A fotografia premiada de Fábio Caffé não captura apenas uma cena de carnaval. Ela registra um gesto coletivo, um território em movimento e uma cultura que insiste em existir apesar dos estigmas. Ao acompanhar integrantes da turma de bate-bola Perfeição no bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o fotógrafo produziu uma imagem que, anos depois, atravessaria os muros do subúrbio e passaria a integrar o acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS). O reconhecimento veio com o prêmio do 1º Concurso Fotográfico promovido pela Fundação Museu da Imagem e do Som, mas o alcance da fotografia vai muito além da conquista individual.
Servidor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorando pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Caffé construiu sua trajetória a partir da fotografia documental e do envolvimento com manifestações culturais populares. Nascido em uma segunda-feira de carnaval, pareceu destino que ele dedicasse seus trabalhos ao carnaval. Nesse caso, não apenas como espetáculo turístico, mas como prática social, política e comunitária, especialmente nos territórios periféricos da cidade.
“Ver uma fotografia de bate-bola fazer parte de um acervo institucional é muito simbólico”, afirma. “É um grupo historicamente criminalizado ocupando um espaço de memória oficial. Isso diz muito sobre quem tem direito de ser lembrado.”
Um olhar formado na periferia
A relação de Fábio Caffé com a fotografia nasce do encontro entre formação acadêmica e experiência territorial. Na Escola de Fotografia Popular da Maré, consolidou seu entendimento da imagem como ferramenta política e social. Ali, sob a influência de fotógrafos como João Roberto Ripper, referência da fotografia documental brasileira, Caffé passou a compreender a fotografia como diálogo, escuta e compromisso.
Desde então, seu olhar se volta para o cotidiano de favelas, subúrbios e manifestações populares, com especial atenção para o carnaval. Em 2013, participou da criação do projeto Folia de Imagens, voltado ao registro da festa em territórios fora do circuito oficial. Foi nesse contexto que o bate-bola entrou definitivamente em sua trajetória.
Bate-bola: escola de samba do subúrbio
O contato mais próximo com a cultura bate-boleira começou a partir de 2018, quando Caffé passou a acompanhar a Turma Perfeição, criada em 2002 por moradores de Senador Camará, e atualmente formada por cerca de 100 integrantes. Homens, mulheres, crianças, adolescentes e adultos constroem juntos uma experiência que se estende muito além dos dias de carnaval.
Ao longo do ano, a turma se organiza em reuniões, arrecadações coletivas para custear fantasias, atividades com crianças, confraternizações e ações no próprio território. O carnaval é o ápice de um trabalho contínuo, marcado por vínculos afetivos e compromisso comunitário.
“O dia da saída é um acontecimento no bairro”, conta o fotógrafo. “Fecha a rua, tem som alto, fogos, crianças brincando, moradores participando. É uma coisa fantástica, uma vibração incrível, uma sensação muito legal!”
Durante o carnaval, as turmas circulam por diferentes regiões da cidade, exercitando o direito de ocupar o espaço urbano. Esse deslocamento também se configura como um gesto político: afirma a presença desses corpos e dessas culturas em uma cidade marcada por desigualdades territoriais.
Entre a fantasia e o estigma
Apesar da força cultural e organizativa, o bate-bola ainda é alvo de estigmatização. Ao longo dos anos, a fantasia foi associada à violência, à marginalidade e ao medo, especialmente quando vinculada a territórios periféricos. O trabalho de Caffé se insere justamente na tentativa de romper com essas imagens cristalizadas.
“Muita gente criminaliza o bate-bola, mas eles realizam trabalhos cheios de criatividade, afeto, memória, solidariedade e coletividade. Meu interesse é mostrar essa complexidade”, observa.
A fotografia premiada pelo MIS foi feita durante um encontro entre duas turmas — Perfeição e Fascinação — em Oswaldo Cruz. Naquele ano, o tema da fantasia dialogava com os povos indígenas, evidenciando como as escolhas estéticas das turmas também carregam discursos e reflexões políticas.
“É festa e ao mesmo tempo também é pensamento”, resume o fotógrafo. “A fantasia pode propor uma leitura crítica do mundo.”
Fotografia é memória
O concurso promovido pelo Museu da Imagem e do Som surge em um contexto mais amplo de discussão sobre memória e políticas públicas de preservação da fotografia. A criação da Fototeca Estadual do Rio de Janeiro busca responder a uma lacuna histórica: a ausência de estruturas institucionais que garantam a preservação de acervos fotográficos, especialmente de fotógrafos vindos de favelas e subúrbios.
Além de integrar o acervo do MIS, a premiação rendeu reconhecimento financeiro e a perspectiva de publicação das imagens vencedoras. Ainda assim, para o fotógrafo, o principal valor está no gesto simbólico: inserir o bate-bola — e, com ele, a cultura suburbana — em um espaço oficial de memória.“Valorizar os bate-bolas como patrimônio cultural da nossa sociedade”, destaca Caffé.

Foto: Fábio Caffé pelas lentes de Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)
Cultura viva
Reconhecido como patrimônio cultural imaterial, o bate-bola segue sendo uma das expressões mais potentes do carnaval carioca fora do eixo central e turístico. Para Caffé, documentar essa manifestação é também um compromisso ético. “Esses grupos produzem cultura, arte”, afirma. “Eles ressignificam o território onde vivem e lutam para manter essa tradição viva, apesar de todas as dificuldades.”
Ao longo dos anos, o fotógrafo acompanhou transformações geracionais dentro da turma: crianças que viraram adolescentes, jovens que se tornaram adultos, mulheres ocupando espaços cada vez mais visíveis dentro das agremiações. A cultura bate-boleira, assim, se reinventa sem perder seus vínculos com o passado.
Da periferia para o mundo!
A fotografia de Fábio Caffé, que hoje integra o acervo do Museu da Imagem e do Som, não é apenas um registro estético. Ela funciona como documento histórico, gesto político e afirmação identitária. Ao atravessar o caminho que vai do subúrbio ao museu, a imagem tensiona a própria ideia de patrimônio cultural. “É sobre quais histórias a gente escolhe preservar”, reflete o fotógrafo.
Mais do que celebrar um prêmio, a conquista de Caffé reafirma a potência da fotografia como ferramenta de escuta, visibilidade e resistência. Em um Rio de Janeiro marcado por disputas simbólicas e territoriais, o bate-bola segue pulsando como expressão viva da cultura suburbana.
O texto foi escrito por Ana Clara Ferreira sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro.
