Categorias
Memória Sociedade

Casa do Noca: UFRJ apoia centro cultural para preservar, em vida, o legado de Noca da Portela

Projeto nasce das visitas da SGAADA ao compositor e propõe registrar sua trajetória, preservar acervo inédito e aproximar universidade e cultura do samba

Na semana que antecede o carnaval, quando o Rio volta a respirar samba em cada esquina, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) reforça um compromisso que vai além da avenida: o de reconhecer a cultura popular como memória, conhecimento e patrimônio vivo. É nesse espírito que ganha força o projeto Centro Cultural Casa do Noca, iniciativa que busca preservar e difundir a trajetória de Noca da Portela, cujo nome de batismo é Osvaldo Alves Pereira, compositor, cronista das periferias e um dos grandes baluartes do samba.

“Esse é um projeto que tem tudo a ver com a negritude, com a cultura popular e tem o integral apoio desta Reitoria”, afirma o reitor Roberto Medronho, parceiro de samba e amigo do compositor. “A gente precisa revitalizar esses baluartes das escolas de samba, que muitas vezes ficam esquecidos, e resgatar o acervo cultural.”

O projeto prevê a implantação do Centro Cultural no Engenho de Dentro, bairro onde Noca vive, em um espaço a ser destinado pela Prefeitura do Rio, e nasce de visitas feitas pela Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA) à casa do sambista. A proposta é criar uma ambiência intimista, com a réplica de dois ambientes simbólicos da casa do sambista (a sala de troféus e o quintal), além de galeria de exposições, pequeno auditório para filmes e documentários e salas para oficinas.

Entre as atividades previstas estão oficinas de percussão, indumentária de carnaval, gestão de pequenos empreendimentos culturais, além de cursos sobre a história do samba no Rio e suas conexões políticas e comerciais. O centro também pretende oferecer programação regular com exposições, bate-papos, visitas guiadas e apresentações no “Quintal do Noca”, com bistrô e preços populares, articulando cultura, formação e sustentabilidade do espaço.

Noca recebeu da UFRJ o título de doutor honoris causa em 2/6/2022, em cerimônia presencial que consolidou uma homenagem concedida inicialmente em agosto de 2020, de forma virtual, devido à pandemia de Covid-19.

Compositor Noca da Portela | Foto: Fábio Caffé

Memória em vida

Para Denise Francisco de Góes, superintendente geral da SGAADA, o coração do projeto está em uma escolha simples e, ao mesmo tempo, rara no Brasil: homenagear antes que seja tarde. “O projeto Casa do Noca parte da ideia de memória em vida”, explica. Para ela, Noca é um griot, guardião de histórias transmitidas pela oralidade — “uma enciclopédia ambulante” capaz de narrar, com detalhes e emoção, diferentes etapas de sua trajetória: o jovem sambista, o sujeito político e militante e o compositor consagrado da Portela.

Filha do compositor Jaci da Portela, Denise chama atenção para um padrão recorrente no universo do samba: a consagração no carnaval e o apagamento logo depois. “Os compositores ganham sambas, mas depois vivem um ostracismo terrível, muitas vezes até dentro das próprias escolas. A idade vai afastando, e o afastamento vira esquecimento.”

O Centro Cultural, diz ela, quer fazer o movimento inverso: recolocar Noca no centro, com ele vivo, e transformar sua história em símbolo de um cuidado mais amplo. “A gente não quer homenagem póstuma; quer que ele receba em vida todas as homenagens possíveis.”

A convivência entre Noca e o reitor Roberto Medronho — parceiros de samba ao longo dos anos — ajudou a aproximar a Universidade do projeto e consolidar a iniciativa como parte do futuro Centro de Memória da SGAADA. A ideia é que Noca seja porta de entrada para algo maior: um modelo que inspire outras universidades, agremiações e instituições a registrarem e valorizarem seus próprios baluartes. “Porque as escolas só crescem com seus sambas inesquecíveis”, lembra Denise.

Para Cecília Izidoro, superintendente adjunta da SGAADA, o Centro Cultural Casa do Noca também representa um espaço de reconhecimento da cultura negra como produção de conhecimento. “O Centro Cultural Casa do Noca não é apenas um lugar de memória, mas um espaço de afirmação e de cuidado. A poesia do Noca nasce da experiência negra, do samba, do tambor e da vida coletiva, e atravessa a educação, a saúde, a política e a arte. É um projeto que reconhece o samba como saber e a universidade como um lugar aberto para diferentes formas de conhecimento, onde memória, ancestralidade e criação cultural podem se encontrar”, diz Izidoro.

Para o compositor e sambista Diogo Noca, neto de Noca da Portela, o projeto também representa o envolvimento direto da família na preservação do legado do artista. “O Centro Cultural Casa do Noca será um projeto de extensão que aproxima a universidade da cultura ancestral negra e da população. Para a nossa família, é uma alegria e uma honra participar desse processo, contribuindo com ideias e dando todo o suporte necessário”, afirma. Segundo ele, o espaço deverá abrigar o acervo do sambista e o lançamento do documentário sobre sua trajetória. “Ainda estamos buscando o local ideal para a Casa do Noca, porque queremos um espaço que possa receber o público e celebrar a vida e a obra do meu avô.”

Samba como conhecimento

A iniciativa é abraçada pela SGAADA como projeto inaugural do Centro de Memória, reforçando o diálogo entre universidade e cultura popular. Para a mestra em Ciências Sociais e Relações Internacionais Andréa Pestana, uma das responsáveis pela execução e captação de recursos, a Casa do Noca nasce do encontro entre afeto, urgência e responsabilidade pública.

“A gente chegou lá e constatou uma riqueza de acervo, inclusive com músicas inéditas, guardadas de forma muito frágil”, relata. “O primeiro impulso”, conta Andréa, “foi transformar o projeto em um espaço de circulação de saberes, onde a universidade não apenas leva conhecimento, mas também é atravessada por ele.”

Acervo na Escola de Música

Um dos passos concretos já encaminhados pelo projeto é o cuidado com o acervo de Noca. Parte do material deverá ser preservado na Escola de Música da UFRJ, onde haverá espaço para conservação, catalogação e pesquisa.

O documentário sobre o sambista também aparece como prioridade imediata. A proposta prevê gravações com parceiros e diferentes gerações de compositores, além de registros em escolas por onde sua história passou. A equipe pretende intensificar as agendas após o carnaval.

Ensino, pesquisa e comunidade no mesmo quintal

Bibliotecária documentalista e voluntária responsável pelo levantamento e conservação do acervo, Maria do Perpétuo Socorro destaca o potencial acadêmico do projeto. “O Centro Cultural Casa do Noca vai funcionar como um espaço integrador do ensino, da pesquisa e da extensão”, afirma.

O projeto também prevê ações formativas com participação de estudantes e bolsistas de diferentes áreas — da comunicação às artes, da arquitetura à gastronomia e à saúde — alinhando cultura, bem-viver e acessibilidade.

A Casa do Noca nasce das visitas feitas à casa do compositor pela SGAADA, marcadas por conversas longas, histórias contadas com calma e lembranças que misturam riso, luta e invenção. No samba, como o próprio Noca diz, há resposta e revanche poética:  “No samba eu me vingo do mal que a vida me faz”. Ao transformar essa vida em centro cultural, o projeto propõe mais do que uma homenagem: afirma que o samba é arquivo, é aula e é tecnologia ancestral de transmissão de saberes — e que a universidade pode aprender com ele agora, com o autor presente, ouvindo, contando e sendo celebrado.