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Fundanga: música, arte e ciência na UFRJ

O projeto trabalha com filosofia popular brasileira e aposta na música como ferramenta de produção científica na Universidade .

Em um contexto histórico marcado por disputas simbólicas em torno do conhecimento, da cultura e da religião no Brasil, a universidade pública enfrenta um desafio: como reconhecer, produzir e difundir saberes que não se originaram em espaços formais, mas que sustentam, há séculos, a vida cultural do país? É nesse ponto de fricção, entre a Academia e os saberes populares, que se insere o projeto Fundanga, que articula pesquisa acadêmica, música e filosofia popular brasileira. O projeto reúne estudantes de graduação e pós-graduação, além de pesquisadores de outras instituições. Mais do que tematizar esses saberes, o projeto propõe a escuta comprometida com aquilo que emerge das ruas, dos terreiros, das festas e da oralidade cotidiana, sem reduzi-los à condição de meros objetos de estudo.

O Fundanga está diretamente ligado à trajetória intelectual do professor Rafael Haddock-Lobo, docente de História da Filosofia no Departamento de Filosofia e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há cerca de uma década, o pesquisador desenvolve investigações voltadas ao que denomina Filosofia Popular Brasileira, campo de reflexão que questiona os limites da tradição filosófica ocidentalizada e a centralidade eurocêntrica que estrutura a formação acadêmica no país. “Desde 2016, venho tentando firmar a ideia de uma filosofia popular brasileira, uma filosofia que não é feita na Academia, mas por sambistas, por gente do santo, por saberes das ruas e dos terreiros”, afirma o pesquisador.

Essa perspectiva orienta tanto sua produção acadêmica quanto o surgimento do projeto musical. O Fundanga não nasce como um desvio da pesquisa universitária, e sim como um de seus desdobramentos sensíveis. “O Fundanga é um projeto paralelo à minha pesquisa acadêmica, mas ele nasce diretamente dela”, explica o professor. Parte dessas reflexões aparece em artigos e ensaios publicados na HH Magazine, nos quais discute a presença de sistemas filosóficos em manifestações culturais populares, como o samba, as religiões de matriz africana, as encruzilhadas e a oralidade cotidiana.

A ideia do projeto consolidou-se a partir do encontro entre Haddock-Lobo, o historiador e compositor Luiz Antônio Simas e o pedagogo Luiz Rufino. Do intercâmbio intelectual entre os três, a conversa transformou-se em música. A oralidade, a escuta e a musicalidade passam a operar não apenas como linguagem estética, mas como método de reflexão e produção de conhecimento. Nesse processo, a música deixa de ser ilustração de conceitos para se tornar espaço de elaboração filosófica.

Da filosofia ao feitiço: a origem de um nome

Fundanga é uma palavra originária do banto, dialeto africano, associada à pólvora, ao feitiço, àquilo que explode e inaugura movimento. “A fundanga é esse feitiço explosivo, essa pólvora. Era a ideia de um começo”, revela o professor. Antes de nomear o projeto musical, o termo aparece como imagem filosófica no livro Arruaças: Uma Filosofia Popular Brasileira, escrito durante a pandemia, em parceria com Simas e Rufino. Na obra, a fundanga representa o estopim dessas filosofias que emergem das experiências coletivas, da festa, da rua e do terreiro; uma faísca capaz de romper com ordens estabelecidas e abrir outras formas de pensar e existir.

Pesquisa acadêmica além da universidade

Produzido em plena pandemia de Covid-19, Arruaças adota uma escrita curta, acessível e atravessada por referências da cultura popular. A escolha, segundo Haddock-Lobo, causa estranhamento dentro da própria Academia. “A gente escreveu para qualquer um ler. É um livro que os acadêmicos, muitas vezes, têm dificuldade de entender, porque não têm acesso às gírias das ruas, aos termos populares”, afirma. “Isso também mostra que esses saberes são complexos. Não é qualquer um que entende.”

Essa concepção se articula a uma crítica direta à ideia de que a filosofia se constrói exclusivamente a partir de textos clássicos europeus. Inspirado em autores como Walter Benjamin e Guimarães Rosa, o professor propõe uma filosofia que se faz no campo da experiência e da escuta. “O filósofo costuma ficar preocupado com bibliotecas e escritórios”, observa. “Mas o Benjamin escrevia sobre as ruas de Paris, sobre a vida noturna. O Guimarães Rosa anotava sons, sabores e modos de falar. Isso me interessa muito: aprender a ouvir uma produção de pensamento que não está na Academia, mas que é extremamente potente.”

