Para reforçar a importância da detecção precoce dos casos de hanseníase, divulgar informações que ajudem a população a identificar os sinais e sintomas, além de sensibilizar profissionais de saúde para a suspeição de casos, uma equipe multidisciplinar do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) estará na última semana do mês aderindo à campanha anual Janeiro Roxo, que foi instituída há uma década pelo Ministério da Saúde. Todavia, o trabalho na unidade de saúde é contínuo, capacitando a rede pública em uma rotina de orientação, divulgação de sintomas e realização de visitas domiciliares.
De acordo com a professora Maria Kátia Gomes, da Faculdade de Medicina da UFRJ, a equipe multidisciplinar reúne estudantes e profissionais do Departamento de Medicina em Atenção Primária à Saúde e dos serviços de dermatologia, fisioterapia, terapia ocupacional, neurologia e ortopedia do HUCFF. “Somos uma referência para todo o estado do Rio de Janeiro, resolvendo pendências assistenciais não solucionadas pela rede pública de saúde, como, por exemplo, as neurites de repetição (reações orgânicas ao tratamento) e os diagnósticos difíceis e mais complexos”, informou.
Para Kátia, o papel da UFRJ é capacitar a rede com conhecimentos adquiridos em pesquisas da Universidade e de outros centros do Brasil inteiro, para que o diagnóstico possa ser feito precocemente e de maneira mais segura. “Além disso, o objetivo é fazer com que futuros profissionais de saúde exerçam a medicina comprometidos não apenas em tratar e prescrever medicamentos, mas olhar para o problema de saúde, entender o mecanismo que origina a doença, entender como em determinadas regiões alguns manifestam a doença e outros não”, disse.
A hanseníase é uma doença que tem cura. O tratamento é realizado com uma associação de antimicrobianos, denominada poliquimioterapia única (PQT-U), que elimina a bactéria Mycobacterium leprae. “A primeira dose do tratamento acaba com 99,9% dos bacilos de Hansen (homenagem ao médico Gerhard Hansen, que identificou a doença em 1873), de acordo com toda a literatura mundial”, destacou a professora Kátia Gomes.
Ao lado da Índia e da Indonésia, o Brasil segue como um dos três países que mais concentram novos casos de hanseníase no mundo. Juntos, eles são responsáveis por quase 80% das notificações globais, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), que em setembro do ano passado divulgou os dados mais recentes sobre a doença. “É uma doença que tem a ver com desigualdades econômicas, com pessoas vivendo aglomeradas em habitações sem ventilação. E a moradia é uma política que não depende da saúde, depende da evolução da economia do país. Enquanto isso não mudar, as pessoas vão continuar adoecendo sempre”, disse.
Para a Sociedade Brasileira de Hanseníase (SBH), há uma endemia oculta de hanseníase no país, pois é possível que haja de três a cinco vezes mais casos sem diagnóstico e nem tratamento em relação aos registrados. O motivo é a falta de treinamento adequado de profissionais de saúde, em especial em regiões periféricas. A prioridade para o Brasil é ampliar estratégias de diagnóstico precoce, permitindo o rápido acesso às terapias e ações de reabilitação. “Em primeiro lugar, é essencial identificar todo doente que transmite. É preciso treinar os técnicos e os alunos de graduação para identificar as pessoas rapidamente”, afirma Kátia.
Os principais sinais e sintomas da hanseníase em que as pessoas devem se atentar são as áreas da pele com manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou acastanhadas que não coçam e não doem pois têm diminuição de sensibilidade ao toque, à dor, ao calor e ao frio. Na região, há rarefação de pelos, anidrose (pele sem suor) e áreas de dormência. O surgimento de incapacidades físicas é um dos aspectos mais importantes da doença, o que pode levar ao estigma e discriminação do doente. “Nosso desafio é identificar todo doente multibacilar. Daí, é só tratar para essa pessoa ficar curada, evitando a transmissão, e também que ela fique sem sequelas”, concluiu.
