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Como os olhos leem: conheça os projetos do Lapex que utilizam rastreamento ocular

Fundado há 30 anos, o Lapex investiga, por meio da tecnologia de rastreamento ocular, como a leitura acontece na prática, palavra por palavra.

O Laboratório de Psicolinguística Experimental (Lapex), da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), utiliza o rastreamento ocular em diversos projetos. A técnica permite acompanhar para onde uma pessoa olha, por quanto tempo permanece em cada ponto e quantas vezes retorna ao mesmo trecho, revelando como a atenção e o processamento da informação acontecem durante a leitura.

O Lapex é atualmente coordenado pela professora Daniela Cid de Garcia e foi fundado há quase 30 anos pelo professor Marcus Maia, referência na área de processamento da linguagem. Foi durante seu estágio de pós-doutorado na City University of New York (CUNY), entre 2003 e 2004, que o pesquisador teve contato com a tecnologia de eye tracking (rastreamento ocular). Nesse período, aprendeu a operar o equipamento e identificou seu potencial de aplicação nas pesquisas desenvolvidas no âmbito do laboratório.

A técnica possibilita acompanhar, em tempo real, os movimentos oculares de um indivíduo durante a leitura. Por meio do uso de câmeras e luz infravermelha, o equipamento registra o tempo de fixação em cada palavra, para onde os olhos de uma pessoa se movem durante a leitura e os trechos que não recebem atenção visual. Como resultado, são gerados dados detalhados, como mapas de calor, que contribuem para a compreensão dos processos cognitivos envolvidos no processamento da informação escrita.

Mapa de calor da leitura de uma das frases utilizadas na segunda etapa da pesquisa

A pesquisa científica aplicada na prática

O Programa Ciência para Educação (CpE), fundado em 2014, também direcionou os  estudos do laboratório. A iniciativa brasileira conecta pesquisadores de diversas áreas, como neurociência, psicologia e computação, com educadores e escolas, buscando traduzir o conhecimento científico em práticas pedagógicas eficazes, resolver problemas educacionais e melhorar o ensino por meio de projetos, prêmios e ferramentas. 

 A proposta do programa é aproximar o conhecimento acadêmico da sala de aula, já que, de acordo com a Academia Brasileira de Ciências (ABC), mais de 90% da pesquisa científica no Brasil é realizada por universidades públicas. Nesse contexto,  o Lapex passou a desenvolver pesquisas mais aplicadas dentro do campo da psicolinguística educacional, realizando oficinas dentro de algumas escolas públicas do estado do Rio. Durante essas atividades, são realizados testes de leitura com alunos de oitavo e nono anos do ensino  fundamental II, na faixa etária de 14 a 16 anos, com o objetivo de avaliar o desempenho na leitura e interpretação dos exercícios e textos didáticos propostos em aula.

Com o uso do rastreamento ocular, busca-se evidenciar como os estudantes efetivamente leem e quais estratégias mobilizam para compreender um texto. A tecnologia permite identificar momentos de desatenção durante a leitura, o tempo dedicado a cada trecho e quantas vezes voltou para reinterpretar o que foi lido. Esse tipo de análise favorece processos de autorregulação, uma vez que, quando o próprio aluno reconhece suas dificuldades de leitura, a tomada de consciência tende a ser mais eficaz do que a simples correção externa. Durante as aplicações nas escolas, por diversas vezes, os estudantes percebiam que estavam ignorando partes do texto. Ao reconhecerem que a dificuldade em responder às questões de interpretação estava relacionada a uma leitura incompleta, solicitavam reler o material e tentavam responder novamente de forma mais adequada.

Há dois anos, o laboratório também começou a desenvolver o projeto chamado Processamento linguístico de estereótipos, voltado à investigação de como estereótipos de gênero influenciam a leitura e o processamento da informação. Na primeira fase da pesquisa, os participantes avaliaram frases e ações em uma escala de 1 a 5, indicando o grau de associação de determinadas atividades a homens, mulheres ou a nenhum gênero específico. Essa etapa foi realizada de forma virtual, e as frases utilizadas foram elaboradas pelos integrantes do Lapex em parceria com pesquisadores colaboradores.

A pesquisa foi feita em parceria com o professor Márcio Leitão, do Laboratório de Processamento Linguístico (Laprol) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com a professora Juliana Novo Gomes, da Universidade do Porto, e também com a Universidade do Minho, em Portugal. O estudo revelou diferenças culturais significativas: os homens portugueses mostraram-se mais conservadores nas respostas, concentrando suas escolhas nos extremos da escala. Entre os grupos analisados, aparecem como os mais radicais, seguidos pelas mulheres portuguesas e pelos homens brasileiros, enquanto as mulheres brasileiras apresentaram respostas mais neutras e progressistas.

