Conhecida pela criação de imagens realistas e respostas rápidas para qualquer pergunta, a inteligência artificial (IA) avançou e agora tem um novo artifício: a produção de músicas, com direito a letra, videoclipe e até viralização no TikTok. Se antes a IA preocupava designers e escritores, agora ela acende um alerta entre profissionais da música. Afinal, quais são os impactos e os riscos dessa tecnologia para a indústria musical?
De acordo com a Deezer, plataforma de streaming francesa, mais de 50 mil músicas feitas com IA são lançadas diariamente em sua rede. Em janeiro de 2025, esse número era de 10 mil, um crescimento de 400% em menos de um ano. No Brasil, porém, os efeitos dessa tecnologia só se tornaram mais visíveis há pouco tempo.
No segundo semestre de 2025, a cantora norte-americana Taylor Swift lançou a música The Fate of Ophelia, principal faixa de trabalho de seu novo álbum, The Life of a Showgirl. Meses depois, surgiu na internet uma versão cover criada com IA, que traduziu a letra original e inseriu a voz da cantora brasileira Luísa Sonza, impressionando pela semelhança com sua voz real. Rapidamente, a versão foi lançada no Spotify e chegou a registrar mais reproduções diárias do que a gravação original.
2018: o começo de tudo
Apesar de o uso dessa tecnologia ter ganhado destaque público recentemente, a inteligência artificial aplicada à música começou a ser utilizada há alguns anos. Segundo Leonardo De Marchi, professor e pesquisador da Escola de Comunicação da UFRJ, foi a partir de 2018 que essa tecnologia deu um salto quantitativo e qualitativo. Como marco, ele aponta o lançamento de dois álbuns produzidos quase integralmente por inteligência generativa: Hello World, do projeto SKYGGGE, e I AM AI, da cantora Taryn Southern.
A partir desse momento, uma nova tendência passou a circular nas redes sociais: vídeos no YouTube e no TikTok com misturas inusitadas de artistas, simulando suas vozes por meio de IA, prática conhecida como deep fake. Madonna cantando Rolling Stones, Frank Sinatra interpretando Taylor Swift, entre outros exemplos. “Esses virais serviram para mostrar que a barreira da voz humana foi ultrapassada, método que também pode ser utilizado para fake news, por exemplo”, afirma De Marchi.
Cada vez mais, essas tecnologias acendem alertas tanto no campo musical quanto no jurídico. Do ponto de vista cultural, a produção de músicas por IA transmite a ideia de que artistas reais e criatividade humana se tornam dispensáveis. De acordo com De Marchi, as inteligências generativas produzem canções ao “reunir clichês e repetições, utilizando um repertório de músicas já existentes, cujos autores não recebem pelo uso, para criar uma nova obra”.
Os impactos jurídicos e autorais
O avanço da IA tem intensificado debates entre gravadoras, big techs e especialistas em direito autoral. Para a professora de Direito Comercial e Propriedade Intelectual da UFRJ, Kone Prieto Furtunato, não existe um “vácuo legal”, como costumam alegar empresas de tecnologia. “A legislação brasileira, assim como a da maioria dos países ocidentais, deixa claro o que configura violação de direitos autorais, independentemente do meio. Toda forma de reprodução de uma obra sem autorização é ilegal”, destaca.
O ponto que ainda gera controvérsia é a responsabilização jurídica. Enquanto a Lei de Direitos Autorais (LDA) define o que constitui infração, o Código Civil ainda provoca disputas sobre quem deve responder pelos danos: o usuário, a plataforma ou ambos. “As plataformas tendem a adotar uma postura escapista e recorrem ao Marco Civil da Internet para alegar que não são responsáveis pelos conteúdos publicados”, explica Furtunato.
No entanto, ela destaca que decisões judiciais e a doutrina jurídica vêm avançando no reconhecimento da responsabilidade das empresas em determinados casos. “A jurisprudência tem caminhado no sentido de que a responsabilidade pode recair tanto sobre o criador do conteúdo, como um influenciador, quanto sobre a própria plataforma”, salienta.
Enquanto países como a França já avançam na criação de legislações específicas, no Brasil o debate ainda caminha lentamente no Congresso Nacional, o que aumenta a pressão sobre o Judiciário e levanta questionamentos entre criadores por uma proteção mais efetiva. “As plataformas deveriam implementar filtros e exigir autorização prévia. Isso seria fundamental para estabelecer limites claros de transparência e regulação”, conclui a professora.
O texto foi escrito por Eduardo Cassar e supervisionado por Pâmella Cordeiro.
