Feito Pipa” no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, com Lázaro Ramos no elenco, e a indicação de Adolpho Veloso ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Fotografia, por seu trabalho em “Sonhos de Trem”, reforçaram a visibilidade das produções audiovisuais brasileiras.

Repleto de elementos culturais e históricos, o filme “O Agente Secreto” conta a história de Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que retorna ao Recife em meio a um cenário político conturbado. Ao tentar levar uma vida aparentemente discreta, ele acaba se envolvendo em uma rede de espionagem, vigilância e disputas de poder que expõe segredos e interesses ocultos. A narrativa mistura suspense político e drama pessoal para refletir sobre memória, controle e as marcas da história recente do país.

O cinema nacional e a UFRJ

No Cinerama, o cinema brasileiro ocupa posição central na proposta pedagógica. Criado em 2007 e transformado em disciplina em 2013, o projeto promove sessões semanais de filmes, seguidas de debates entre estudantes, professores e público externo.

Coordenado pela professora associada da ECO/UFRJ, Guiomar Ramos, o Cinerama funciona também como disciplina eletiva conduzida pelos próprios alunos. A cada semestre, eles assumem a curadoria da programação, organizam debates, mediam conversas com convidados e cuidam da divulgação das sessões, construindo, na prática, um espaço público de reflexão sobre o audiovisual. O projeto reúne estudantes de diversos cursos da universidade e, em algumas ocasiões, contou com a participação de alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ampliando o diálogo para além da UFRJ.

Segundo a pesquisadora, o contato com obras nacionais amplia o repertório dos alunos e influencia diretamente a forma como eles pensam seus próprios projetos audiovisuais.

“Ninguém cria a partir do nada. A criação nasce do contato com as referências fílmicas que o estudante possui. Se o repertório se limita a séries ou novelas de TV, é esse universo que tende a se reproduzir em seus filmes. Por isso, é fundamental ter acesso a obras que pensaram e registraram o país ao longo de décadas”, explica.

A estudante Sara Mendes, monitora-chefe da extensão, também ressalta o papel do cineclube na ampliação do acesso ao cinema para além das produções norte-americanas.

“No Cinerama, colocamos o cinema brasileiro e latino-americano no centro da programação. A proposta não é apenas assistir aos filmes, mas utilizá-los como ponto de partida para debates e reflexões sobre a nossa realidade social e política. Buscamos ir além do circuito comercial, democratizando o acesso à nossa própria cultura”, salienta.

Sobre as sessões da disciplina, ela acrescenta: “Essa é, talvez, a parte mais significativa do projeto: quando os participantes conseguem compreender o Brasil por meio de narrativas frequentemente silenciadas pelo mercado audiovisual, como produções de mulheres, pessoas negras e da comunidade LGBTQIAPN+. No fim das contas, o cinema se torna uma ferramenta essencial para entender de forma mais profunda o país e o mundo”, conclui.

O que essas produções têm em comum?

Para Guiomar Ramos, os filmes brasileiros indicados ao Oscar compartilham características marcantes.

“Eles dialogam com questões universais — memória, identidade, injustiça, resistência — sem perder a singularidade do Brasil, o que torna suas histórias reconhecíveis e impactantes em outros contextos culturais. A maturidade estética, a força narrativa e a relevância política, combinadas a um momento de maior visibilidade internacional, ajudam a explicar por que essas obras conquistaram tanto destaque agora”, afirma.

Outro aspecto relevante são os nomes por trás das produções que ganharam projeção mundial. Walter Salles, diretor de “Ainda Estou Aqui”, é um dos cineastas brasileiros mais renomados, com trajetória marcada por “Central do Brasil” (1998), “Diários de Motocicleta” (2004) e “Cidade de Deus” (2002, como produtor). Já Kleber Mendonça Filho, conhecido por “Bacurau” e “Aquarius”, acumula mais de 20 anos de carreira e também conquistou reconhecimento internacional.

Para Gabriel de Freitas, um dos coordenadores do Cinerama Cineclube, esse é um fator decisivo para compreender a projeção internacional do cinema brasileiro.

“Além disso, o financiamento e a estrutura de produção e distribuição fazem grande diferença. ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’ não são os primeiros filmes brasileiros com qualidade e potencial internacional, mas se destacam pelo investimento maior, por serem conduzidos por diretores já consolidados e por contarem com estratégias de circulação mais robustas, o que amplia alcance e visibilidade”, complementa.

Acesso às produções brasileiras

“O Agente Secreto” segue em exibição em algumas salas de cinema e também está disponível na Netflix, plataforma de streaming paga. O filme “Sonhos de Trem” também pode ser encontrado na mesma plataforma. Já “Ainda Estou Aqui”, destaque da última temporada de premiações, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional e deu a Fernanda Torres o Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz em Filme de Drama, está disponível no Globoplay.

Apesar da crescente visibilidade internacional, a circulação das produções nacionais ainda enfrenta desafios. Parte da população não tem acesso a salas de exibição, e o acesso online também é limitado. Não há uma regra que garanta a presença mínima de filmes brasileiros em plataformas de streaming gratuitas ou pagas. A disponibilidade restrita nos cinemas e a participação reduzida nas plataformas digitais dificultam que muitas obras cheguem a um público mais amplo.

Para Guiomar Ramos, coordenadora do Cinerama, a presença de filmes brasileiros na principal premiação do cinema mundial é um marco significativo.

“Em um país marcado por disputas narrativas e polarizações, ver nossas histórias circulando e sendo reconhecidas internacionalmente reafirma que nossa produção cultural possui densidade, complexidade e valor universal. Como professora, sinto que esse momento reforça aquilo em que sempre acreditei: estudar e fazer cinema brasileiro é uma forma de compreender o país — e de intervir nele”, afirma.

A cerimônia do Oscar 2026 acontece no próximo domingo, 15/3, em Los Angeles, nos Estados Unidos. No Brasil, o público poderá acompanhar a premiação ao vivo pela Globo, na TV aberta, pelo TNT, na TV por assinatura, e pelas plataformas de streaming Globoplay e Max. A cobertura do tapete vermelho começa por volta das 18h30, enquanto a cerimônia principal tem início previsto entre 20h e 21h, no horário de Brasília.

Agora, resta esperar pelo desfecho da premiação. Será que algum filme brasileiro vai vencer alguma categoria? Quem vai torcer pelo Brasil?

*Texto escrito por Tamiris Zapata sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro.