A conservação do patrimônio cultural é essencial para a preservação da história. Esse é o foco da exposição Interlocuções: arte, arquitetura e restauração, que reúne mais de 80 obras do Museu D. João VI da Escola de Belas Artes (EBA), da Escola de Música (EM) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ, todas restauradas por alunos e egressos da Universidade. A mostra é resultado de um projeto que vem sendo desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisas e Estudos para Conservação e Restauração de Esculturas (LaPECRE) há dois anos e conta com a participação de mais de 50 profissionais. Aberta à visitação até julho de 2026, na EBA, a exposição compartilha com o público a complexidade e a diversidade do processo de conservação e restauração de esculturas, bem como técnicas e metodologias desenvolvidas durante o projeto e a importância dos profissionais da área no processo de preservação da história.
Além do LaPECRE, o projeto Conservação e Restauração de Bens Móveis e Integrados Escultóricos do Museu D. João VI, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e da Escola de Música, iniciado ainda em 2023, que resultou na exposição, contou com a colaboração do grupo A Preservação de Acervos Escultóricos. Ambos são coordenados por Benvinda de Jesus, professora da EBA e do Programa de Pós-Graduação Profissional em Projeto e Patrimônio da FAU, com apoio de docentes e alunos da UFRJ. A exposição traz um compilado do trabalho desenvolvido pelos pesquisadores nos últimos anos na conservação e restauração do patrimônio cultural da Universidade. O grupo une novas tecnologias e pesquisas desenvolvidas com base em princípios éticos, critérios técnicos e metodologias interdisciplinares. Além da participação dos alunos, egressos e profissionais do curso de Conservação e Restauração da UFRJ, a montagem contou com profissionais de programação visual e Design de Interiores da EBA.
Larissa Duarte do Nascimento, pesquisadora do projeto e colaboradora da exposição, graduanda em Conservação e Restauração pela UFRJ, conta que, depois de dois anos de pesquisa, houve mais um mês de trabalho diário na montagem da exposição. Desde a inauguração, a mostra já recebeu mais de 500 visitantes.

Técnicas e metodologias
Em Interlocuções: arte, arquitetura e restauração,estão expostas mais de 80 obras de diferentes períodos da história da arte, como barroco, clássico e neoclássico. Entre elas, está a escultura de D. Pedro II, esculpida por Ferdinand Friedrich August Pettrich, em 1855, e que faz parte do acervo do Museu Dom João VI da EBA. A obra foi restaurada ao vivo durante seis meses por restauradores externos à UFRJ, ex-alunos e bolsistas de graduação no segundo andar do Edifício Jorge Machado Moreira (JMM), na Cidade Universitária. Para realizar o restauro dessas obras, é necessário um longo processo de pesquisa interdisciplinar, unindo conhecimentos não só de História da Arte, mas também de Química, Física, Biologia, entre outras áreas. A interdisciplinaridade é essencial para que consigam realizar etapas como limpeza mecânica da obra, limpeza química e reintegração do volume – que visa recuperar a profundidade, o relevo e a forma tridimensional da peça – por exemplo. O grupo explica que, ao receberem uma peça, precisam realizar um diagnóstico inicial, que envolve o conhecimento dos materiais constitutivos do objeto, a avaliação do grau de degradação e uma proposta de tratamento que considere os riscos e as especificidades do item. Além disso, todo o processo de restauro deve ser documentado em um dossiê que inclua informações técnicas, análises fotográficas e justificativas das intervenções realizadas.
Visando qualificar o processo de restauração, os pesquisadores apostam em inovação e desenvolvem novas metodologias para a área. No processo de restauração de bens culturais escultóricos, integram o registro técnico e artístico ao uso de tecnologias de escaneamento e impressão 3D. A partir de análises precisas, registram dimensões, espessura, tipologia, entre outros aspectos físicos relevantes, com o auxílio de desenhos vetoriais, desenhos em grafite, escaneamento com nuvem de pontos e impressão 3D. Essas metodologias e tecnologias bidimensionais e tridimensionais contribuem para a preservação dos atributos formais e volumétricos das obras. Caso os bens sejam roubados, perdidos ou degradados, essas informações produzidas possibilitam a restauração ou até a reconstituição parcial ou total do bem, sendo um passo importante para a conservação preventiva do patrimônio cultural.

Benvinda de Jesus, coordenadora do grupo, desenvolveu também um equipamento denominado “leitor de radiografia” para ser usado pelos profissionais de conservação e restauro. “Com esse aparelho, o profissional consegue identificar pregos, parafusos e processos de corrosão dentro das obras”, explica a professora. O conhecimento do que está na parte interna das obras evita riscos de danos durante o processo de restauro. Benvinda reforça também que o foco do trabalho desenvolvido na Universidade é a formação de profissionais de excelência e que o objetivo é que as metodologias e equipamentos desenvolvidos sejam passados para as próximas gerações de conservadores e restauradores da UFRJ.

Ao fim da exposição, as obras restauradas expostas serão devolvidas às suas unidades da Universidade, onde serão utilizadas em aulas, como, por exemplo, os bustos da Escola de Música da UFRJ. Entretanto, não só as unidades envolvidas na exposição são beneficiadas pelo trabalho dos pesquisadores. O grupo conta que restaura diversas peças do acervo da UFRJ, como os órgãos em cera usados nas aulas da Faculdade de Medicina, evidenciando o papel importante dos conservadores e restauradores para a Universidade e a comunidade acadêmica.

A exposição Interlocuções: arte, arquitetura e restauração ficará aberta à visitação até julho de 2026, no segundo andar do Edifício Jorge Machado Moreira (JMM), na Cidade Universitária, com entrada gratuita. A mostra conta com o auxílio da Reitoria da UFRJ e com a contribuição do Centro de Letras e Artes (CLA), da EM, da EBA, da FAU, do Sistema de Bibliotecas e Informação (SIBI) e da Biblioteca Integrada EBA-FAU-IPPUR.
Serviço
Interlocuções: arte, arquitetura e restauração
Local: segundo andar do Edifício Jorge Machado Moreira (JMM), na Cidade Universitária – Av. Pedro Calmon, 550, Rio de Janeiro, RJ – 21941-901
Data: até julho de 2026
Horário: de segunda a sexta, das 8 às 17h
Entrada gratuita
Por Julia Araújo. Sob a supervisão da jornalista Vanessa Almeida.
