A Casa da Pedra, polo avançado do Instituto de Geociências (Igeo) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no sul do Ceará, recebeu um presente antecipado pelos 10 anos de existência. A Unesco Most Bridges reconheceu a iniciativa, na última semana, 5/2, por ser exemplo de como a integração de diversos sistemas de conhecimento das ciências e das humanidades pode abordar desafios complexos de sustentabilidade. Outras três instituições brasileiras, o Instituto Terrazul, do Rio de Janeiro, a Universidade do Vale do Rio Doce (Univale), de Minas Gerais, e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), também estão na lista.
A Unesco Most Bridges é uma coalizão transdisciplinar de ciência da sustentabilidade, impulsionada pelas humanidades, com foco na resolução dos problemas sociais destacados pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). É a primeira vez que ela aponta 11 instituições espalhadas pelo planeta que se enraizaram nas realidades sociais e culturais locais a fim de fomentar comunidades prósperas e futuros sustentáveis.
Do ponto de vista do reitor da UFRJ, Roberto Medronho, o reconhecimento internacional concedido à Casa da Pedra reafirma o compromisso da instituição com uma ciência que dialoga com a sociedade, valoriza os saberes locais e contribui para enfrentar desafios globais, como a sustentabilidade e a preservação cultural. “Esse prêmio demonstra a importância de iniciativas que integram Universidade e comunidade, articulando conhecimento científico, humanidades e tradições culturais para produzir transformações concretas nos territórios. A Casa da Pedra é um exemplo inspirador de como a universidade pública pode atuar de forma colaborativa, inclusiva e socialmente comprometida”, disse Medronho.
De acordo com o secretário municipal de Cultura, Turismo e Romaria de Santana do Cariri, Ypsilon Félix, a Casa da Pedra tem desenvolvido ao longo dos anos um trabalho fundamental de valorização do patrimônio paleontológico, aproximando a Universidade da comunidade e promovendo conhecimento de forma acessível e transformadora:
“É um equipamento que simboliza o encontro entre ciência, educação, memória e pertencimento. Para Santana do Cariri, esse reconhecimento reforça nossa identidade como território de relevância internacional. Para o Ceará, projeta ainda mais a importância do Cariri como polo de pesquisa, preservação ambiental e desenvolvimento cultural sustentável. A Casa da Pedra representa, sobretudo, uma ponte entre o saber acadêmico e a realidade local, despertando nas novas gerações o interesse pela ciência e fortalecendo o sentimento de pertencimento à nossa história e ao nosso território.”
O diretor do Igeo, Edson Farias Mello, considera a indicação muito importante, em especial porque se deu por uma ação extensionista, oferecendo a oportunidade de projetar nacional e internacionalmente as atividades da Casa da Pedra. “O reconhecimento pode ter consequências para a captação de recursos no campo dos projetos de extensão, onde considero que a Unesco depositou o seu olhar. O apoio logístico da Casa da Pedra, nesse espaço de interação local e com o mundo, agora é impulsionado pelo selo da Unesco”, afirmou.
Surgimento com reúso de pedras
Inaugurada no dia 23/6/2016, a Casa da Pedra surgiu da iniciativa do professor Ismar de Souza Carvalho, do Igeo, que hoje é diretor da Casa da Ciência, mas na época coordenou o projeto. Ela fica no distrito de Inhumas, município de Santana do Cariri, no sul do estado do Ceará e distante 532 quilômetros de Fortaleza. Lá está a Bacia do Araripe, com rochas sedimentares que afloram na superfície e origem no Período Cretáceo (aproximadamente 145 a 66 milhões de anos atrás), quando o Oceano Atlântico surgiu entre a América do Sul e a África, após ruptura do continente Gondwana. A região é um dos principais depósitos fossilizados do mundo e abriga o Geopark Araripe, o primeiro Geoparque Mundial da Unesco nas Américas (reconhecido em 2006).
O objetivo inicial da Casa era montar um centro de referência com programa educacional para que alunos da Universidade tivessem contato com atividades de pesquisa in loco nas áreas de Geologia, Geografia e Meteorologia. A construção foi erguida com pedras de rejeito da atividade extrativa das próprias rochas sedimentares carbonáticas (Pedra Cariri) e com mão de obra da região. Ela possui cerca de mil metros quadrados de área, com 13 apartamentos com banheiros, cada um podendo hospedar, em média, cinco pessoas. Conta ainda com um espaço em comum para reuniões e um redário.
Aos poucos a interação dos estudantes com a população local possibilitou a aproximação com uma realidade diversa, além de transformar o lugar em um centro de atividades artísticas e culturais: “Importa destacar que esta interação alcança outro nicho de pesquisa de forte expressão na região, em particular em Nova Olinda, onde está instalada a sede da Fundação Casa Grande. Deve-se em grande monta essa visibilidade [da Casa da Pedra] ao trabalho do professor Ismar naquela região por meio de uma ação extensionista”, lembrou o diretor do Igeo.
Integração com comunidade trouxe reconhecimento
Para Carvalho, a Casa da Pedra promoveu uma integração tão grande com a comunidade da região que até mesmo a construção tradicional, com resíduos encontrados nas áreas das pedreiras da região, passou a ser valorizada por todos. “Algo que era considerado antigo, sem uso, voltou a ser utilizado nas construções mais modernas, em pequenas lojas, restaurantes e pontos de comércio, sendo um exemplo de sustentabilidade. O projeto, que começou vinculado ao treinamento técnico de nossos alunos, mostrou-se muito importante do ponto de vista do reúso dos materiais naturais”, contou o professor do Igeo.
Todos esses elementos da integração progressiva com a comunidade passaram a ser algo que se aproximava muito dos objetivos do Acordo de Paris, acerca das mudanças climáticas, segundo Carvalho, e com as metas a serem atingidas nos anos de 2030, 2040 e 2050. “O que era feito inicialmente sem muita clareza nessa direção passou a ter conexão com interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Acredito que isso possibilitou esse reconhecimento da Unesco acerca da importância desse nosso projeto”, afirmou.
Segundo ele, o fato de a iniciativa ter sido selecionada é motivo de orgulho para a Universidade, pois muitas instituições ligadas a diferentes grupos sociais, políticos e econômicos gostariam de receber a distinção da Unesco. “É algo muito especial que temos que valorizar e ampliar as ações e cursos que atuam na Casa da Pedra — Hoje são essencialmente os cursos da Biologia, da Belas-Artes, da Geologia, Geografia, Meteorologia e Bacharelado BCMT — para a Universidade como um todo. A experiência que tivemos até agora foi muito positiva, com um custo baixo e um retorno da pesquisa científica, do treinamento de novos profissionais para o mercado e do entendimento da comunidade muito relevantes”, concluiu Carvalho.
