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Meio Ambiente

 Laboratório de Ecologia de Peixes monitora Rios do Sudeste e da Amazônia 

Pesquisadores da UFRJ analisam peixes para entender os impactos de mineração, mudanças ambientais e alterações na qualidade da água

Uma das maneiras de medir a qualidade e a saúde das águas é a observação atenta dos seres vivos que habitam aquele ambiente. Os peixes funcionam como indicadores da qualidade dos rios e, consequentemente, das comunidades que dependem deles. É esse trabalho de monitoramento que o Laboratório de Ecologia de Peixes, do Instituto de Biologia da UFRJ, realiza desde 1988. Atualmente, o laboratório é coordenado por Érica Caramaschi, doutora em Ecologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Natália Lacerda, doutora em Ecologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM); e Míriam Albrecht, doutora em Ecologia pela UFRJ, todas professoras do PPGEcologia, o Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRJ. 

Os projetos de pesquisa envolvem rios e riachos da Mata Atlântica e o monitoramento de rios amazônicos em função de grandes empreendimentos, como aqueles que ficam às margens de mineradoras e recebem rejeitos de mineração. O trabalho envolve observação e, eventualmente, captura e fixação de peixes para registrar o impacto do material coletado. Érica Caramaschi explica a importância dos dados coletados em campo e da associação desses registros ao Museu Nacional para tombamento nas grandes coleções: “É um registro importante porque, se aquele rio está sendo impactado, é importante saber o que tinha antes, durante e depois do impacto. Então, são testemunhos que fornecemos para as grandes coleções para daqui a 150 anos ou menos. Nosso objetivo é dissecar esse material e tentar entender como é que ele se mantém naquele ambiente. Além de que a gente tem bons bancos de dados que permitem análises históricas de alguns problemas ambientais”.

No estado do Rio de Janeiro, o laboratório trabalha com o Rio Macaé, que nasce na Serra de Macaé de Cima, em Nova Friburgo, e deságua no oceano Atlântico, na cidade de Macaé. O rio é fundamental para o abastecimento de água da região. O Rio São João, que nasce na Serra do Mar, no município de Silva Jardim, e deságua na lagoa de Juturnaíba, é a principal fonte de abastecimento hídrico da Região dos Lagos e também é objeto de estudo do grupo. Ambos os rios atravessam os municípios de Casimiro de Abreu e Cachoeiras de Macacu, que também são monitorados pelo laboratório. Caramaschi considera os peixes um termômetro do bem-estar das águas. “Quando a gente está falando de rios maiores, como o Paraíba do Sul, o Rio Macaé e o Rio São João, são rios que já fornecem peixes de grande porte que são usados para consumo, tanto para pesca de subsistência quanto para alguma pesca artesanal ou comercial. Então, é um elemento proteico importante para a comunidade. Se o rio não está bem, o peixe não está bem, e o ser humano, automaticamente, não estará bem.” O Rio Macaé é estudado pelo laboratório desde a nascente até a desembocadura na cidade. O laboratório atua também no Rio Paraíba do Sul, um rio de extrema importância geográfica, considerado um rio federal, pois ele nasce no estado de São Paulo e tem afluentes em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

As expedições à Amazônia

 O trabalho do laboratório em territórios amazônicos começou há 30 anos, por meio de uma atuação interestadual da UFRJ. Os dois projetos de longa duração ligados aos impactos da mineração em rios, lagos, represas, ambientes parados e ambientes correntes são realizados no Rio Trombetas, ao norte do Pará, desde 1990, e na Serra dos Carajás, ao sudeste do estado, desde 2006.

Só nos últimos dois anos, o Laboratório de Ecologia de Peixes já realizou mais de dez viagens entre o Rio de Janeiro e o Pará. A equipe vai à Amazônia, junto a grupos de estudantes, para realizar coletas de dados de peixes, variáveis ambientais e outros indicadores, em parceria com o Laboratório de Limnologia, também do Instituto de Biologia da UFRJ. Após o trabalho de campo, todo o material é levado para o Rio de Janeiro, onde as espécies são identificadas e catalogadas. A partir desses dados, os pesquisadores começam a elaborar projeções sobre como as comunidades de peixes vêm se organizando em termos de riqueza de espécies.

Os pesquisadores analisam também a vulnerabilidade das espécies frente às projeções climáticas e dos impactos causados por barragens. Em seguida, integram essas duas avaliações para construir uma única previsão. Segundo Natália Lacerda, o objetivo é gerar projeções principalmente para espécies com importância ecossistêmica e social, que têm relevância econômica para as populações e que também desempenham funções essenciais na manutenção dos ecossistemas.

No projeto, em Carajás, o laboratório trabalha em alguns cursos d’água amazônicos, os chamados igarapés, localizados em áreas que futuramente serão mineradas, e em outros que já recebem impacto direto. Albrecht afirma que o projeto de mais longo prazo envolve um reservatório de rejeito — um igarapé amazônico que foi barrado e represado especificamente para receber o rejeito da lavagem do minério. 

Luana Mariano, graduanda em Biologia na UFRJ, atua no laboratório desde 2023 e conta sobre as diversas possibilidades que o trabalho abriu para ela dentro do mundo da ciência: “É um laboratório muito importante e que me apresentou ao mundo da pesquisa. Através dele, acabei descobrindo muitas coisas, como as áreas de que eu gostava. Trabalhar com peixes é algo que me fascina, porque eles são um dos grupos mais diversos que existem”. Só neste ano, Luana já realizou duas viagens para a Serra dos Carajás. Ela conta como a experiência pode ser transformadora: “Foi uma das experiências mais fascinantes da minha vida, porque, vindo de onde eu vim [Baixada Fluminense], ter essa possibilidade na graduação é algo que quase ninguém tem. E dentro do laboratório eu tive essa oportunidade. Foi um momento crucial tanto na minha vida pessoal quanto na minha carreira, porque eu percebi que existe um monte de possibilidades fora daqui”.

O Laboratório de Ecologia de Peixes da UFRJ transforma dados biológicos em conhecimento essencial para a proteção dos ecossistemas e das populações humanas que deles dependem. Mostra que é possível utilizar a ciência para unir monitoramento de longo prazo, formação de novos pesquisadores e produção de informações capazes de orientar decisões ambientais. O trabalho do grupo revela que se dedicar ao estudo dos peixes é, em última instância, cuidar da água, da biodiversidade e do futuro das regiões estudadas — do Sudeste à Amazônia.

Por Karen Monteiro. Sob a supervisão da jornalista Vanessa Almeida.