Matéria escrita por Ana Carolina Correa (CCS/UFRJ) e Pâmella Cordeiro (Diretoria de Jornalismo e Mídias Sociais).
A campanha Janeiro Branco, criada no Brasil em 2014, utiliza o simbolismo do início do ano para convidar a sociedade a refletir sobre saúde emocional e qualidade de vida. Através da metáfora de uma “folha em branco”, o movimento incentiva que as pessoas escrevam novas histórias voltadas ao cuidado com a mente, combatendo estigmas e incentivando a busca por ajuda profissional. Alinhada a esse propósito, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mantém diversas iniciativas que apoiam a comunidade acadêmica em questões de saúde mental. Essas ações permeiam diferentes instâncias da instituição, buscando oferecer suporte preventivo e acolhimento diante do aumento de casos de ansiedade e estresse no ambiente universitário.
Um recorte preliminar, feito pela Coordenação de Projetos Especiais (CPE) do Centro de Ciências da Saúde (CCS), com a participação de 1.749 estudantes de graduação de diferentes cursos do Centro, revelou que 55,3% não classificaram sua saúde como boa ou muito boa; 34,6% relataram já ter recebido um diagnóstico médico prévio de depressão; 35,2% contaram ter vivenciado algum pensamento suicida nos 12 meses anteriores à pesquisa e 20,2% mencionaram pensamentos relacionados ao planejamento de suicídio.
Parte do Programa de Saúde do Estudante Universitário, a pesquisa, idealizada pelo professor Antônio Ledo, da Faculdade de Medicina (FM), vem sendo desenvolvida desde 2023 com apoio do Laboratório Multidisciplinar de Pesquisa em Epidemiologia e Saúde (Lampes) da FM. A iniciativa busca avaliar a frequência de doenças crônicas não transmissíveis e comportamentos de risco à saúde entre alunos do CCS. Patrícia Risso, coordenadora da CPE e vice-coordenadora do Lampes, enfatiza que os dados autorreferidos pelos estudantes apontam para a importância de fortalecer e ampliar estratégias institucionais de acolhimento, escuta e apoio psicossocial, respeitando a diversidade das demandas presentes no ambiente universitário.

“Nessa perspectiva, avançar na consolidação da Universidade como um espaço promotor de saúde significa reconhecer que o cuidado com a saúde mental e o bem-estar não se restringe a ações individuais ou assistenciais, mas se expressa no modo como a instituição organiza seus processos, relações e práticas cotidianas”, conta Risso, também docente da Faculdade de Odontologia (FO).
Cuidado em rede: saúde mental e permanência estudantil
Dentro dessa rede de suporte, destaca-se também a atuação da Divisão de Saúde do Estudante (Disae), vinculada à Pró-Reitoria de Políticas Estudantis (PR-7). Em entrevista sobre o tema, a psicóloga e diretora substituta da Disae, Nathalia Kimura, explica que o setor trabalha com as diretrizes do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnais), focando na viabilidade da trajetória acadêmica. Para ela, que possui doutorado em saúde mental pelo Instituto de Psiquiatria (Ipub), o apoio institucional é decisivo para combater a evasão escolar decorrente de sofrimentos psíquicos. “Uma coisa é o estudante entrar na universidade, outra é permanecer na universidade, visto que a gente tem desigualdades sociais no nosso país e que muitas das vezes vão inviabilizar a permanência de alguns estudantes”, afirma a psicóloga.
O acolhimento oferecido pela Disae busca compreender o estudante de forma integral, considerando que fatores externos influenciam diretamente o desempenho escolar. A principal porta de entrada para esse serviço é o Grupo de Recepção, realizado todas as terças-feiras, às 13h, por uma equipe multiprofissional. Durante os atendimentos, a equipe busca desmistificar a ideia de que o cuidado emocional se resume a diagnósticos ou medicamentos, voltando o olhar para a rotina do aluno. Kimura ressalta que o bem-estar pode estar ligado a escolhas práticas do cotidiano universitário, como a das aulas para montar a grade do semestre.

A diretora enfatiza ainda que a saúde mental não pode ser tratada de forma isolada, mas sim como um esforço conjunto que envolve professores, coordenadores e as unidades acadêmicas. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento e queda no rendimento em disciplinas que o aluno antes gostava são sinais de alerta que demandam atenção. Para a especialista, a universidade precisa acolher a bagagem pessoal de cada indivíduo para ser efetiva em suas ações de apoio. “Essas pessoas trazem todas essas bagagens, e isso vai atravessar o cotidiano da sala de aula, sim, porque você não esquece a sua história”, pontua Kimura, que reforça que o ambiente de ensino deve ser receptivo para que o trabalho técnico da assistência tenha sucesso: “Se eu faço aqui o meu trabalho, mas ele volta a uma sala de aula hostil, o nosso trabalho vai ser só um paliativo”.