Assim, a oralidade não aparece como um problema metodológico, mas como desafio epistemológico. “A grande questão é como a Academia vai lidar com a oralidade, respeitando-a”, diz o pesquisador. “Sem universalizar, sem transformar tudo em conceito fechado.” Para ele, cada tradição produz seus próprios sistemas de sentido. “A sabedoria de um terreiro é diferente da de outro. Nenhuma está certa ou errada.”

Racismo religioso e epistemológico 

Ao propor esse deslocamento, o projeto também se insere em um campo marcado pelo racismo religioso e epistêmico. Segundo Haddock-Lobo, há uma hierarquia de saberes que deslegitima produções oriundas das culturas populares e das religiões de matriz africana. “Existe um racismo acadêmico que afirma que esses saberes não têm dignidade como produtores de conhecimento. Eles são aceitos apenas como objetos de estudo, não como sujeitos produtores de filosofia”, conclui. 

Essa deslegitimação se manifesta, de acordo com o pesquisador, na dificuldade de reconhecer que expressões culturais populares elaboram sistemas éticos complexos. “Quando Dona Ivone Lara escreve ‘Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho’, há ali um código ético profundo, baseado no respeito aos mais velhos, a quem veio antes”, exemplifica. Ainda assim, iniciativas como o Fundanga seguem enfrentando resistência no campo filosófico. “Já cansei de ouvir que o que faço não é mais filosofia”, relata. “Essa é a primeira violência: descaracterizar, retirar do campo científico e relegar a um lugar inferior.”

Música, oralidade e escuta como método científico 

O processo criativo do projeto musical expressa essa recusa ao distanciamento entre teoria e experiência. As canções não nascem de textos acadêmicos previamente escritos, mas da melodia. “Essa foi a grande loucura”, conta Haddock-Lobo. “O Simas me mandava uma melodia, e eu tinha que treinar o ouvido.” A escrita das letras envolve uma pesquisa intuitiva, sonora e espiritual. “Quando vou escrever sobre uma entidade, peço permissão. Acendo uma vela, peço intuição”, explica. “Não há como realizar esse processo mantendo um distanciamento científico total.”

As músicas costumam ser finalizadas em curto intervalo de tempo, e as gravações reúnem artistas consagrados da música brasileira, como Rita Benneditto, Mônica Salmaso e Fabiana Cozza, além de pesquisadores, músicos e produtores,  muitos deles vinculados à universidade. Atualmente, cerca de 15 pessoas participam direta ou indiretamente do conjunto de pesquisas, orientações acadêmicas e trocas intelectuais que orbitam o projeto, incluindo estudantes de graduação e pós-graduação e pesquisadores de outras instituições.

Para além de um projeto artístico, o Fundanga busca afirmar-se no campo da extensão universitária. Um de seus objetivos é estabelecer diálogo com escolas públicas, utilizando a música como ferramenta pedagógica para abordar temas como cultura, história, filosofia e religiosidade brasileira. “Ainda não conseguimos fazer com que as leis de ensino de cultura africana e indígena sejam plenamente aplicadas”, observa o pesquisador. “Nesse sentido, a música pode ser uma porta de entrada.” Segundo ele, “com sete músicas, já dá para sentar com uma turma de dez adolescentes e conversar”. Contemplado recentemente com a bolsa Cientista do Nosso Estado, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), o projeto deve intensificar ainda mais sua interlocução com a comunidade externa.

No centro da proposta está também a reflexão sobre o “desencantamento do mundo”, conceito formulado por Max Weber para descrever a perda de sentido simbólico nas sociedades modernas. O pesquisador ressalta que a filosofia popular e a música operam como forças de resistência a esse processo. “Aqui, apesar de toda a violência colonial, sobrou muita coisa. Sobrou encanto”, afirma. “A música pode fazer brilhar essas luzes que estão sendo abafadas política e culturalmente.”

O encantamento 

Mais do que oferecer respostas engessadas, o Fundanga propõe-se a abrir caminhos. “O meu objetivo é estar atento às filosofias que encantam”, diz o pesquisador. “Diante desse rolo compressor que tenta apagar corpos e saberes, reencantar também é um gesto político.”

O Fundanga não se limita a um projeto musical. Trata-se de uma estratégia de circulação de conhecimentos, de experimentação epistemológica e de aproximação entre a universidade pública e saberes populares historicamente silenciados. Ao levá-los para o interior de uma das maiores universidades do país, a iniciativa não os converte em objetos de análise distanciada, mas os afirma como práticas vivas de pensamento, criação e produção de mundo. Pensar, nesse contexto, é também ouvir, cantar, respeitar e reconhecer que o conhecimento nasce, muitas vezes, do corpo, da rua e do terreiro.

*  O texto foi escrito por Ana Clara Ferreira sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro.