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Meio Ambiente

Flor de Carajás ajusta taxas de crescimento e germinação que podem evitar a própria extinção

Pesquisadores evidenciam a importância de otimização de planos de conservação focados nas necessidades das populações de cada hábitat

Rara e encontrada exclusivamente nos campos rupestres ferruginosos na Floresta Nacional de Carajás, ao sul do Pará, a Flor de Carajás (Ipomoea cavalcantei) é uma espécie em extinção que, pela coloração vermelha em contraste na paisagem, se tornou bandeira de preservação da biodiversidade amazônica em uma região sob constante pressão da exploração mineral. Agora, um estudo sobre a planta pode orientar planos de conservação para essa e outras espécies endêmicas. O trabalho é de uma cientista do departamento de Ecologia do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao lado de pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV). O artigo a respeito da flor foi publicado no dia 12/2 na revista New Phytologist.

No estudo, os pesquisadores acompanharam o comportamento de centenas de plantas, entre 2022 e 2024, em duas áreas específicas existentes na mesma região. O objetivo era  avaliar crescimento, sobrevivência, recrutamento e produção de sementes enquanto sensores instalados no solo registravam as variações de temperatura e luz. Essas áreas de afloramentos de rochas ferruginosas, batizadas como cangas, podem ser grandes clareiras ou ser cobertas por vegetação arbustiva. “Em ecologia, chamamos de compensação demográfica a análise desse mecanismo de resiliência das espécies em ambientes diferentes, mesmo quando ocorrem em uma região única”, explicou a professora Rita de Cássia Quitete Portela, a cientista do IB responsável pela pesquisa.

Enquanto avaliava o comportamento nas cangas abertas ou arbustivas, a equipe realizava experimentos controlados de germinação, quebra de dormência e estabelecimento de plântulas (embriões vegetais já desenvolvidos que emergem da semente), expondo sementes e plantas jovens a diferentes regimes que simulam as condições naturais de seus hábitats. Os resultados comparativos dessas populações mostraram que, na canga aberta, marcada por altos níveis de radiação, alta incidência de luz e temperaturas elevadas, as sementes da Flor de Carajás exibiram maior proporção de germinação e, consequentemente, maior número de plântulas, mesmo atingindo menores tamanhos na fase adulta. Já na canga arbustiva, com as condições climáticas mais amenas, as plantas apresentaram maiores taxas de crescimento e produção de sementes, embora apenas um número reduzido de sementes tenha conseguido germinar e se estabelecer. 

Ações estratégicas distintas

A compensação demográfica demonstrou, segundo Portela, que é preciso olhar  atentamente para a preservação de diferentes grupos populacionais da mesma espécie. Assim, mesmo em ambientes “estressantes”, como na canga aberta, não se devem desprezar as ações para a conservação, pois eles podem sustentar populações viáveis por meio de estratégias distintas.

Segundo uma das autoras do estudo, Talita Zupo, do ITV, os achados revelaram que populações em ambientes contrastantes apresentam crescimento populacional semelhante, mas sustentado por conjuntos diferentes de taxas vitais. “Em cangas abertas, ações que favoreçam recrutamento e estabelecimento inicial podem ser mais eficazes, enquanto a manutenção da sobrevivência e do crescimento de indivíduos adultos pode ser mais crítica em cangas arbustivas”, exemplificou a pesquisadora.

De acordo com Carolina Carvalho, também autora do trabalho, a compensação demográfica pode permitir que a espécie mantenha o crescimento populacional semelhante mesmo quando as condições ambientais mudam: “Desde que as mudanças afetem diferentes taxas vitais de forma assimétrica, como reduzir o crescimento, mas favorecer o recrutamento, por exemplo”.

“Todavia, há um limite para a exposição das espécies às ações antrópicas [intervenções humanas] que modificam o meio ambiente. As temperaturas muito elevadas, com as mudanças climáticas, ou condições fora dos limiares fisiológicos podem comprometer várias taxas vitais simultaneamente e reduzir a capacidade de sobrevivência”, destacou  Portela. O trabalho dos pesquisadores evidencia, assim, a importância de otimização de planos de conservação focados nas necessidades das populações de cada hábitat, preservando mosaicos ambientais.