A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, defendeu na quarta-feira, 11/2, no auditório E2 da Faculdade de Letras (FL) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a tese de doutorado Escrevivências raciais renderizadas: racismo, sexismo, interseccionalidade nas mulheres negras na cena política contemporânea. A pesquisa foi realizada no Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UFRJ, na área de concentração Interação e discurso. Anielle é a primeira ministra da Igualdade Racial do Brasil.
A defesa da tese contou com a presença do reitor da UFRJ, Roberto Medronho, e da linguista e escritora Conceição Evaristo. Além da orientadora da tese, Fátima Lima Santos, a banca examinadora foi composta pelas professoras Branca Fabrício; Janaína da Silva Cardoso; Patrícia Barone; Cecília Maria Izidoro, superintendente adjunta da Superintendência-Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (Sgaada); e pelo professor Rodrigo Borba.

“Para nós da UFRJ é um grande prazer e uma honra muito grande tê-la aqui, defendendo a tese de doutorado, sendo também uma egressa da Universidade. Esse trabalho contribui muito para o desenvolvimento científico, social e econômico desta nação, e vai muito ao encontro de um lema que adotamos na instituição: de que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, destacou o reitor.
Anielle afirmou que sua pesquisa passou por uma mudança de rumo após assumir o cargo no Governo Federal, em 2022. Inicialmente voltado para a aquisição de segunda língua entre defensores de direitos humanos, o trabalho passou a se concentrar na análise do discurso de ódio direcionado a mulheres negras, especialmente aquelas que ingressam na política. Na apresentação, Anielle mostrou, em projeção, muitos insultos que ela e outras mulheres negras e engajadas politicamente recebem diariamente.
“A gente traz a escrevivência, que é o principal método teórico da Conceição Evaristo, para fazer com que as pessoas sintam a mesma dor, que se incomodem e que percebam a dureza que é ser mulher negra nesses espaços. Essa defesa representa muito, para a gente poder sonhar com o que é muito negado muitas vezes para as mulheres negras como um todo. Se tornar doutora, com a presença da minha família, e com tantas mulheres que também se espelham na gente, é algo assim inenarrável, que ao mesmo tempo tira um peso das costas. E me faz também pensar que a gente pode chegar, mas a gente tem que permanecer”, disse a ministra.

Representantes da FL e de outras unidades da UFRJ também estiveram presentes na defesa, assim como familiares de Anielle, que ficaram bastante emocionados. Entre eles, estavam os pais da ministra, Marinete e Antônio, e a sobrinha, Luyara, filha de Marielle Franco. Após o exame da tese e audição da aluna doutoranda, a banca examinadora decidiu por unanimidade pela aprovação do trabalho, tendo em vista, segundo o parecer, as significativas contribuições teóricas dele, principalmente a proposição da sobrevivência, enquanto conceito, método e técnica de pesquisa.

“Esse parecer é tecido com afeto de quem reconhece na escrita não apenas um exercício intelectual, mas uma tecnologia de sobrevivência, uma oferenda ancestral. A tese é um território de cura e denúncia, onde a linguística aplicada se transmuta em uma pedagogia da desobediência. Não analisa o discurso de ódio; ela derrete o ferro das estruturas coloniais com a força de Ogum, forjando novas ferramentas para que mulheres negras não cheguem ao poder apenas por chegar, mas nele permaneçam inteiras”, enfatizou Cecília Maria Izidoro durante a banca.
















