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Capacitação institucional: o papel da Escola do Trabalho na UFRJ

Com diversos projetos, a Escola do Trabalho propõe experiências, preserva conhecimentos e qualifica servidores

Em uma universidade centenária como a UFRJ, em que saberes, rotinas e estruturas extremamente diversas convivem em harmonia, manter a qualidade dos serviços públicos depende diretamente de quem faz a engrenagem funcionar: seus servidores. Nos últimos anos, esse desafio ganhou um novo aliado (e um novo nome) dentro da Pró-Reitoria de Pessoal da UFRJ (PR-4). Trata-se da Escola do Trabalho, título dado ao Centro de Desenvolvimento, Capacitação e Formação Continuada da Universidade, responsável por implementar políticas de valorização, formação e integração dos servidores públicos federais da instituição. 

Criada com o objetivo de unificar práticas formativas e ampliar o acesso dos servidores a capacitações contínuas, a Escola do Trabalho vem se consolidando como um espaço de troca, no qual quem ensina também aprende e onde a experiência acumulada por décadas não se perde com a partida dos profissionais — casos de aposentadoria, por exemplo —, mudanças de unidade ou rotatividade. “A ideia da Escola do Trabalho é ser um espaço onde compartilhamos os diferentes saberes e fazeres que construímos no cotidiano”, relata Joana de Angelis, diretora da Divisão de Desenvolvimento, Capacitação e Formação Continuada (DVDE) da PR-4. 

Integra Minerva: o primeiro passo na UFRJ

Entre os programas já consolidados, o Integra Minerva talvez seja o mais simbólico. Destinado especialmente aos novos servidores, o curso funciona como uma porta de entrada institucional. Antes mesmo de chegarem às suas unidades, os recém-empossados passam por duas semanas de formação, com aulas presenciais e on-line. Durante esse período, eles aprendem sobre direitos e deveres no serviço público federal; ética profissional; funcionamento dos principais sistemas usados na UFRJ (SEI, SIGA, SouGov); políticas de acessibilidade, inclusão e heteroidentificação; a história da Universidade e noções práticas do cotidiano administrativo.

Esse momento é também um espaço de acolhimento. “A missão do Integra Minerva é evitar que o servidor chegue perdido, sem saber para onde ir ou como funciona a Universidade. A gente busca unir a formação do servidor com a necessidade institucional, para que ele trabalhe feliz, produza bem e compreenda a importância do serviço público”, explica Joana.

Para muitos servidores recém-chegados, o programa é o primeiro contato estruturado com a cultura institucional da UFRJ. É o caso de Moyses Almeida, assistente de alunos, que entrou na Universidade em outubro de 2025. Ele conta que o curso o ajudou a compreender não apenas tarefas práticas do trabalho, mas o próprio espírito da instituição: “A história da UFRJ me fascinou, porque eu não a conhecia. O curso me ensinou bastante sobre como proceder no trabalho e me mostrou que o ambiente aqui é de inclusão”. O servidor ainda afirma que se sente valorizado ao participar das atividades da Escola: “A Escola promove reconhecimento e valorização com certeza. Eu recomendaria os cursos para qualquer colega”.

Já o técnico de laboratório do curso de Biomedicina, Danilo Duarte, que ingressou na mesma época, destaca a importância das discussões sobre ética, acolhimento e prevenção a práticas abusivas no ambiente institucional: “Algumas palestras sobre assédio moral me marcaram muito. É um tema fundamental, e os novos servidores já entram sabendo reconhecer limites e identificar situações de violação”.

Ele ressalta também a troca de experiências proporcionada pelas formações: “Foi muito enriquecedor ouvir servidores que já estão há mais tempo, entender suas vivências. Isso valoriza o nosso trabalho e a instituição”. Embora reconheça a força pedagógica do projeto, Danilo aponta dificuldades estruturais: “A estrutura da Escola do Trabalho é um pouco precária e isso afeta a experiência”. A fala ecoa um dos principais desafios apontados pela própria gestão da Escola: a falta de orçamento.

Outro destaque da Escola do Trabalho são as oficinas Saberes e Fazeres. Nelas, servidores mais experientes da UFRJ ensinam aos colegas mais novos conhecimentos desenvolvidos ao longo de suas trajetórias. São cursos sobre aposentadoria, licenças, tramitação de processos, uso de sistemas, normas técnicas, atendimento e rotinas das unidades. Tudo é feito de forma voluntária, por servidores que se dedicam a gravar aulas, preparar conteúdos e ministrar oficinas. Essa dimensão de continuidade e preservação de conhecimento é uma das mais valorizadas pela Direção. Joana lembra o caso emocionante de um professor que, prestes a se aposentar, procurou a DVDE: “Ele disse: ‘Vou embora, mas não quero que esse curso vá embora comigo. Quero deixar essa experiência acumulada de 20 anos’”. Para ela, é nesse compartilhamento que está o coração da Escola do Trabalho: garantir que saberes construídos no cotidiano — e que fazem a Universidade funcionar — não se percam.

Valorização do servidor como política institucional

Joana repete uma ideia central: capacitar é valorizar. A Escola do Trabalho implementa a primeira Política Institucional de Desenvolvimento de Servidores aprovada no Conselho Universitário da UFRJ (Consuni), um marco histórico que estrutura ações de formação antes dispersas.

Mais do que ensinar técnicas, a Escola promove uma visão ampliada sobre o papel do servidor público em um país onde as universidades federais sofrem ataques, cortes e desvalorização. “O servidor precisa entender que ele não passou para trabalhar em uma loja de departamento. Ele passou para contribuir com a manutenção da universidade pública, gratuita, de qualidade, e isso é essencial para a democracia, afirma Joana.” 

Há também um alinhamento com políticas de permanência e institucionalização, algo especialmente sensível para os docentes. Com salários historicamente defasados e alta rotatividade em determinadas áreas, garantir que o professor compreenda sua função social na UFRJ é um caminho para a permanência e para a integração plena ao corpo acadêmico. Os professores que ingressam na Universidade frequentemente chegam sem conhecer a estrutura administrativa que os acompanha; seus direitos e deveres funcionais; procedimentos essenciais para ensino, pesquisa e extensão; políticas de permanência estudantil e inclusão dos canais institucionais de denúncia, acolhimento e suporte. Para resolver essa questão, a Escola do Trabalho está lá.

O trabalho não para. A equipe é pequena e exige muita dedicação de seus colaboradores, mas a expectativa, segundo Joana, é que a Escola do Trabalho deixe de ser apenas um programa da PR-4 e se torne parte da estrutura da UFRJ, com regimento interno e projeto político-pedagógico próprios, centralizando formações de maneira articulada, transparente e reconhecida por toda a comunidade acadêmica. 

No fim, a força da Escola do Trabalho está naquilo que muitas vezes passa despercebido no cotidiano pela maioria e que só se sustenta porque há servidores bem formados, acolhidos e conscientes do papel que desempenham. E é isto que a Escola promove — conhecimento, pertencimento e responsabilidade coletiva. “A UFRJ é difícil de não se apaixonar”, diz Joana, sorrindo. “E, quando você entende a importância do seu trabalho na manutenção da universidade pública, tudo ganha outro sentido.” 

Por Ana Clara Ferreira. Sob a supervisão da jornalista Vanessa Almeida