Na segunda etapa do estudo, os pesquisadores passaram a observar o comportamento dos olhos durante a leitura de frases que rompem expectativas de gênero, como “Maria observava enquanto João passava batom” ou “Lucas esperou na sala enquanto Júlia fazia a barba”. O uso do rastreamento ocular possibilita identificar pontos de hesitação, regressões do olhar e desacelerações na leitura, evidenciando o aumento do esforço cognitivo provocado por esse tipo de estranhamento.

Essa fase está sendo realizada presencialmente e busca analisar o reflexo ao ler e processar as frases que aparecem na tela do computador durante o teste. Posteriormente, os pesquisadores vão comparar se os padrões se repetem de acordo com o país e a língua falada. “O estudo do estereótipo de gênero é importante para analisar como isso varia de lugar para lugar e como uma ideia pré-concebida pode influenciar a leitura, a cognição, a formação de juízos e a tomada de decisões”, afirma Marcus.

Tecnologia e infraestrutura na pesquisa linguística

Embora frequentemente percebido como uma técnica recente, o rastreamento ocular existe há mais de 100 anos. No Brasil, entretanto, seu uso ainda é restrito, principalmente em função do alto custo dos equipamentos. A UFRJ foi a primeira universidade do país a adquirir essa tecnologia e a empregá-la com fins acadêmicos, sendo o Lapex pioneiro na utilização do rastreamento ocular no campo da ciência e da pesquisa linguística.

Até então, o equipamento havia sido importado majoritariamente por agências de publicidade, onde passou a ser amplamente empregado na área de marketing, devido à sua capacidade de analisar para onde as pessoas direcionam o olhar em anúncios. Essa aplicação permite identificar quais elementos visuais captam maior atenção e subsidiar a criação de campanhas mais eficazes, contribuindo para o aumento das vendas e do engajamento do público com a propaganda.

O laboratório dispõe de dois principais equipamentos de rastreamento ocular: o aparelho sueco Tobii, em suas versões portátil e fixa, e o EyeLink, desenvolvido por uma empresa canadense. A expectativa agora é a incorporação de um novo dispositivo da Tobii, capaz de registrar até 250 movimentos oculares por segundo, o que proporcionará um nível ainda maior de precisão nas análises. O Lapex foi contemplado em um edital interno da UFRJ destinado à aquisição de materiais para laboratórios e aguarda a chegada do novo rastreador ocular, atualmente em processo de importação, com previsão de entrega até o final do primeiro semestre de 2026.

Essa nova aquisição tende a facilitar o desenvolvimento de pesquisas conjuntas e a fortalecer as parcerias internacionais do laboratório. Ao longo dos anos, o Lapex estabeleceu colaborações com pesquisadores dos Estados Unidos, da Europa e da Nova Zelândia. Atualmente, o foco está na ampliação das parcerias com países da América Latina, como Chile, Argentina e Uruguai, o que será favorecido pela utilização de equipamentos compatíveis entre os grupos de pesquisa.

O principal desafio está nos custos: atualmente, os aparelhos mais modernos, fabricados nos Estados Unidos, na Suécia e no Canadá, custam cerca de 250 mil reais, o que dificulta a aquisição de novas tecnologias no Brasil. Após estudos do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN) da UFRJ, surgiu a proposta de desenvolver um aparelho nacional, com custo estimado em torno de 15 mil reais. O projeto ainda está em fase de estudo, e o maior obstáculo até agora está no desenvolvimento do software responsável por controlar a máquina.

 A criação do primeiro aparelho nacional de rastreamento ocular teria potencial para reduzir significativamente os custos de pesquisa e ampliar sua aplicação no campo educacional. Para o professor Marcus Maia, o impacto dessa tecnologia pode ser decisivo, especialmente por viabilizar sua inserção no ambiente escolar e contribuir para a melhoria da leitura dos estudantes. Segundo o pesquisador, “as pessoas leem até certa parte do texto e não extraem ou computam as informações relevantes. Trata-se de uma leitura mecânica, com um processamento muito raso. Vivemos uma infodemia, uma epidemia de informações, que impõe grandes desafios tanto para a educação quanto para a saúde mental”.

*  O texto foi escrito por Tamiris Zapata sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro.