Capivaras caminham tranquilamente pelas trilhas, saguis saltam entre as árvores e aves sobrevoam a Baía de Guanabara. A cena pode surpreender quem chega pela primeira vez, mas faz parte do cotidiano de quem circula pela Cidade Universitária da UFRJ, na Ilha do Fundão. Entre manguezais, trechos de mata e áreas verdes, o campus ainda preserva vestígios do antigo arquipélago que deu origem à região.
A proposta de criação da Cidade Universitária, apresentada em 1945, transformou profundamente o território. Um amplo projeto de aterro unificou oito ilhas, abrindo espaço para a construção de prédios, avenidas e centros de pesquisa. Mesmo assim, parte da natureza original resistiu às mudanças e continua a sustentar a diversidade de fauna e flora que encontram abrigo e alimento no campus.
Hoje, o Fundão funciona como um verdadeiro laboratório a céu aberto. Ali, a história do território se cruza com a produção científica e iniciativas de preservação ambiental, mostrando que a biodiversidade não apenas resiste, mas segue inspirando pesquisas e ações de conservação.
Do arquipélago ao campus
Até meados do século XX, a região onde hoje está a Cidade Universitária era um arquipélago formado por oito ilhas — cinco menores, Baiacu, Cabras, Catalão, Pindaí do França e Pindaí do Ferreira, e três maiores, Sapucaia, Bom Jesus e Fundão. Entre 1949 e 1952, as ilhas foram unificadas por meio de um amplo projeto de aterro que viabilizou a construção do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Décadas depois, no entanto, a natureza voltou a ocupar parte desse espaço. Até 2025, mais de duzentas espécies foram registradas na região pelo servidor e ambientalista Alfredo Heleno de Oliveira, que monitorou a área por anos.
Segundo Vera Rodrigues, coordenadora de Operações Urbano-Ambientais da Prefeitura Universitária, é comum observar capivaras, teiús, cobras, saguis, borboletas, calangos e gambás circulando pelos arredores do campus. Em algumas ocasiões, surgem aparições mais incomuns, como a recente presença de um jacaré, que chamou a atenção da comunidade acadêmica.
Vera destaca que, embora a Cidade Universitária tenha sido criada a partir do aterro de oito ilhas, essa é uma alternativa que atualmente não seria escolhida para a construção de um campus universitário. Para mitigar os impactos das expansões, desde a concepção do primeiro Plano Diretor houve a preocupação de garantir áreas de preservação.
Entre as principais estratégias está a preservação do Catalão, uma das oito ilhas unidas para a construção do campus. A área de 17 hectares é dedicada à preservação ambiental e, em 1997, foi criado o Parque da Mata Atlântica Frei Vellozo, onde estão presentes espécies vegetais do bioma da Mata Atlântica — de ecossistemas de floresta ombrófila, restinga e manguezal — que favorecem a presença de fauna. Além da função ecológica, o espaço é aberto para atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Pesquisa e biodiversidade na Cidade Universitária
Por abrigar uma extensa área com fauna e flora remanescentes do antigo arquipélago, o campus do Fundão consolidou-se como um importante campo para pesquisas sobre biodiversidade. Ao longo dos anos, diferentes projetos voltados ao estudo e à preservação ambiental surgiram na Cidade Universitária. Parcerias entre a UFRJ e instituições públicas e privadas também têm destinado recursos a pesquisas e iniciativas socioambientais, fortalecendo ações voltadas à diversidade ecológica do campus.
Um desses projetos é o IlhaViva, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Design da Escola de Belas Artes. A iniciativa foi concebida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Design Visual (PPGD), em parceria com a L’Oréal, empresa instalada no Parque Tecnológico da UFRJ.
O projeto foi estruturado sob a coordenação das professoras Ana Karla Freire de Oliveira e Madalena Ribeiro Grimaldi, articulando pesquisa acadêmica, design e sustentabilidade a partir das especificidades ambientais da Cidade Universitária.
O IlhaViva desenvolveu um inventário de biodiversidade com base em sete excursões de campo. A identificação e a catalogação das espécies foram realizadas pela equipe do curso de Biologia, com apoio de especialistas e consultas a coleções biológicas de referência e à literatura científica.
O levantamento registrou espécies típicas de manguezal, restinga e Mata Atlântica, incluindo invertebrados, peixes, répteis, aves e mamíferos — entre eles o sagui híbrido, o sabiá-laranjeira, insetos predadores, borboletas e o caranguejo Minuca rapax. Também foram identificados peixes de relevância pesqueira, como a tainha e a sardinha-brasileira, importantes para as comunidades locais. Em 2022, mais de 100 espécies de fauna e flora foram registradas na Ilha do Bom Jesus.
O projeto atuou durante um ano exclusivamente na Ilha do Bom Jesus, localizada no interior da Baía de Guanabara. A área abriga um ecossistema rico e diverso; no entanto, o estuário costeiro sofre pressões decorrentes do grande aporte de resíduos sólidos, do lançamento de esgotos domésticos não tratados e da presença constante de poluentes — fatores que impactam a biodiversidade local.
Como parte da iniciativa, foi criado o site IlhaViva, que reúne o catálogo de registros produzidos pelos pesquisadores, com imagens, áudios e ilustrações sobre a biodiversidade da Ilha do Bom Jesus. A plataforma busca ampliar o acesso às informações, estimular a conscientização ecológica e reforçar a importância da preservação das espécies remanescentes na região.
Os desafios da preservação
A professora Madalena Grimaldi explica que a poluição da Baía de Guanabara tem provocado impactos significativos sobre a ilha e sua biodiversidade. Entre os principais fatores estão o descarte inadequado de resíduos sólidos, o lançamento de efluentes e a contaminação do solo e dos corpos d’água adjacentes. Esses processos contribuem para a degradação dos ecossistemas locais, comprometem a qualidade ambiental e podem levar à redução da diversidade biológica, ao declínio de espécies sensíveis e à alteração das interações ecológicas.
O enfrentamento da degradação ambiental também figura entre os principais desafios da Prefeitura Universitária. Vera Rodrigues destaca que, no campo da proteção e da melhoria da biodiversidade, uma das prioridades é a mitigação de passivos ambientais — especialmente aqueles relacionados aos resíduos que afetam a Baía de Guanabara e a orla do campus. Somam-se a isso limitações estruturais, como o dimensionamento insuficiente do quadro técnico para atender plenamente às demandas ambientais e a restrição de recursos que impactam a universidade pública.
Mesmo diante desses desafios, diferentes iniciativas conduzidas por pesquisadores da UFRJ buscam contribuir para a preservação ambiental na Cidade Universitária. Entre elas está o projeto Orla Sem Lixo, que propõe soluções de baixo custo para a interceptação e reciclagem de resíduos flutuantes. Outra frente de atuação é o projeto de Restauração de Restinga, voltado à recuperação da vegetação costeira e ao fortalecimento dos ecossistemas associados à orla do campus.
A história do campus universitário também é marcada por transformações profundas no território. Parte dos habitats naturais que originalmente abrigavam a biodiversidade foi suprimida ou modificada em decorrência do desmatamento e da implantação de construções, resultando na perda e na fragmentação de ambientes essenciais para diversas espécies da fauna e da flora.
Ainda assim, a biodiversidade resiste na antiga área insular e segue presente no cotidiano da Cidade Universitária e reforça a importância da atuação da comunidade acadêmica na preservação desse patrimônio natural.
* Texto escrito por Karen Monteiro sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro
